Instituto Superior de Filosofia Berthier


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Ler ou não ler: eis a questão

 

Elmar L. Sauer [1]

 

Há pouco Passo Fundo foi palco de mais uma edição da Jornada da literatura, merecendo publicidade nacional. Logo a seguir, Porto Alegre promoveu sua anual feira do livro. Na seqüência acontece a feira do livro local. Estes eventos remetem ao debate da importância e desafios da leitura.

Em muitas escolas o grito dos professores gira em torno da desmotivação dos jovens pela leitura. Atestam alguns que a leitura já não rima mais com internet, computação, enfim não encanta a geração virtual.

 

Há poucos dias o “Fantástico” (Globo) desafiou o público para a criação de um vídeo acerca da série “Crepúsculo”, que trata do amor impossível entre um vampiro e uma adolescente. Muitos candidatos se apresentaram, fazendo suas produções.  Aos vencedores dos três melhores vídeos foi proporcionado um encontrar com o casal dos intérpretes (artistas) que fizeram o filme, baseado nesta literatura.

 

A “sede” pelo assunto trouxe à tona outras informações: a prazer pela leitura, dando conta de uma adolescente (16 anos) que leu em poucos meses mais de 5.000 páginas, entre textos de Harry Potter e da série Crepúsculo. A mesma garota dizia que detestava as leituras indicadas e exigidas na escola. Ademais a figura do “vampiro”  (seu “look”) inspira o comportamento de muitos jovens: vestimentas, corte de cabelo... Outro dado expressivo: no Brasil, onde lastimavelmente, o livro é muito caro, o texto de Harry Potter vendeu mais de 3 milhões de exemplares; a série “Crepúsculo” já ultrapassou a venda de 696 mil exemplares.  Esses dados apontam para uma perspectiva que merece análise. Por alguns títulos vendem tão bem? Porque alguns relatos fascinam tanta gente, especialmente jovens? Por que os clássicos da literatura universal não fascinam mais: Cervantes, Dostoievsky, Tolstói, entre muitos outros?

 

Costumamos comentar muito acerca do fenômeno da perda de paradigmas, da atomização de tudo, do tempo do provisório e do transitório, todos rótulos usuais do tempo “pós-moderno”.  Ao lado disso, todavia, de fato observamos que, de alguma forma, por caminhos diferentes, continua existindo formas diferentes de perpetuar grandes relatos, novas modalidades de perpetuar mitologias. Continuaria sendo esta uma maneira de transmitir valores fundamentais da condição humana? A luta do bem contra, por exemplo, é contemplada neste tipo de literatura, adaptada ao cinema, manifesta um poder extraordinário de fascínio e encontra enorme ressonância na “consciência” das gerações jovens. Este fenômeno nos remete a uma pergunta fundamental: por que alguns relatos emplacam e outros geram tédio? Onde reside a diferença?

 

Sob outra perspectiva, vivemos a saturação (talvez desilusão) do racional. Numa sociedade onde a tecnologia e burocracia engessam os projetos sociais e políticos, o surgimento ou a renascença da mitologia encontra um eco expressivo.  É pertinente a pergunta: buscamos nas fantasias as respostas que não encontramos na realidade do dia-a-dia?

 

O fato é, enfim, não podemos generalizar: há literaturas que cativam, há jovens que tem prazer em ler. Há muitos adolescentes que encontram “sentido” no cinema feito a partir de literatura que cria e difunde relatos do estilo mítico, os chamados meta-relatos, o que demonstra que há valores fundamentais submersos no cotidiano que continuam sendo o sonho da humanidade: a necessidade de encontrar um sentido para o viver, mesmo quando o caos parece prevalecer.

 

 

 

 

 


[1] Mestre em história e professor no IFIBE

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 12/11/2009


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