Instituto Superior de Filosofia Berthier


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Conhecimento, verdade e sabedoria [1]

 

José André da Costa [2]

 

Numa conversa com uma acadêmica do I semestre/2009 do IFIBE ela perguntou-me como era possível falar de Deus e sustentar o “discurso da fé” numa época digital como a nossa? Simplesmente respondei a ela que este era um momento próprio e qualificado para se falar de Deus e para sustentar o discurso articulado sobre a fé bíblia. E continuei a conversa com ela dizendo que era uma época também própria para se articular o discurso entre Fé e Razão, como também, entre Religião e Ciência. Um desafio notável para Igreja, em nosso tempo, é ter a capacidade crítica de sustentar e conciliar a teoria científica com os dados da Revelação, levando em conta a refinada, complexa e avançada tecnologia em conjunto com os pressupostos teológicos da fé.

 

Uma coisa é o conhecimento da revelação bíblica sobre Deus, outra coisa bem diferente é o conhecimento científico baseado na verificação matemática e na experiência. Tomaremos aqui o trabalho do filósofo Karl Popper que dedicou a sua pesquisa sobre a Filosofia da Ciência, com seu livro “A Lógica da Investigação Científica”, afirmando que para algo ser científico era preciso ter uma “brecha” para sua falsificação. Isto significa dizer que toda afirmação científica é passível de ser verificada para ver se é falsa ou verdadeira. Popper vai dizer que em todo discurso científico tem que haver a possibilidade de sua falsificação ou de provar sua falsidade. Os dados experimentais constituem elementos fundamentais para produzir sua própria contradição. Isto é possível através de uma nova hipótese gerada da acomodação destes novos dados conflitantes com a tese original, abrindo espaço para o contínuo progresso da Ciência. Desta maneira poderemos sempre verificar o progresso da ciência, uma vez cumulado e regrado. Isto é possível a partir de novas pesquisas acadêmicas, o que denota a evolução do conhecimento científico na história. Já o mesmo não se pode verificar no discurso sobre a Fé, no conhecimento da Revelação de Deus na História. Quando Jesus disse que “Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, igualmente poderíamos dizer que Jesus é o “eixo metodológico e epistemológico” do ensinamento de Deus na História, tanto numa perspectiva sociológica, como soteriológica. Com isso não se está dizendo que devemos separar Deus da História. Não há duas histórias: a da salvação e a humana. Deus se dá a conhecer na História, por isso a Revelação é o que fundamenta a Fé bíblica.

 

A verdade de Deus, baseada na fé, não é passível de evolução ou de mudança  e muito menos dá para acrescentar algo de teórico à Revelação. o que se pode chamar de fé já está contido na Bílblia que segundo seu preceito não se pode tirar nem acrescentar uma vírgula. Deste modo o nosso relacionamento com Deus se dá pelo dom da fé recebida de Deus e pelos ensinamentos que é nos dado pelo Evangelho de Jesus Cristo na ação do Espírito Santo. São Paulo na sua conversão ao projeto de Jesus escreveu aos Romanos dizendo: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Rm. 10, 17). Porém, diante da teoria da Ciência de Karl Popper perguntamos: A fé é algo passível de verificação, na perspectiva da falsificabilidade? Como conjugar a teoria científica de Popper com os pressupostos teológicos do cristianismo? Só podemos responder dizendo que os princípios da verdade teológica são diferentes dos princípios da verdade científica. Os princípios teológicos estão fundamentados nos dados da Revelação, já os princípios da ciência estão fundamentados nos dados matemática e da experiência. A fé não se limita aos fenômenos naturais, ou seja, não está baseada nas leis da física. As leis do cosmo não são contraditórias aos desígnios de Deus, mas não podem regrar a Revelação da fé. As leis da física não acrescentam algo novo à Revelação. São Paulo escreveu com veemência aos Hebreus: “ Ora, fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem” (Hb. 11, 1). Fundamento e prova, formam a sustentabilidade teórico-espiritual da fé cristã. Neste sentido a fé não necessita de nenhuma “reforma epistêmica” de seu discurso teológico. A fé como um dom de Deus não pode ser alterada ou negada. A rigor a fé é o resultado da convivência humana e da Revelação de Deus, aprendida nos ensinamentos e testemunhos daqueles/as que nos antecederam na fé, ao longo da História.

 

Assim, a perspectiva da epistemologia de Popper em relação ao conhecimento do Evangelho perde, de certo modo, sua importância para a dimensão da fé, porque a fé propriamente dita no seu campo teológico-revelacional contém o conhecimento de Deus na ação de Jesus Cristo na História. Para concluir este momento de nossa meditação sobre o Evangelho proclamado nesta liturgia de formatura, citaremos São Paulo novamente: “Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebeste, seja anátema” (Gl.1, 9). A lógica da fé é a própria fé, quando vivida racional e sensivelmente. Então, queridos/as formandos/as com a filosofia que vocês aprenderam no IFIBE façam sempre o caminho da racionalidade para a sensibilidade e vice-versa. Que o Deus revelado em Jesus Cristo abençoa vocês, enquanto forem estradeiros/as deste mundo.

 

 

 

 

 

 

 


[1] Homilia proferida na missa de ação de graças e de formatura dos acadêmicos/as de filosofia do IFIBE – Turma 2007, em 12/12/2009.

[2] Padre dos Missionários da Sagrada Família (MSF), diretor-geral e professor do IFIBE.

 

 

 

 

   

Publicado em www.ifibe.edu.br em 12/12/2009


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