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O amor filosófico [1]
João Alberto Wohlfart [2]
Minhas saudações cordiais ao diretor geral do IFIBE, professor José André da Costa. Em seu nome estendo as minhas saudações a todos os componentes desta mesa, a vocês, pais e familiares dos formandos e público em geral, aqui presente. Minha saudação muito especial a vocês, Bacharéis em filosofia, meus queridos afiliados.
Esta solenidade de formatura é revestida de um significado muito especial para todos nós, pois representa um coroamento feliz de uma trajetória intelectual, de um curso, de uma viagem por dentro das principais questões filosóficas, problemas filosóficos e compreensões filosóficas de mundo. Vocês estão felizes porque estão vivenciando intensamente o sentimento intelectual e o amor filosófico pela conclusão do curso de filosofia. Este é o momento mais adequado para integrar duas dimensões antropológicas fundamentais, a episteme filosófica e o amor a este saber, na vivência da mais genuína definição de filosofia: amor à sabedoria.
Na condição de padrinho desta turma, sinto-me honrado em partilhar diretamente os sentimentos, as conquistas e o sentido filosófico desta solenidade. Nas muitas horas e nas várias disciplinas filosóficas por mim ministradas, juntos aprendemos, mutuamente nos desafiamos, nos suportamos e construímos desafios filosóficos. Na condição de intérprete, algo é possível dizer da experiência intelectual que empreenderam ao longo destes três anos. A principal delas talvez seja a difícil trajetória de superação do conhecimento vulgar quotidiano e a progressiva introdução no pensamento filosófico, com todas as suas exigências e rupturas. Cada um de vocês sabe como aconteceu esta dura passagem. A configuração da qualidade do saber filosófico que estão vivenciando, ultrapassa o grau de uma mera informação acerca dos autores, temas e disciplinas filosóficas. Vocês estão qualificados na habilidade da formulação de problemas filosóficos e na problematização crítica de textos e de questões legadas pela tradição. Vocês são privilegiados porque desenvolveram um conjunto de conhecimentos filosóficos a partir dos problemas do nosso contexto histórico atual.
Mais importante que uma viagem crítica pelo universo das questões filosóficas oferecida pelo curso, é a opção pessoal por um autor ou por um problema filosófico. A elaboração da monografia caracteriza uma síntese pessoal, um olhar filosófico pessoal e um estilo de argumentação com os quais cada um melhor se identifica.
Não é fácil interpretar a situação filosófica comum que lhes caracteriza como turma. Nas Monografias, considerando as diferentes abordagens, é explícita a opção conjunta pela filosofia prática. Certamente, ela requer tanto esforço intelectual quanto uma filosofia eminentemente teórica. Conjuntamente, vocês optaram por um campo filosófico altamente relevante e urgente para os nossos dias: a ética filosófica. Isto significa dizer que o olhar filosófico que vocês desenvolveram insere-se no contexto das questões filosóficas mais significativas de nosso tempo. Esta solenidade tem como componente motivador uma ação humana edificadora da liberdade. Esta não é constituída desde uma perspectiva individualista, mas a ação libertadora de cada ser humano estende-se na libertação e na construção da liberdade dos outros. Diante das evidentes formas de coisificação do ser humano e de subordinação aos interesses econômicos e de mercado, a missão do filósofo é a desqualificação crítica destas situações estruturais e a promoção de condições para a construção da liberdade humana. Diante das contínuas ameaças do poder mágico e impessoal do poder econômico e da mídia, é vossa missão resgatar o ser humano como sujeito de direitos.
Vocês alcançaram um invejável grau de conhecimento filosófico. A nossa sociedade como um todo está muito aquém da qualidade do vosso saber filosófico. Jamais utilizem este saber como uma justificativa escondida de manipulação e de dominação. O compromisso livremente assumido por vocês é transformar o conhecimento num compromisso ético e político. Como vocês alcançaram o grau epistêmico do sol filosófico, não dissolvam esta conquista num unilateral retorno ao senso comum e ao conhecimento quotidiano. Somente voltem à caverna para libertar as pessoas e produzir novos filósofos. O conhecimento filosófico não justifica o senhorio de alguns que sabem ou julgam que sabem e que impedem a emergência do saber dos outros mantidos na escravidão. Vosso saber terá plena legitimidade quando a ação contribui na libertação dos escravos da sociedade, prisioneiros de tantas formas mistificação produzidas pela sociedade contemporânea de consumo.
