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Comunicação - Artigos de Opinião

Valores e limites - questões éticas e pedagógicas


Paulo César Carbonari
Professor de filosofia (IFIBE) e defensor de direitos humanos (CDHPF/MNDH).

“Não consigo mais fazer a vida deste meu filho”... “está tão difícil educar”... “como ‘dar’ limites para uma criança”... “agora as crianças têm só direitos”... “não tenho nem mais direito de fazer ‘correção’ com os filhos (lei da palmada impede)”... “vivemos um tempo tão relativista, nem sabemos mais direito o que vale e o que não vale”... “que saudade da minha época”...enfim, são expressões que reproduzimos no cotidiano e que nos desafiam a pensar nos valores e no limite como questões éticas e pedagógicas.

Esclarecimento

Pensar sobre questões éticas e pedagógicas é pensar desde o ponto de vista prático. O prático é diferente do teórico e do técnico.
O teórico visa compreender como são as coisas de modo a saber o que são – trata das coisas que são de uma determinada maneira e não têm como ser de outra.
O técnico visa saber fazer, aplicar os conhecimentos para resolver problemas de forma eficaz e eficiente – trata de coisas que podem ser diferentes do que são de modo que se produza mudanças que gerem produtos que atendam ao de que precisamos.
O prático é o conhecimento que também lida com o que pode ser diferente da maneira como aparece, mas seu foco de atenção está na mudança do agente, daquele que age, de modo que ele seja aperfeiçoado. Os conhecimentos práticos dizem respeito à formação de atitudes – mais do que de capacidades (o teórico) e de habilidades (o técnico).
Ética e pedagogia são conhecimentos práticos que visam mobilizar os agentes, colaborando para que transforme seu modo se ser e se aperfeiçoe.

Questões orientadoras

Nossa reflexão será orientada pelas seguintes questões chave: 1) o que são valores? É possível aprender valores? 2) O que são limites? É possível aprender limites? 3) E a escola, e os pais?

1) O que são valores? É possível aprender valores?

Valores são qualidades que reconhecemos nas outras pessoas e em nós mesmos como características próprias, singulares e únicas – não transferíveis – podem ser aprendidos – e que chamamos genericamente de Dignidade – portanto, somente possíveis a pessoas.
Diferenciam-se de Preço, que é uma quantidade que se dá em comparação entre equivalentes – somente possível para Coisas.
Mesmo sendo próprios, singulares e únicos, na forma como se apresentam e são experienciados, o valor é Comum, ou seja, pode ser reconhecido como comum às pessoas, aquilo que as faz iguais umas às outras.
Por esse motivo é que reconhecemos como valores qualidades tais como: justiça, bondade, coragem, lealdade, respeito, cuidado e tantas outras e por seu oposto: injustiça, maldade, covardia, deslealdade desrespeito e abandono...
Dissemos que os valores são passiveis de serem aprendidos. Isso significa que não são inatos, ou seja, não nasceram com as pessoas. Se podem ser aprendidos, como é que se pode aprendê-los?
O melhor modo de aprender valores é fazendo a Experiência pessoal de vivenciá-los. A experiência resulta da aprendizagem que se constrói como reflexão sobre a ação. Uma vivência irrefletida não se torna experiência. A experiência é única, cada um faz a sua, mas ela pode ser trocada, pode-se trocar experiências com as outras pessoas e, desse modo aprender das experiências delas. É tão bom compartilhar experiências... os melhores diálogos são aqueles que fazemos partilhando as sabedorias apreendidas da experiência.
Faz-se experiência dos valores: a) vivendo ou aprendendo da própria experiência [se é justo vivendo a justiça e em relações justas]; b) trocando ou aprendendo da experiência dos outros [se aprende a ser justo convivendo com pessoas justas].
Não se trata de apenas seguir o exemplo, de imitar mimeticamente os outros. Isto não torna ninguém virtuoso. É preciso fazer a própria experiência dos valores. Nisso consiste o principal modo de aprender valores.

2) O que são limites? É possível aprender limites?

Os Limites são a consciência da finitude, de que os seres humanos somos limitados e que, por isso, não podemos tudo. Melhor, é a consciência de que tudo podemos desde que dentro do limite de nossas possibilidades humanas. E falar de possibilidades é falar de Liberdade. Liberdade num primeiro sentido é a consciência dos limites, mas é também a consciência das possibilidades que se abrem. É da consciência do limite que se estabelece a Responsabilidade.
Assim como cada pessoa é única, não há limites iguais para diferentes pessoas porque as possibilidades também são diferentes. Mas há limites comuns e o principal limite comum é que numa se pode ultrapassar o limite que é o Outro, a dignidade do outro.
Cada pessoa está chamada, portanto, a conhecer a si mesmo como seu próprio limite, a respeitar os outros como limite e ao próprio ambiente físico/natural também como limite – o que significa dizer que limite é Relação – a depender do modo como se estabelece a relação se terá compreensão distinta do limite.
Ante o limite são possíveis reações. Três são as mais comuns: a) resistência; b) resiliência; c) inércia. A reação ao limite é da condição humana que, ante a consciência do limite se propõe a ultrapassá-lo, transgredi-lo, transcendendo-o em direção ao Infinito.
Por isso, não há como Dar limites a outros. Mesmo que o Outro seja fundamental para saber o limite e que o limite seja relação, o limite é sempre um Construção. E a construção do limite e também de seu ultrapassamento é sempre tensionado, gera tensionamentos – o que significa que é estar em movimento.
Sendo construções, os limites nunca podem ser imposição desde fora, por processos autoritários. Se são tensionados, então exigem que se lide com Autoridade e não de forma autoritária: autoridade convence; autoritário constrange.
Aprende-se limite quando se sabe seu valor e, assim como o valor, limite se aprende com a Experiência, na convivência com quem tem limites, com quem é Moderado – que é o modo de ser de quem conhece o limite e o modo adequado de “transgredir” limites.
3) E os docentes, e os pais?

Os docentes e os pais são mediadores dos processos éticos e pedagógicos que podem ensejar a afirmação de valores e a construção de limites [ou não]. Como mediadores, são aqueles/as que ajudam as crianças a construir práticas, Experiências que significativamente sejam capazes de oportunizar o viver os valores e o viver o limite.
Não lhes basta dar bons exemplos, nem mesmo fazer boas admoestações moralistas. É-lhes necessário criar condições para que as experiências, e suas trocas, sejam realidade cotidiana...
Sem isso restam recursos autoritários e medidas extremas que em nada ajudam, antes, pelo contrário, só tornam o processo ainda mais difícil e impossível.
Os desafios práticos exigem respostas práticas... assim como desafios teóricos pedem respostas teóricas e desafios técnicos precisam de respostas técnicas.

Publicado em www.ifibe.edu.br em 28/11/2014


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