Aquecimento Global I

 

Padre Roque Zimmermann -  MSF[1]

 

Era fim de outono de 1966. Encerrando minhas férias de verão, eu passeava com o casal amigo Heinz e Anita Lindeman por florestas de carvalho e ciprestes da Renânia, a centenas de  quilômetros da região industrial da Alemanha. Fazia muito frio e uma chuvinha fina caia incessantemente. O frio aumentou e em pouco tempo esta chuva  se transformou em  gotículas  de neve que se prendiam nas folhagens das árvores. Curiosamente, porém, a neve não era branca, mas preta. Em pouco tempo estas gotículas se transformaram em mantas negras, cobrindo toda a floresta. Espantado, pois nunca tinha visto nada igual,  perguntei ao casal amigo de como se explicava este fenômeno. Responderam-me que era a chuva ácida, enegrecida pela poluição industrial do Ruhr, a centenas de quilômetros de distância.  Acontece que no verão de 1967, acompanhado pelo mesmo casal, retornando ao mesmo percurso do ano anterior, observei que a mata, agora desfolhada, havia praticamente secado e estava morta. Como não me recordava do ano anterior, da chuva ácida negra,  perguntei  sobre a causa da seca da mata. Recordando-me do fenômeno do ano anterior, disseram-me que a morte das árvores era efeito da poluição e dos muitos gases expelidos pelas indústrias, movidas predominantemente a carvão.  Em 1968, já no Brasil, fomos todos surpreendidos pela notícia de um considerável número de crianças nascidas sem cérebro (anincéfalas) na região de Cubatão, estado de São Paulo, maior pólo industrial químico e farmacológico do Brasil daquela época. Rapidamente médicos e cientistas diagnosticaram a causa: a poluição, emitida principalmente  pelas indústrias químicas, mas também pelas demais indústrias da baixada santista, seria a responsável principal  pelo  fenômeno.

Ao iniciar, há dois anos, estudos mais sistemáticos e intensos sobre o aquecimento global e o efeito estufa, lembrei-me destes fatos e juntei as peças da memória com o que atualmente estudava. Os gases poluentes, lançados na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis, principalmente carvão, juntamente com outros gases provenientes da indústria química, são responsáveis não apenas pelo aquecimento global que já experienciamos de alguma forma, senão também vêm interferindo na natureza, há anos.

O que surpreende é que, mesmo já alertada há mais de um século sobre os efeitos nocivos do gás carbono –CO2 –,  gás metano – CH4 –, assim como  de inúmeros outros gases poluentes na natureza, a humanidade  não só não tenha feito quase nada para mitigar estas situação, senão,  muito mais, aumenta constantemente a  queima de combustíveis fósseis com o conseqüente aumento  dos gases de efeito estufa na atmosfera. Neste preciso momento, surpreende ainda mais  o emprenho de governantes do mundo todo e os gastos trilionários ante a crise financeira global ao lado da leniência e indiferença ante um problema infinitamente mais grave e mais perverso que as conseqüências da crise financeira para toda a humanidade, que é o efeito estufa.

Pior  do que tudo isto. É praticamente consenso entre os economistas  de que os trilhões gastos não salvarão  a economia falida e não livrarão o mundo da recessão econômica, como também é consenso entre os cientistas e climatólogos de que se não  se tomarem medidas urgentes para mitigar o efeito estufa, chegaremos inevitavelmente àquilo que chamam de  “Point of no return” (ponto de não retorno), quando já não adiantará mais fazer coisa alguma.

Deveras, o grande ausente da recente cúpula do G20, em Londres,  foi o aquecimento global e seus efeitos,  principalmente sobre os países mais  pobres e/ou sobre as populações pobres de todos os países. Sem querer ser alarmistas,  por tudo o que nos foi dado estudar nestes últimos anos, estamos convictos de que se não forem tomadas medidas urgentes e drásticas  em esfera mundial,  até o final do presente século a humanidade será tão duramente atingida que é até melhor nem pensar.  É convicção dos cientistas de que nas atuais condições de poluição atmosférica e no que está previsto para as próximas décadas, a maior parte da vida  - a humana inclusive -  será prática ou totalmente erradicada da face da terra.

É uma hipótese trágica, concordamos, mas está cada vez mais presente nas análises de quase todos os cientistas que se debruçam sobre o tema.

Mas sobre isto veremos algo mais  nos próximos artigos.


[1] Prof. Universidade Estadual de Ponta Grossa-Pr. e do Instituto de Filosofia Berthier, Passo Fundo RS.

Foi deputado Federal por dois mandatos e Secretário de Estado – SETP – 2003 a 2006.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 28/04/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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