Instituto Superior de Filosofia Berthier


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Artigos

 

 

O planeta terra ainda tem salvação?

 

 

Roque Zimmermann [1]

 

 

Mesmo tendo na mente a interrogação acima já há semanas, principalmente após a leitura de “Seis Graus”, de Mark Lynas (Zahar, 2008), além de uma série de outras obras sobre o tema de aquecimento global, a revista Planeta (dezembro de 2009, p. 32-38) me inquietou com a manchete “Até quando a terra resiste?”,  brindando-me com o excelente artigo “Cop 15 – A terra pede socorro”. Ainda impactado com a leitura deste artigo, recebo a revista Carta Capital, n. 574,  de 2 de  dezembro 2009 (p. 56-57) e me deparo com artigo sob o título – contrariando Antônio Conselheiro - “Antes que o sertão vire deserto” comentando as conclusões de  60 especialistas em climatologia que esboçam um “Cenário desolador para o Nordeste e a Amazônia”.

 

Não posso negar que a leitura de umas dezenas de obras científicas e outros tantos artigos de divulgação, assim como os últimos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, em inglês), da ONU, da FAO, e principalmente acompanhando o noticiário nacional e internacional sobre os fenômenos climáticos ocorrendo em toda parte, não consigo ser nada otimista.

 

Como professor e estudioso deste fenômeno, melhor, destes fenômenos (porque são muitos, díspares e contraditórios) propus-me fazer dois levantamentos: o primeiro sobre a produção científica nacional e internacional em torno do tema do aquecimento global; o segundo sobre os principais fenômenos concretos acontecendo atualmente mundo afora e, agora, principalmente no Brasil. Concluí que deveria parar por não dar conta de qualquer um dos dois propósitos. É tanta a publicação, são tantos os acontecimentos trágicos destruindo casas e demais pertences e causando prejuízos de incomensurável ordem, que é literalmente impossível dar-me conta de tudo. Seria este o caos do qual falam as religiões, as ciências e as filosofias? Ou seria este o começo do fim do mundo que todos temem?

 

É verdade, Copenhague está ocorrendo. Escrevo estas linhas nos exatos dias de sua realização. Fi-lo de propósito: queria assegurar-me do clima que a move. Neste encontro internacional, o quarto do gênero: Estocolmo (1972), Rio de Janeiro (1992), Kyoto (1997),  mais uma vez, dezenas de chefes de Estado e de Governo, cientistas, representantes de ONGs, imprensa, enfim, o mundo todo estará presente. Dezenas de reuniões, discursos grandiloquentes, juramentos e propósitos generosos, rios de tinta,  montanhas de papel se seguirão e  se gastarão, empestando mais uma vez a natureza e milhares de toneladas de CO2 (gás carbono). Terá algum proveito? Trará algum fruto? Os pobres do mundo poderão ter alguma esperança?

 

Infelizmente, os resultados das conferências anteriores, as idas e vindas da preparação da atual, a manifesta má vontade dos governos de alguns países, bem como da maioria dos setores sociais mais poluidores do planeta não me propiciam grandes  expectativas. Entretanto, entre cético e esperançoso, lembrando Margareth Tuchner, em seu memorável “A marcha da insensatez”, aposto esta vez na sensatez da humanidade. São as gerações futuras que estão em jogo, ainda que a presente não deixe de ser atingida brutalmente pelas consequências da irresponsabilidade nossa e das gerações passadas. Estas, ao menos, tinham a desculpa da ignorância. Não sabiam e pouca chance tiveram de conhecer os efeitos danosos da depredação da natureza e da poluição da atmosfera que estavam cansando. Já nossa geração não tem escusas. Sabemos, experienciamos progressivamente e temos como saber mais. Se não o fizermos, haveremos de pagar caro e o preço maior será pago mais uma vez principalmente por quem tem pouca ou nenhuma culpa em cartório.

 

Concluo, como costumo concluir ultimamente todos os meus trabalhos e falas sobre o tema: só uma profunda mudança de consciência, de atitudes, de sentimentos (como diria carinhosamente Leonardo Boff) poderá dar-nos alguma esperança. E esta não será fruto só de atitudes dos governos, nem só das organizações da sociedade civil ou de indivíduos particulares. Será fruto do empenho de todos. Como indivíduos – e é isto que mais nos interessa no presente momento –, importa, antes de tudo, informar-nos mais e melhor sobre o problema, tomar todas as atitudes concretas que estão ao nosso alcance e que visam preservar a natureza e o planeta, convencer o maior número de pessoas a fazerem o mesmo e, sobretudo, exigir dos governos – não importa de que esfera: federal, estadual ou municipal – que promovam todas as políticas pertinentes, abrangentes e urgentes,  porque não há mais tempo a perder. 

 

 

 

 

 


[1] Professor do IFIBE, padre dos Missionários da Sagrada Família

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 10/12/2009


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