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Comunicação - Artigos de Opinião

Para que serve a filosofia?


Valdevir Both
Doutorando em filosofia (Unisinos), professor e diretor pedagógico do IFIBE. Paraninfo da turma de formandos do IFIBE 2014.

Discurso de Paraninfo1

Prezadas autoridades acadêmicas já mencionadas pelo protocolo, prezados representantes da mantenedora do IFIBE, prezados colegas professores e funcionários, prezados pais e demais familiares, amigos e todos os presentes, mas muito especialmente, a vocês formandos, que hoje colam grau em nossa Instituição. Agradeço-os pela deferência a mim prestada neste ano, ao me escolherem como paraninfo da turma.


Gostaria de dirigir-lhes algumas palavras, neste que é um dia de grande comemoração para vocês, por terem chegado até aqui. Afinal, mesmo que a caminhada seja gratificante, não é fácil o período de intensos estudos.


Para que serve, afinal, a filosofia? Imagino que esta pergunta tenha sido dirigida a vocês inúmeras vezes, talvez até por algum de vossos familiares aqui presentes, que objetivava contar para algum vizinho ou amigo o que vocês realmente faziam e estudavam no IFIBE. Mesmo reconhecendo que a pergunta, quando questiona pela “serventia” da filosofia já possa ter um vício de origem, ouso arriscar uma possível resposta, se é que alguma seja possível.


Socorro-me nesta empreitada, a uma filósofa, física e ativista embiental indiana, Vandana Shiva (2002)2. Esta autora, ao procurar jogar luzes sobre o presente, fala das “monoculturas agrícolas”, como o fenômeno mais importante do mundo rural contemporâneo. As monoculturas agrícolas, impulsionadas pela técnica, têm mostrado sua característica mais nefasta na destruição da biodiversidade, tão fundamental à “teia da vida”.


Mas, não era sobre agricultura que queria vos falar. Era sobre o papel da filosofia!


Mais uma vez, parece que Vandana Chiva, pode apontar pistas. A autora aponta que as “monoculturas agrícolas” são um sub-produto do que ela chama de “monoculturas da mente”. Ou seja, para ela, a “monocultura agrícola” começa primeiro na mente, para depois chegar ao solo. As “monoculturas da mente” instalam uma forma de pensar unilateral, autoritária, chamada por alguns teóricos de “pensamento único”, que deságua no que o sóciologo português Boaventura de Souza Santos chama de “monocultura do saber ocidental”.


Ao nosso ver, essas “monoculturas da mente”, têm como principal característica o aniquilamento da alteridade, tão enfatizada por autores como Levinas. Da mesma forma como as “monoculturas agrícolas” tendem a não deixar espaço para diversidade biológica, a “monocultura das mentes” não suporta, não consegue conviver com a presença de outros pensamentos, com ideias distintas. Não reconhece outras racionalidades. Ela as deslegitima, as destrói!


O lado mais perverso da “monocultura das mentes”, do ponto de vista da sua concretude histórica, é a produção de vítimas, já amplamente denunciado pelo filósofo Enrique Dussel, que empresta o seu nome a este auditório que hoje nos acolhe aqui.


São essas “monoculturas da mente”, negadoras da alteridade, que produzem discursos como o de um deputado que a poucos meses declarou em público que quilombolas, índios, gays e lésbicas fazem parte do que não presta. Explicam também, a origem de outro discurso proferido nesta semana por outro deputado, que afirmou que não estupraria uma colega de parlamento porque ela não merecia. Está aí a concretude das vítimas.
Mas não é sobre deputados que queria vos falar. É sobre o papel da filosofia. Vamos lá!


Compreendo a filosofia como atitude ou modo de vida crítico, que ao fazer-se no diálogo aberto e permanente, rompe com as “monoculturas da mente” e constrói “multiculturas da mente”. São elas que permitirão a existência de discursos e modos de vida diversos, em que direitos são respeitados. Esta atitude, ética sobretudo, exige o reconhecimento da alteridade e a abertura ao diálogo. É o que parece lembrar Irina Bokova diretora geral da UNESCO, no marco do dia mundial da filosofia deste ano:

"Diante da complexidade do mundo de hoje, a reflexão filosófica é acima de tudo um convite à humildade, a dar um passo atrás e iniciar um diálogo fundamentado, para construir juntos as soluções para os desafios que estão além do nosso controle. Esta é a melhor maneira de educar cidadãos esclarecidos, preparados para combater a estupidez e o preconceito. Quanto maiores as dificuldades encontradas tanto maior será a necessidade da filosofia para dar sentido a questões de paz e desenvolvimento sustentável."3

Se a filosofia pode constituir-se parte ou fundamento das “monoculturas da mente”, a depender de como a compreendemos e dirigimos, pode também romper com elas e colocar-se como ferramenta de construção das “multiculturas da mente”.


Por possuir tal possibilidade, é compreensível que a filosofia, que aos olhos das “monoculturas da mente” serve para tão pouco, seja tão perseguida e dizimada nos tempos de exceção. Afinal, não é demais lembrar, na semana em que a Comissão da Verdade fez a entrega formal do Relatório Final sobre a ditadura militar no Brasil, que os militares extinguiram a filosofia como parte integrante do currículo escolar.


Por fim, em relação a vocês, que hoje recebem o diploma em filosofia, guardo um grande desejo: o de que não abandonem jamais essa atitude filosófica de romper com as “monoculturas da mente”, tão presentes no mundo atual. Tenham a certeza, para isso a filosofia serve, e muito!

Parabéns e muito obrigado!

 

1 Pronunciamento do Paraninfo da Turma no Ato de Colação de Grau realizado no Auditório Enrique Dussel (IFIBE) no dia 13 de dezembro de 2014. Formaram-se 10 novos bacharéis em Filosofia.

2SHIVA, Vandana. Monoculturas da Mente. São Paulo: Global Editora, 2002.

3Mensagem pelo Dia Mundial da Filosofia 2014, publicado em 20 de novembro de 2014 pela Unesco em http://unesdoc.unesco.org/images/0023/002307/230719s.pdf. Original em Espanhol. Tradução livre de Paulo César Carbonari (IFIBE).

Publicado em www.ifibe.edu.br em 22/12/2014

 

 


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