Saudades! Realidade

Michel Piccini [1]

Saudades de quê?

Das próprias saudades?, da realidade?

Saudades do tempo que se foi,

do encanto traduzido no encontro do oi.

Do primeiro amor,

que se perdeu na alegria e na dor.

Da síntese do desejo

traduzida no primeiro beijo.

Das doces palavras da pessoa amada,

que na memória ainda estão gravadas.

 

Saudades do momento,

do momento em que olhávamos as estrelas brilhando forte,

no nosso coração e no céu de sul a norte.

Saudades do dia em que a vida precedia à morte,

do período em que a cena era gravada sem recorte,

do instante em que nascemos e nos elevaram ao céu,

em que fomos agraciados e festejados como um troféu.

Da época em que éramos criança e temperávamos o dia-a-dia

com muito espanto e fantasia;

com muita admiração e utopia.

 

Saudades dos mitos,

com os quais estávamos muito convictos:

Todos tinham casa para morar,

todos tinham terra para plantar,

todos tinham o paraíso para pisar;

todos tinham o alimento para comer,

todos tinham a água pura para beber,

todos tinham...

enfim, todos tinham a sensualidade e a fantasia para viver.

Difícil saber que é só saudade.

Amargo saber que diferente é a realidade.

 

Temos vontade de reviver a adolescência,

que por entraves e descobertas manifestou o início da prudência.

O que era fantasmagoria da indiferença,

desvela-se em diversidade da diferença.

Ostentou-se a magnitude do ato de perceber,

de perceber a fatalidade do sistema que destrói sem temer

e a possibilidade da mudança que aguarda por acontecer.

Só de revolta este tempo não pode ser,

ele faz o sol no horizonte nascer,

a adolescência vislumbra a revolução e a evolução.

 

Há! Jovial-Juventude.

Em ti notamos protagonismo e atitude,

que pensa o passado, mesmo que não possa ser mudado,

com a expectativa de um presente bem diferenciado

e com a busca de um futuro tão buscado.

Que paradigma está sendo traçado?

Quanto à ilustre maturidade,

saudades têm-se da experiência que ainda falta

para cultivar a beleza desta idade.

Por isso, a lucidez no olhar ressalta.

 

Num grito de dor nasce a luz da verdade

que brilha por vastos horizontes

antes nunca percorridos pela saudade.

Quem é o ser humano?

Ter, poder, prazer

ou ser, amor e viver.

O ser humano só pode ser um mistério,

É também o mistério da saudade.

Saudades, de todos.

Direitos e realidades, de poucos.

 

Que a saudade

se torne no ser humano a exclamação da realidade.

Saudade! Realidade!

 

[1] Acadêmico do VI Semestre do Curso de Filosofia do IFIBE

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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