Vosso compromisso ético e político com a filosofia deve conduzir à determinação teórica e prática. O conhecimento filosófico conquistado tem uma finalidade prática de voltar à sociedade na condição de parceiros éticos de libertação das pessoas. Mas também compreende uma finalidade teórica de interpretar o mundo de hoje pelo viés dos instrumentos hermenêuticos e críticos da filosofia. Tenham a coragem de fazer uma leitura teórica da prática para inaugurar uma prática mais libertadora. Nunca separem a teoria e a prática. A separação reduz a prática a um operar empírico e mecânico, e a teoria numa especulação vazia e sem vida.
A refinada percepção filosófica está muito bem sintetizada na frase que vocês escolheram como tema desta formatura: “nossa filosofia depende, em primeira instância, do amor que nutrimos pela sabedoria e do respeito que temos pela Vida”. Vocês sabem muito bem que o exercício filosófico não é uma pura especulação teórica afastada da realidade histórica dos homens. Não existem condições favoráveis para o desenvolvimento da especulação filosófica quando a mesma está desvinculada do amor à vida. As condições do filosofar se tornam efetivas quando acompanhadas pelo amor ao pensar e pelo compromisso ético com o desabrochar da vida. A frase motivadora escolhida por vocês reflete, por um lado, uma fundamental questão filosófica da atualidade; por outro, está amplamente radicada na tradição filosófica. São conhecidas as tentativas de aproximação do real e do racional, do pensamento e da ação, da vida e da história em muitos dos nossos filósofos. Seguramente, não encontramos a razão filosófica nas alturas numênicas de um universo inteligível afastado do mundo real, mas a mesma está inscrita no dinamismo de todas as formas de vida e da natureza. Penso que a frase compreende a defesa da natureza e da ecologia; compreende igualmente uma questão antropológica fundamental de inserção do homem na natureza. A razão filosófica não é simplesmente anterior ou superior à natureza, mas a força vital de auto-organização nas múltiplas formas de vida. A vida humana não é a antinomia negadora do Logos da natureza, mas a sua afirmação mais qualificada. A razão filosófica humana caracteriza o olhar filosófico no qual a natureza, o cosmos e o universo esboçam a auto-reflexividade.
A formação filosófica de vocês não acaba por aqui. Esta solenidade representa uma etapa da viagem pelo universo da filosofia. Não substituam o conhecimento filosófico por outra forma de conhecimento considerada mais importante. Continuem os estudos filosóficos através da leitura de textos ainda não lidos, na retomada de textos já conhecidos e na realização de cursos de pós-graduação em filosofia. Não fujam da rica tradição filosófica da qual todos nós somos legítimos herdeiros. Voltem a ler o velho Platão, o velho Tomás de Aquino, o velho Kant, o velho Marx em “o Capital”. Leiam estes textos e muitos outros a partir dos problemas típicos de nosso tempo e a partir dos recursos de interpretação atualmente disponíveis. Desenvolvam uma posição filosófica diante dos grandes fenômenos da atualidade, particularmente os problemas ecológicos, a globalização, os países emergentes, os problemas políticos, a comunicação virtual etc. Não permitam que a vida filosófica se apague e seja dissolvida pelo mundo do trabalho, pela economia e pelos negócios.
Retornem ao Ifibe, não como filhos passivos, mas como portadores de novo saber filosófico. Publiquem textos nos mais variados meios e instrumentos que a Instituição oferece. Visitem a Instituição e respirem os ares filosóficos que circulam neste espaço intelectual. Difundam na sociedade a sabedoria filosófica que construíram neste espaço.
Está de parabéns o Instituto de Filosofia Berthier porque “lança no mercado este mais novo produto filosófico”. Estão de parabéns vocês, formandos, os verdadeiros sujeitos desta conquista. Vocês desenharam um perfil filosófico que ultrapassa as nossas imaginações em sala de aula e as conversas de bastidores. Estão de parabéns vocês, queridos pais, mesmo que nunca tiveram aulas de filosofia, são os mestres da vida e do amor. Mesmo que não tenham o domínio metódico e metodológico da especulação filosófica teórica, a vossa sabedoria faz pulsar a excelência da vida filosófica. Está de parabéns a nossa mãe filosofia, simbolizada na coruja de minerva e no canto do galo da madrugada. Novos filósofos mantém viva a chama da especulação filosófica num contexto de coisificação do ser humano e de mercantilização das relações. Novos filósofos fazem prevalecer a liberdade diante das formas de sua negação. Parabéns a todos nós e boa festa filosófica. OBRIGADO!
[1] Discurso proferido como Paraninfo da Turma 2007 no Ato de Colação de Grau da Turma de Bacharelado em Filosofia do IFIBE, no dia 12/12/2009.
[2] Doutor em filosofia pela PUCRS, professor de filosofia no IFIBE.
Publicado em www.ifibe.edu.br em 14/12/2009