Um pouco de Montaigne

Paulo César Carbonari [1]

 

O processo educativo é sempre marcado por aprendizagens mútuas tanto do professor quanto do aluno. Um exemplo disso é a dinâmica de orientação de trabalho monográfico de conclusão do curso de graduação em filosofia. Nessas ocasiões somos desafiados, na função docente, por alunos que se propõe a pesquisar temas e autores nem sempre conhecidos e de nosso interesse imediato de pesquisa. Neste ano temos sido provocados à orientação de uma pesquisa sobre Michel de Montaigne. A provocação, aceita, tem resultado em estudo, retomada e reflexão. O que é, acima de tudo, gratificante e revelador. Sem o interesse de apresentar e muito menos de aprofundar o pensamento filosófico de Montaigne, interessa-nos nesta breve reflexão não mais do que trazer um trecho de um de seus ensaios para nos ajudar a, quem sabe, entender um pouco do que é nosso tempo.

Antes, porém, uma rápida apresentação para informar que Michel de Montaigne (nome adotado em razão do castelo habitado pela família, já que foi batizado Eyquem) é um dos filósofos que, por razões em geral pouco definidas, figura entre aqueles pensadores pouco estudados em nossas escolas de filosofia. Não porque é menos importante; talvez porque ainda seja pouco conhecido. Filósofo francês da região de Bordeaux, viveu no século XVI (nasceu em 1533 e morreu em 1592), é certamente um dos importantes renascentistas e dos fundadores da filosofia moderna. Seu estilo de produção filosófica foi inovador por ter introduzido o modelo Ensaios, aliás título de sua obra mais conhecida (e já traduzida e publicada no Brasil em Os Pensadores). Descrente da possibilidade de a racionalidade humana angariar condições para falar do mundo, recolheu-se à tarefa de falar de si mesmo, de seu próprio eu (“Caro leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro”), o que, a rigor, também é possível somente de forma parcial, dada a condição contraditória e cambiante do próprio eu. Como diz em um de seus Ensaios: “Eu nada tenho a dizer de mim sólida, simples e inteiramente, sem confusão e sem mistura, nem uma palavra [...]. Não há descrição que iguale, em dificuldade, à descrição de si mesmo”. Com isso, pode-se dizer, inaugura a tradição moderna da subjetividade como chave da filosofia.  Sem pejos de classificação, assunto polêmico entre os especialistas, pode-se dizer que a postura de Montaigne bebe da tradição clássica dos céticos e dos estóicos para construir seus Ensaios que repõem estas posições no contexto de seu tempo, já que é arguto observador do que se lhe passa.

No ensaio intitulado Da desigualdade entre os homens Montaigne diz: “Por que, portanto, antes de julgar um homem o encaramos já todo empacotado? Nada do que nos mostra é dele e ele esconde tudo o que pode esclarecer-nos a seu respeito. O que precisamos saber é quanto vale a espada e não a bainha, porquanto talvez não demos grande coisa por ela. É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. [...] Quando consideramos um camponês e um rei, um nobre e um plebeu, um magistrado e um simples particular, um rico e um pobre, uma enorme diferença nos salta aos olhos, mas essa diferença não consiste por assim dizer senão na diversidade de calçado que usam uns e outros. [...] Tudo isso, em suma, não passa de cenário, não constitui diferença essencial entre os homens. Esse homem não passa afinal de um homem. Se não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo”.

Impressionante a argúcia da leitura de Montaigne. Por um lado, parece descrever o que é, em grande medida, a maneira como lidamos com as pessoas no século XXI!. Afora a expectativa típica de Montaigne no sentido de posicionar a filosofia como tarefa de saber o humano, mais do que o que são os outros, o que se é como si e como outros de si mesmos, interessa-nos comentar rapidamente quão é instigante esta passagem para refletir o que é tratar do humano em nossos dias!

A expressão “empacotado” parece resumir bem a maneira como os humanos se apresentam hoje. A grife é o pacote que desiguala as pessoas! Ela esconde o que faz os humanos serem humanos: “Esse homem não passa afinal de um homem”.  Impede “julgar o homem em si e não pelos seus adornos”. Desigualiza os humanos por escondê-los e por confundir o que os humaniza: “essa diferença não consiste por assim dizer senão na diversidade de calçado que usam uns e outros”. Pior, sugere tornar os que não podem ter acesso à marca, simplesmente por não humanos ou humanos de categoria inferior, inferiorizados.

Lembrei-me do que disse meu pai que, num final de tarde de sábado, quando uma de suas netas chegou-lhe para apresentar a calça nova que estava vestindo: mostrou-lhe a etiqueta, a marca, a grife. Em sua simplicidade disse-lhe o que Montaigne expressou com outras palavras: “Na minha época não era a coisa que dava valor à pessoa e sim a pessoa que dava valor à coisa”. Um trocadilho brilhante, carregado de sabedoria prática. Particularmente, veja-se como usou a palavra “valor” e seus múltiplos sentidos, ditos e entreditos. O cenário, o pacote, os adornos, os diferentes sapatos, não são a pessoa, o humano. No fundo, não tem potência para constituir “diferença essencial entre os homens”. A rigor, os humanos são todos iguais. Em quê e por quê? Simplesmente porque humanos: “Esse homem não passa afinal de um homem”. Seu valor está no que é ele próprio: “Se não tiver valor próprio não lho dará o império do mundo”.

Ora, como diz Montaigne, se “é pelo gozo e não pela posse que somos felizes”, resulta que o que faz o humano é o sentido que ele próprio dá a si mesmo e como as coisas das quais dispõe lhe servem para viver bem. A posse de uma coisa, posição tipicamente corriqueira numa sociedade marcada pelas relações consumistas, em nada acrescenta ao humano. Pelo contrário, subtrai-lhe! Ao contrastar gozo e posse, Montaigne parece antecipar-se à crítica dura às sociedades do capitalismo que insistem em determinar que somente a posse (mais do que ela, a propriedade) é que pode permitir o gozo. Parece apontar que o gozo é que antecipa a posse. Mas não o gozo consumista que olha para a grife. Ele fala do gozo como desapego das coisas e de si mesmo como condição para ser si mesmo, ser humano.

Ficamos por aqui nesta tentativa de levar a sério o tempo no qual vivemos e o pensamento que, de alguma forma, esteve na base do que hoje fazemos (ou deixamos de fazer). Continuamos desafiados a ler Montaigne. Esperamos desafiar a outros, não para nos sabermos ou para sabermos dos outros; talvez simplesmente para acrescentar à nossa própria vivência um pouco mais de dúvida sobre o que significa ser humano.

 

 

 

 


[1] Mestre em Filosofia (UFG), professor de filosofia no IFIBE.
N.A. O discente ao qual se refere o artigo é Nelson Luz de Oliveira, concluinte em 2009.

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 17/08/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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