Sobre a insatisfação

 

João Gilberto Engelmann[1]

 

Toda insatisfação é também o momento da indignação. É o tempo de um filtro desconcertante que aflige a teoria da vida e contradiz a coisa objetiva. Diz sempre respeito ao sujeito e advém exclusivamente de sua rotina histórico-mental. Desconcertante e contraditória porque incede mais diretamente na organização da vida e a desenha numa perspectiva de pessimismo e balbúrdia mental. Diz respeito ao sujeito porque exige uma protuberância racional de apego ao passado e aflição e insegurança em relação ao futuro, o que acaba originando a necessidade de purificação na vigência cotidiana, o presente. Sobretudo, toda essa pressuposição lógica do jogo do tempo significa que se está em mutação. A instabilidade é fomentada pela dúvida e o rumo é uma direção a ser discutida. Em meio aos agitos sociais e as carências afetivo-emocionais, o para onde ir, muito mais do que o de onde se veio, surte como a grande bomba relógio das decisões a serem tomadas. Esse sentimento de vazio é a parte inicial, o sem lugar, a comumente utopia, o principiante estágio de estruturação e maturação da vida do homem, sem uma localização fixa no tempo cronológico.

O mundo sempre é uma constância frenética de exigências e necessidades. A temerária superação de si e o funilamento da eficácia colocam o homem num estado de contínua tensão. À medida que ambiciona o poder e o dinheiro, o sujeito interpenetra um terreno fértil de frustrações, angústias e estresse mental. As estratégias do ganhar dinheiro identificam sempre um leque de exigências a serem severamente seguidas que alteram a rotina saudável da vida do homem. No grande afã do bem suceder-se, originam-se intempéries que atentam contra a gratuidade, generosidade, instabilidade emocional e vigência social tranqüila. A sociedade já não diz mais respeito a uma comunhão de individualidades racionais e amistosas, mas se torna uma grande arena das disposições mercadológicas e, simultaneamente, um campo de insatisfação e crise.

Nesse sentido, o estado interno de organização emocional assimila as turbulências da vida social e gera um mal-estar generalizado convertido em doenças como estresse, depressão, etc., patologias do corpo e da mente. Não é difícil presumir que um estágio de tensão e insatisfação, roedores da motivação, sejam os responsáveis pelo aniquilamento da qualidade de vida. O frustrar-se e a desmotivação são, das experiências humanas, os sentimentos que mais desgastam a condição mental do indivíduo. Aquele não ter vontade de, denuncia uma inoperância e cansaço numa sociedade que tem muito para construir.

Assim, sentimos sempre a necessidade de dar novo rumo à caminhada da vida. O cotidiano gerador de desconforto precisa ser suprassumido; precisa ser, pelo menos reavaliado, posto em estado de crise. Esse estado de crise é sempre um purgatório metafísico do tempo necessário a origem de toda novidade. A vida nova nasce mais precisamente de uma vida já existente.  Destarte, todo insatisfeito é uma possibilidade de vida nova. E se existe uma exigência insuperável é a de que de tempos em tempos toda pessoa precisa de uma vida nova. Precisa abandonar situações, retificar escolhas e promover qualidade de vida. E eis que tudo começa a partir de uma grande insatisfação.

 

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 28/04/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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