Agronegócio gaúcho no Paraguai

Jorge Gimenez [1]

 

O artigo publicado no dia 18 de maio na seção Opinião do jornal O Nacional com o título Agricultura brasileira no Paraguai de autoria do agrônomo Elmar Luiz Floss fazia referência à promoção do DESENVOLVIMENTO da gauchada (expressão usada pelo autor do artigo) não só nos estados brasileiros, mas também nos países limítrofes com o Brasil. Não vou entrar no debate conceitual sobre desenvolvimento, mas espero que com a argumentação que pretendo desenvolver, a idéia de desenvolvimento seja claro sem necessariamente precisar explicar detalhadamente.

Minga Porã é um município distante 240 km de Santa Rita. Meu pai comprou terra em Minga Porá em 1985, quando ainda a maior parte do município estava coberto de árvores nativas e o ambiente era saudável. Na época nós saímos de um município muito pobre distante 130 km da capital do Paraguai, Asunción. Meus pais são paraguaios com descendência indígena e quando chegamos a Minga Porã começamos a produzir a terra na lógica da agricultura de subsistência, prática comum na agricultura paraguaia.  Hoje, 2009, este município, como a maioria dos municípios que receberam o contingente de brasileiros desde a década de 90, tem 90% da sua população  brasileira e a maioria com grandes produções de soja. Meus pais tem 5 hectares de terra e são dos poucos que resistem, junto com alguns vizinhos, ao avanço em grande escala da produção de soja. E mais, várias pessoas já foram intoxicadas com os agrotóxicos que os produtores de soja aplicam tanto via terrestre quanto via aérea a qualquer hora do dia.

Estudos feitos pela BASEIS, uma ONG de pesquisa social com sede na capital, Asunción, mostrou que no mesmo período em que o “desenvolvimento da gauchada” se fortaleceu no Paraguai, sobre tudo na região este e norte do país, cresceram o número de famílias nas periferias das cidades como Asunción, Encarnación e Ciudad del Este, as três maiores cidades do Paraguai. A maioria dos que hoje compõem a população periférica dessas cidades são de origem agrícola, especificamente oriundas das regiões onde a agricultura da soja se desenvolveu com a entrada dos gaúchos, especialmente de municípios como Santa Rita, lugar onde o autor do artigo em questão foi dar uma palestra. Ciudad del Este particularmente concentra a maior parte dos que abandonaram a agricultura. A maioria destes mora na beiro do Rio Paraná e trabalham no mercado informal durante o dia e durante a noite passam, pelo mesmo rio, os contrabandos que os gaúchos e paulistas compram em Ciudad del Este e que entram no  mercado brasileiro, inclusive em Passo Fundo.

Outro documento é da CODEHUPY ( Coordinadora de Derechos Humanos de Paraguay) que em 2006 publicou o informe CHOKOKUE, documentando todas as execuções e desaparições de campesinos na luta pela Reforma Agrária no período 2000 a 2006. Vários episódios do informe envolvem brasileiros, como o caso do Senhor Oreste Roberti Cabaleiro que, segundo o informe, executou pessoalmente o sem terra de nacionalidade paraguaia Arnaldo Delvalle Vázquez em 1999. Outro caso envolve o paulista Oscar Hermínio Ferreira Filho em cuja suposta propriedade o sem terra paraguaio Rafael Pérez Roa foi morto em 1994.  

Inúmeras famílias paraguaias, incluindo crianças e indígenas, que uma vez já possuíam terras, perambulam hoje pelo centro de Ciudad del Este vendendo meias, frutas, brinquedos, perfumes, cigarros aos sacoleiros para sobreviverem. A terra de muitas destas famílias hoje estão coberta de sojas e os donos constroem casas nas praias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e acumulam hectares de terras, muitas delas compradas sem documentação. Este é o lado sombrio do agronegócio que muitos analistas e agrônomos costumam esquecer ao se maravilharem com os CTGs e as máquinas que os gaúchos mostram na feira do agronegócio em Santa Rita – Paraguai. Oxalá algum dia alguém também olhe esse lado nada humano do agronegócio exportador dos gaúchos.  Particularmente acho que a gauchada tem coisa melhor para oferecer aos outros estados e aos países vizinhos do que o agronegócio.

 

 


[1] Bacharel em Filosofia, pós graduado em Direitos Humanos e Educador Popular no CEAP

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 26/05/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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