Um golpe: há 45 anos

Paulo César Carbonari [1]

 

Em 31 de março de 1964, com apoio da elite, militares levaram a cabo a deposição do presidente constitucionalmente eleito e instalaram um governo militar no Brasil. Eufemisticamente chamado de revolução, o golpe instalou uma ditadura militar que se estendeu por mais de 20 anos, ao longo dos quais extinguiu partidos políticos e fechou o parlamento, cerceou movimentos sociais, universidades e centros de pesquisa, censurou a produção artística e cultural e os meios de comunicação, além de ter vitimado milhares de pessoas com prisões, tortura e exílio e de ter levado à morte centenas delas. Quarenta e cinco anos depois, o Brasil ainda não sabe o paradeiro de muitas pessoas e desconhece o significado deste momento histórico e sua repercussão presente nos dias atuais.

O momento é de reflexão e de construção de atitudes concretas. Uma das mais importantes medidas é a promoção do direito à memória e à verdade como forma de mobilizar a sociedade brasileira para o “nunca mais”. Afinal, somente o conhecimento e a compreensão crítica da história é que poderá somar condições para que a democracia seja radicalizada e que sejam criadas mediações para que não sejam aceitas quaisquer propostas autoritárias. Por isso, advogar o direito à memória e à verdade exige reconhecer os sujeitos individuais e coletivos que fizeram e que continuam fazendo a história. 

Em Carta pelo Direito à Memória e à Verdade como Direitos Humanos, o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), em agosto de 2007, lembrou que na “[...] história do Brasil houve muito arbítrio, repressão e exploração que alimentou mortes, esquecimentos, ausências, silêncios, sofrimentos, dor e violações de direitos. [...] Houve opções pela desigualdade, pelo autoritarismo, pela violência, pelo esquecimento, que até hoje marcam as profundas contradições presentes na sociedade [...], mas estamos certos de que o povo organizou a resistência, manteve viva a indignação e não se calou. [...] não somos expectadores passivos da história que nos contam ou na qual querem nos fazer acreditar. Somos sujeitos que fazem a história como luta pelo reconhecimento. A memória e a verdade são bens públicos com os quais construímos identidades pessoais, sociais e culturais. Por isso, constituem-se em direitos humanos”. Essas palavras soam forte neste momento.  Não se trata de lamentar e muito menos de celebrar. Trata-se de reafirmar compromissos concretos com a consolidação da democracia, com a promoção dos direitos humanos, com a proteção dos que lutam pelos direitos, com a efetivação de políticas públicas que sejam capazes de viabilizar a realização de vida com qualidade para todos e todas e para cada um e cada uma dos/as brasileiros/as. Dessa forma, poderemos fazer da memória do golpe um exercício cidadão de reorientação de nossas escolhas como sociedade e de confirmação de que somente a verdade poderá ser base para uma sociedade que se faz como exercício de cidadania.


[1]  Professor de Filosofia (IFIBE) e defensor de direitos humanos (CDHPF/MNDH)

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 31/03/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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