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Nascimento
Paulo César Carbonari [1]
O nascimento de uma criança é manifestação, a um só tempo, da força e da fragilidade da vida. A fragilidade, pois ela depende e precisa de tudo e de todos. A força, pois ela se faz desde si mesma. Assim conjugadas, força e fraqueza fazem a vida.
A separação da mãe é o início de uma vida com autonomia biológica. Mas é também de dependência daqueles de quem demanda cuidados, dos profissionais, do pai, da mãe e de outros. Sem o corte do cordão umbilical não se completa a formação de uma nova vida; sem que todos os cuidados sejam garantidos, não se afirma a nova vida. O começo da vida fora do útero é a expressão forte de um dos principais conflitos que marcam substantivamente a vida humana: a relação entre autonomia e dependência.
Assim mesmo, na relação é que se afirma o humano. Daí que, o elemento central da vida é a relação, antes de ser a autonomia ou a dependência. Os humanos se fazem na relação com os outros, com o ambiente natural e cultural. É a qualidade da relação que se estabelece e que perdura que determina maior ou menor humanidade, vida humana com melhor ou pior qualidade. Um recém nascido mostra isso de forma veemente. Sem que se estabeleçam relações de qualidade humana não há como a vida prosperar; ela simplesmente fenece, na fragilidade que a caracteriza. É como se toda a sua força ficasse na dependência do mais simples: absoluta atenção e cuidado, gratuitos! Se assim é na origem, assim também haveria de ser ao longo de toda a vida, pois o que é fundante há que ser permanente e, exatamente por ser assim, não pode ser deixado de lado ou secundarizado.
O recém nascido manifesta a exigência de um lugar no mundo. Aparece, de repente, e exige que o mundo o receba plenamente. Além de aparecer, já começa a dizer que chegou, a seu modo, pelo choro. Assim aparece e diz: único em seu ser, diferente, exclusivo! Assim como o espaço recebe e se dobra ao recém chegado; o tempo se comprime em instante: segundos e minutos são determinantes. O recém chegado toma conta do tempo e do espaço, mas, como originário, mostra que com ele começa o novo. Toda a esperança se renova! A esperança de um novo tempo e de um novo mundo, para quem chega e também para quem recebe o que chega.
O recém nascido é presença. Não há como querer o outro, que nasce, senão como é. Ele é a expressão mais forte da exigência da dignidade humana: o querer o outro como ele é e não como a gente gostaria que fosse. Não há como ser indiferente ao que chega. Sua presença é completa. Os que o recebem não podem esperar dele reciprocidade. O nascimento é a expressão da exigência de doação total, do dar sem esperar em troca. Neste momento não há como aplicar a regra de ouro: com o recém nascido não dá para querer fazer de tal modo que o que lhe é feito seja o que se espera que nos seja feito. Não há recíproca. A exigência é de pura doação!
O estranho é que, mesmo que todo dia nasçam bebês, o dia-a-dia é marcado pelo esquecimento destas aprendizagens básicas do nascimento. A sofisticação das teorias e das práticas impede, em geral, de ver e viver este originário do humano que o nascimento renova. Lamentavelmente construímos discursos sofisticados para nos fazer esquecer a simplicidade do viver humano. Quem sabe o discurso silencioso do recém nascido esteja a dizer que viver é cuidar, gratuitamente!
[1] Mestre em filosofia e professor do Instituto Berthier (IFIBE), escrito em alusão ao nascimento de Maria Eduarda, em Passo Fundo, 09 de novembro de 2009.
Publicado em www.ifibe.edu.br em 17/11/2009