Conhece a ti mesmo

Paulo César Carbonari [1]

   

Caros formandos e caras formandas.

Agradeço pela deferência e pelo encargo que me atribuíram. Ser-lhes paraninfo é uma honra que tenho dificuldade de traduzir em palavras. Mas, cabe-me falar-lhes. Por isso, tomarei emprestado do grande Sócrates boa parte do que lhes vou dizer, até para fazer juz ao lema que escolhestes; “conhece a ti mesmo”.

No Alcibíades, Platão reconstruiu, em diálogo, o significado do oráculo de Delfos que traduziu a missão de Sócrates. Quando perguntado sobre o que deveria fazer para ser sábio, o oráculo respondeu que deveria conhecer a si mesmo e encontrar os meios para cuidar de si. Vejamos o que diz o diálogo entre Sócrates e Alcibíades:

Sócrates – Vamos, diz-me, com que arte podemos cuidar de nós mesmos?

Alcibíades – Não saberei dizer.

Sócrates – Nisso, contudo, estamos de acordo: não com uma arte com a qual poderemos tornar melhores qualquer uma das nossas coisas, mas com a arte que tornará melhores a nós mesmos?

Alcibíades – É verdade. [...]

Sócrates – E então? Jamais poderemos saber qual é a arte de tornar melhores a nós mesmos, se ignoramos o que nós mesmos somos.

Alcibíades – Impossível.

Sócrates – E, portanto, conhecer a si mesmo é uma coisa fácil e era talvez um homem qualquer aquele que, no templo de Delfos, consagrou aquele mote? ou é, ao invés, uma coisa difícil e não para todos?

Alcibíades – A mim, Sócrates, amiúde pareceu ser coisa de todos, normalmente dificílima.

Sócrates – Mas, ó Alcibíades, fácil ou não, para nós é assim: se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos ter com nós mesmos; se não nos conhecemos, jamais o saberemos.

Alcibíades – Assim é.

Sócrates – Dize-me, pois, de que modo poder-se-ia encontrar o que é esse “si mesmo”?

(PLATÃO, Alcibíades maior, 128d-130e, apud REALE, vol I, 1993, p. 263)

 

Para Sócrates, como sabemos pela tradição, a vivência da virtude – a vida ética – tem na ciência, no conhecimento, que implica imediatamente no cuidado de si (e dos outros), a sua base. Pelo reverso, conhecer é, acima de tudo, propor-se a uma vida boa e feliz, a uma vida ética. A vida ética implica na enkráteia (o autodomínio, ou domínio de si), na eleuthería (a liberdade interior) e na autárkeia (autonomia do homem virtuoso). Juntas, enkráteia, eleuthería e autárkeia formam o tripé da ética socrática que, a fundo, significam apostar na capacidade humana, centralmente em seu logos, como capaz de ordenar a vida virtuosa.  Daí que, conhecimento e vida estão intimamente imbricados. Para não correr o risco de uma interpretação individualista, não é demais lembrar que a vida ética é sempre feita na pólis, no espaço público, no confrontar-se com os outros, em mediações de igualdade. Até porque, conhecer a si e cuidar de si é sempre conhecer-se a si com os outros e cuidar de si cuidando dos outros. No Eutidemo platônico está registrado um diálogo atribuído a Sócrates que ilustra isso:

Sócrates – Em geral, portanto, disse eu, todos aqueles que antes considerávamos bens, parece que por sua natureza não podem ser chamados bens por si mesmos, mas,antes, resulta-nos o seguinte: se são dirigidos pela ignorância, revelam-se males maiores do que os seus contrários, porque mais capazes de servir a uma direção má; se, ao contrário, são governados pelo juízo e pela ciência, são bens maiores; por si mesmos nem uns nem outros têm valor.

Eutidemo – Parece que é assim como dizes.

Sócrates – E que se deduz dessas premissas? que todo o resto não é nem bem nem mal e, das duas coisas que permanecem, a ciência é um bem, a ignorância um mal.

