509 anos!

Édson Régis de Jesus [1]

 

Mês de abril, não há como não relermos o fato histórico da chegada dos europeus às Américas e os impactos causados por este contato entre culturas tão diferentes.

Um fator importante de re-analisar a cultura dos povos indígenas, com o intuito de lhe assegurar seus direitos, além da dignidade humana, repousa sobre o fato de que muitos de nossos dilemas pós-modernos já haviam sido solucionados antes da chegada da esquadra de Cabral. Exemplo disto era a maneira como os índios tratavam a terra-mãe, suas relações inter-pessoais calcadas em princípios organizativos igualitários...  Segundo a socióloga Azelene Kaingang, “ser índio no Brasil é se sentir pequeno, se sentir diminuído frente aos direitos dos cidadãos brasileiros”. Assim, o elemento mais importante da consciência histórica é aquela de, justamente, não possibilitar os mesmos erros cometidos outrora.

Antes da dita “descoberta” o Brasil não era Brasil, aqui vivam inúmeras civilizações opulentas em suas diferenças de raças, culturas, religiões... uma rica diversidade, um outro mundo possível que sofreu com o choque da forma ‘civilizada’ européia.

A cultura indígena, até então, nunca esteve associada a formas de violência em tamanho grau como o acontecido com o “descobrimento”. Assim, com a chegada dos europeus ela passa a ser massacrada, violada em sua própria casa, sem a possibilidade de barrar o avanço da ‘missionária civilização européia’. Deles até foram tirada a sua humanidade, tornando-os apenas seres e objetos da natureza.

Assim, a partir dos anos 1500 o que realmente houve foi um grande desencontro para com a pessoa nativa das Américas. Desencontro porque um não reconheceu a alteridade e a distinção da pessoa do outro. Desencontro este que, ao invés de possibilitar o descobrimento do outro humano, ocasionou justamente o inverso, o “encobrimento” do homem indígena. Fato concreto disto foi o genocídio, que de uma população estimada em três milhões somente no litoral brasileiro (em 1500) caiu para cerca de 300 mil pessoas em todo país (no séc. XXI).

O texto-base da Campanha da Fraternidade de 2009 considera que este passado nada pacífico criou em nós um presente de violência. Toda a miscigenação histórico-brasileira, muitas vezes, nos levou no hoje, como nos anos 1500, a negarmos o outro como uma pessoa digna e portadora de direitos.

O historiador Chico Alencar afirma que o brasileiro é afroindoeuropeu, ibérico..., branco também. No entanto, se em nenhum outro país as riquezas culturais são tão expressivas, por que temos que encobri-las e massacrá-las, ao invés de exaltar nossos múltiplos e diversos rostos? Não nos custa construir esperança com convicção de que a paz, como fruto da justiça, pode ser construída no reconhecimento do outro, do distinto, da diferente cultura, para além de todos os erros cometidos com as civilizações indígenas.

Enfim, que a nossa cultura singular pós-509 anos de encobrimento seja àquela do reconhecimento digno da pluralidade, da multiplicidade, das riquezas das diversas culturas sejam elas indígenas, européias, africanas... do verdadeiro descobrimento da pessoa e dos direitos [humanos] do Outro!


[1]  Pós-graduando do curso de educação em DH - IFIBE

 

 

 

 

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 22/04/2009

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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