Aquecimento Global II

 

Padre Roque Zimmermann -  MSF[1]

 

No primeiro artigo desta série que pretendemos escrever já vimos que o aquecimento global e o efeito estufa são os maiores problemas que a humanidade jamais enfrentou em milênios. Vimos também que  se nada for feito com urgência, poderemos ser responsáveis pela eliminação de toda a vida  na face da terra.

Há mais um grave problema, porém.  O desconhecimento da gravidade e da dimensão do problema por vastas camadas da população, acadêmica  inclusive.  É surpreendente que só ultimamente, ao noticiarem as catástrofes naturais que já nos atingem, os formadores de opinião os remetem ao aquecimento global.  Quando alguém de nós o fazia, era chamado de alarmista, imprudente e até mesmo de irresponsável por esses mesmos senhores. O temor de que prognósticos mais pessimistas poderiam afetar a economia  sempre prevalecia. Nas revistas ainda é pouco o que encontramos. Nos grandes jornais, idem,  com exceção de um  ou outro caderno ou artigo especial. Mas quem os lê?  Na Universidade e no mundo acadêmico o tema é quase ignorado por completo.. Nas revistas de meio ambiente o tema é tratado de forma superficial ou apenas abordado factualmente.  E, no entanto, nos atinge a todos e, praticamente, condena as gerações futuras ao extermínio.

Uma frase  que sempre me chamou muita atenção encontra-se no posfácio de “O Capital”, de 1873, de Marx.  Diz ela: “ a humanidade  jamais se coloca um problema que não seja capaz de solucionar”. A questão aqui,  no entanto,  é que o problema existe e, parece, que a humanidade não se quer colocá-lo como tal. Sempre me chamou a atenção a pouca repercussão  que os alertas sobre a poluição atmosférica produziram e produzem tanto nas autoridades governamentais quanto nos meios de comunicação social. E mais devo confessar que a mim mesmo o assunto quase passou despercebido, ainda que sempre estivesse alerta à  problemática enfrentada pela humanidade. Ademais,  como desde muito cedo fui fortemente marcado pela problemática social, pela pobreza dos vastos contingentes humanos, sempre  considerei que a luta pela sua superação bastasse para ocupar a vida de um homem. Ultimamente,  contudo,  ao ler certos artigos sobre o fenômeno do efeito estufa, percebi que qualquer problema humano se torna quase irrelevante se  não for devidamente enfrentado o problema do efeito estufa e do aquecimento global.

No entanto, e para fazer um contraponto  a esta inércia e irresponsabilidade geral, parcelas, grupos restritos, um número razoável de cientistas já estão se ocupando e preocupando com o tema. Desde 1972 o tema  está presente na ONU. Foi este o ano da Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável, em Estocolmo, na Suécia.  Poder-se-ia chamá-lo de  primeiro passo de uma longa caminhada. Mas foi no início da década de 1980 que um fenômeno inesperado sacudiu e acordou  a humanidade. Tratou-se da  descoberta do aumento significativo do buraco de ozônio na atmosfera. Em tempo recorde os cientistas descobriram a causa principal do fenômeno: a emissão, pelos humanos, de gás metano (CH4) proveniente dos aerossóis e dos gases das geladeiras e aparelhos de ar condicionado, os famosos  fluorcarbonetos (FCHs). Ante o perigo eminente sobre a agricultura e a maior incidência de câncer da pele, os governos se mobilizaram e deram uma demonstração de que, com vontade política, quase não há problema insolúvel.  Reunidos em Montreal, Canadá, em  1987, sob o patrocínio da ONU,  governantes de quase 200 países elaboraram e assinaram o famoso Protocolo de  Montreal, com o objetivo de banir em tempo recorde os fluorcarbonetos.  Foi notável também a colaboração da indústria, que rapidamente encontrou sucedâneo para os mesmos. Não que o buraco de ozônio não esteja aumentando até hoje,  visto que o gás metano é produzido pela natureza e aumenta rapidamente por efeitos antrópicos, máxime pelo crescimento da suíno e  da bovinocultura, mas seu crescimento é bem menor do que seria se ainda emitíssemos todos os  flourcabonetos do passado.

Após estes acontecimentos seguiram-se a  criação do IPCC ( sigla em inglês para  Painel Intergovernamental  de Mudança Climática), 1988, a Conferência do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, 1992, conhecida como Rio 92, os primeiros relatórios do IPCC, a Conferência de Kyoto e tantos outros sobre os quais falaremos no próximo artigo.

 

 

 

 



[1] Prof. Universidade Estadual de Ponta Grossa-Pr. e do Instituto de Filosofia Berthier, Passo Fundo RS.

Foi deputado Federal por dois mandatos e Secretário de Estado – SETP – 2003 a 2006.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 28/04/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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