 (PLATÃO, Eutidemo, 281d-e, apud REALE, vol I, 1993, p. 269)

 

 

Aliás, na Apologia, Sócrates diz, de forma lapidar, que a felicidade é o maior de todos os bens e que ela se faz pelo “conhecer a si mesmo” e o “cuidar de si mesmo”. Diz:

Digo-vos que exatamente isso é para o homem o bem maior, refletir todo dia sobre a virtude e sobre outros argumentos sobre os quais me haveis ouvido disputar e pesquisar sobre mim mesmo e sobre os outros, e que uma vida sem tais pesquisas não é digna de ser vivida.

(PLATÃO, Apologia, 38, apud REALE, vol I, 1993, p. 283)  

Para não nos alongarmos, convém, neste momento de colação de grau desta turma, a primeira do IFIBE chancelada pelo sistema de ensino, mas a 23ª dos significativos 25 anos de construção do IFIBE, nos perguntarmos: qual é a missão do filósofo e da filósofa? Recorremos mais uma vez a Sócrates. Diante do tribunal de Atenas, enquanto estava sedo julgado por corromper a juventude já que lhes ensinava a “conhecer a si mesma” e a “cuidar de si mesma”, segundo registro de Platão na Apologia, Sócrates declara:

Ó meus concidadão de Atenas, eu vos sou reconhecido e vos amo; mas obedecerei antes ao Deus [daimón] que a vós; e enquanto eu respirar e for capaz, não deixarei de filosofar e de exorar-vos, a quem dentre vós eu encontrar, e sempre, falando-lhe como costumo: “Ó tu que és o melhor dos homens, que és ateniense, cidadão da maior e mais renomada cidade por sua sapiência e poder, não te envergonhas de te preocupares com riquezas para juntá-las o mais que puderes e com a fama e com honras; e, ao invés, de não te preocupares com a inteligência e com a verdade e com tua alma, para que ela se torne quanto possível ótima?” E se algum de vós disser que não é verdade e sustentar que se dá a tais cuidados, não o deixarei ir sem mais, nem irei embora; antes o interrogarei, estudarei, confutarei; e se me parecer que ele não possua virtude, mas apenas diga possuí-la, eu o envergonharei, demonstrando-lhe que tem por vis as coisas de mais alto valor e por valorosas as coisas vis. E isto o farei a quem eu encontrar, jovens e velhos, estrangeiros ou cidadãos; e mais ainda aos cidadãos, a vós, digo, que me estais mais estreitamente ligados. [...] Outra coisa, na verdade, não faço com esse meu andar por aí, senão persuadir-vos, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo e das riquezas, nem de nenhuma outra coisa, antes e mais que da alma, para que ela se torne ótima e virtuosíssima; e que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude que nascem as riquezas e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado.

 (PLATÃO, Apologia, 29d-30b, apud REALE, vol I, 1993, p. 261-262)

 

Com vosso perdão pela pretensão, quero resumir a fala de Sócrates em uma palavra: a missão do filósofo, a missão da filosofia, é a impertinência. Quero entendê-la, como parece recomendar Sócrates, num sentido epistemológico e noutro ético-político. Até porque, como já dissemos, esta marca da tradição socrática é também a expectativa do IFIBE: ensinar a filosofar como compromisso epistemológico e ético-político.

No sentido epistemológico, impertinência significa que o filosofar é o sem lugar! O lugar da filosofia, do filosofar, do/a filósofo/a é o sem-lugar do mesmo. O que também que dizer que pretende ser o lugar do sentido, do significativo, do fundamental! Contra, portanto, todo tipo de lugar-comum!

No sentido ético-político, impertinência significa que o filosofar faz brotar o sentido contraditório de pertencer ao mundo, sem que o mundo tome conta de quem pertence a ele. Este pertencimento é como um intervalo! Intervalos cobram pontes. Sem intervalos e sem pontes, não há como chegar ou sair. Daí que, em termos ético-políticos, a impertinência nos põe na tarefa de construir pontes, nunca muros.

Desejo, filósofos e filósofas, hoje bacharéis, sejam IMPERTINENTES se quiserem cumprir bem vossa missão!

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[1] Mestre em Filosofia (UFG-GO), professor e diretor pedagógico do Instituto Berthier (IFIBE). Pronunciamento feito em 15 de dezembro de 2007 como paraninfo no ato de colação de grau de Bacharel em Filosofia da Turma 2005 do IFIBE.

 

 

Publicado em www.ifibe.edu.br em 26/02/2008

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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