Sozinho, ninguém se salvará.

“As nações, como a maioria dos seres humanos, tornam-se mais fortes quando unidos, e mais frágeis e ao sabor das incertezas, quando solitárias” (Antonio Beraldo)

"Nei Alberto Pies [1]

 

Não vivemos, e nem conseguiríamos, sobreviver sozinhos. Nossas ações individuais precedem a observância de princípios capazes de instigar junto aos demais a solução de nossos problemas e conflitos, pois estes compõem o universo do convívio e da interação social. Não há solução para os graves problemas da violência, por exemplo, senão pela disponibilidade de discutirmos e agirmos, com base nas idéias da interdependência e solidariedade.

Vivemos numa cultura global que nos possibilita ver e compreender as necessidades mundiais. As tecnologias de informação nos possibilitaram a integração e a interdependência entre os habitantes do planeta. O nosso conceito de cidadania foi ampliado, na medida em que os acontecimentos do outro lado do mundo podem ser vistos como algo que se passa em uma de nossas ruas ou praças vizinhas. Assim, sem as máscaras que ofuscavam a miséria, a opressão, a violência, a degradação do meio ambiente, sabemos mais exatamente como ações nossas e de outros habitantes do planeta têm interferência na dinâmica da organização social, em nível local e mundial.

Se a violência é hoje banalizada, é porque, sobretudo, esta resulta de uma cultura violenta que foi produzida e difundida, ainda que sutilmente, pelas principais organizações da sociedade como a mídia, a família, a escola, as instituições religiosas, os partidos políticos, os sindicatos, os clubes, dentre outros. No fundo, no fundo, família e escola nos educam para a violência, estimulando-nos para competição desmedida, acreditando de que no mundo de hoje, só sobrevivem/vencem os melhores. Eduardo Galeano assim escreveu em seu livro Da escola do mundo ao avesso: “O mundo ao avesso gratifica o avesso: despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos... Os países responsáveis pela paz universal são os que mais armas fabricam e os que mais armas vendem aos demais países...”.

Ficamos com a impressão de que a violência aumenta muito, e sem controle. Esta é uma afirmação de difícil verificação: qual violência? Onde? Quando? O que, no entanto, podemos comprovar, sem titubear, é o crescimento da consciência do que vem a ser a violência.

A razão maior dos conflitos sempre está em saber com quem está a verdade. Mas a verdade não é pertença absoluta e exclusiva de ninguém, em particular. A verdade não se tem. A verdade é sempre uma busca e uma conquista pactuada e é por isso que não posso e nem devo ver naquele que pensa e age diferente de mim um inimigo. Sim, pois se o vejo inimigo, gero em mim um sentimento de ódio ou morte. Devo encará-lo como alguém que, como eu, é sempre capaz de mudar, em pensamento, atitudes e ações.

Atitudes de não-violência não significam passividade, covardia ou desistência de lutar pela justiça. Significam superar os impulsos da agressividade e do conflito, próprios do ser humano, em um grande esforço de compreensão e aceitação do outro, daquele que é diferente. Este é um caminho difícil, do ponto de vista pessoal e coletivo, e requer persistência, paciência e vigilância, sempre.

Viver numa sociedade que acredita e busca a paz é uma questão de opção, individual e da sociedade, e envolve investimentos pessoais e coletivos, sobretudo de mudança de valores. “Afinal, Paz é uma palavra tão pequenina, tão clara. Descubra-lhe as sonoridades, pinte-a com a sua caneta azul, enfeite-a de flores, guarde-a depois no olhar, na voz, leve-a para o emprego, para a bicha do autocarro, use-a na lapela. Vai ver, leitor, que a sua presença será como um pequeno Sol que aquecerá a manhã e, também, já que temos tão pouco em que acreditar, que mal fará se experimentar contagiar com ela os indiferentes, os adultos sem graça com que se cruza todos os dias? Pode começar! Já!” (Maria Rosa Colaço).


[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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