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Discurso do orador: turma 2007 [1]
Nelson Luz de Oliveira
Aos professores e professora, funcionários e funcionárias da casa, convidados e convidadas que se fazem presentes, minhas saudações.
Quero, em primeiro lugar, me congratular com os pais e mães destes jovens colegas formandos. Entrevejo, em seus espíritos, a satisfação por ver cumprida uma importante etapa da formação de seus filhos.
A mensagem com que me dirijo a vocês tem a ver com a busca do entendimento dos enigmas que se apresentam ao homem e o levam a ocupar-se da filosofia. Existe no mundo um mistério que nem mesmo a loucura do cotidiano consegue fazer esquecer. Mesmo os avanços da técnica e da ciência que despertam fascínio e polêmica não nos afastam desse encantamento. Ao contrário, dele nos aproximam. Haverá alguém que, diante do universo, já não se indagou de onde veio tudo isso? De onde viemos nós?
Tais perguntas acompanham desde muito o ser humano e, ao longo dos séculos, muitos tem procurado a resposta para elas. De tentativa em tentativa amplia-se o leque dos interesses humanos. Matemática, geometria, física, química, biologia, etc., tudo se deve a uma curiosidade inicial que alguns homens da Grécia Antiga procuraram satisfazer usando a razão. Deixaram de lado a explicação de que os deuses eram os responsáveis pela vida e seus fenômenos para buscar outro tipo de respostas. Estavam criando o que hoje conhecemos por filosofia, termo oriundo do grego e que significa amor ao conhecimento.
A filosofia poderá parecer, para muitos, não mais que um devaneio, uma especulação infrutífera que jamais se encerra. Essa, porém, será sempre a impressão de quem a observa de fora, sem conhecê-la, sem penetrar sua essência.
Nós, hoje concluintes do Curso de Filosofia do Ifibe, fomos introduzidos na intimidade da filosofia com tão variadas expectativas quanto diversos seriam os olhares que acabaríamos tendo, já na experiência de examinar o que a constitui.
Percebemos, então, cada um a seu modo, que o exercício de filosofar nos concede a oportunidade de vermos mais e com maior clareza.
A mente do estudante de filosofia, seja acadêmico ou não, é conduzida incessantemente para a reflexão. Esse é o movimento que nos provoca a sensação de deslumbramento ante as descobertas e as desvelações proporcionadas por tantos pensadores, desde os mais destacados aos menos conhecidos. E é assim que sofremos a tentação de internalizar conceitos que admiramos, esquecendo que a nós mesmos está confiada a tarefa incontornável de zelar pelo desenvolvimento de nossas idéias, pela satisfação de nossas inquietações.
Aqueles que se resolvem ou se sentem atraídos a filosofar terão de assumir, por força de sua resolução, uma certa responsabilidade, um compromisso a impor condições, as quais transcendem o que possa haver de posições injustificadas e irredutíveis no ser humano. Assim, o caminho do filósofo é um indesviável compromisso com a natureza da filosofia, isto é, o próprio sentido do real e de sua verdade. A autenticidade, não só de uma filosofia, mas também a de uma vida filosófica, depende da manutenção de sua fidelidade ao real.
O exercício da filosofia decorre do questionamento e da investigação. É, por esse modo, o exercitar do senso crítico e o aguçar da curiosidade. O conhecimento filosófico difere do conhecimento comum, aquele que não tem fundamentação; não há, portanto, lugar para a expressão “eu acho”. Todo conhecimento filosófico é atingido por meio de algum método de investigação.
Finalmente, quero evocar aqui um assunto filosófico e ético palpitante, o mais atual e urgente de todos, aquele do qual não poderia me furtar nesta oportunidade. Para isso digo aos que não sabem e relembro aos que já o sabem que Gaia é o nome poderoso e também carinhoso dado ao planeta Terra pelos antigos gregos, na intenção de representá-lo como um sistema único, vivo e auto-regulador.
A respeito de Gaia quero provocá-los, captar sua atenção, partilhar nossos temores comuns, suscitar um desafio, quem sabe ainda seja possível?
Busquemos requisitos para repensar o sentido da vida, seja na evocação do bem comum, da autolimitação e do autocontrole como novas formas de relacionamento com Gaia, na invocação de um novo jeito de entender a essência do ser humano dentro da natureza. Nesta hora em que a “humanidade deve escolher o seu futuro”, como nos diz a Carta da Terra, aprovada pela UNESCO em 2000, devemos repensar a Terra como o nosso lar e deixar-nos envolver por suas dores e sua vida, ouvir a voz da nossa “casa-maior-comum”. Essa nova ética aponta para a mudança nas normas de comportamento, uma vez que os padrões atuais estão levando nossa morada à bancarrota. A escolha a nós se apresenta de modo cristalino e evoca uma responsabilidade universal que implica o cuidado com as condições de nossa existência no futuro. É preciso que nos sintamos de novo uma “parte”, protegendo e restaurando, dando chance para que a casa se regenere em vista do bem-estar de toda a comunidade de vida que forma esse ser vivo a que chamamos Gaia.
[1] Discurso proferido no Ato de Colação de Grau do Curso de Bacharelado em Filosofia, realizado no IFIBE em 12/12/2009.
Publicado em www.ifibe.edu.br em 12/12/2009