Decidiram que agora  é reinventar!

 Incrível como a falta de alternativas clareia a mente”. (Henry Kissinger)

Nei Alberto Pies [1]

 

A palavra da moda é reinventar. Sim, e a política e a publicidade, juntas ou separadas, são os mais excepcionais instrumentos para produzir renovados conceitos, sempre carregados de sutilezas. Mas estas (a política e publicidade) não são produtos da neutralidade e da inação humanas e ambas precedem sempre a arte de decidir. E decidir sempre pressupõe escolher. Em tempos modernos e cheios de requintes querem convencer a gente de que a realidade não é aquilo que é, mas aquilo que se anuncia. Poderia ser, se fossemos sem memória, sem senso crítico e sem discernimento.

Claro, é mais fácil reinventar do que reconhecer. A verdade é que poucos conseguem reconhecer as trajetórias e feitos daqueles que já os antecederam na história. Com seus erros e acertos, é verdade, mas agiram em sintonia com o seu tempo e com as idéias que este tempo imprimia. Pois o progresso construído pela humanidade sempre esteve calcado nos inventos e descobertas. Em seu bojo, progresso sempre busca a superação dos desafios de um tempo e projeta outros patamares de organização da sociedade.

Andam falando por aí que é preciso reinventar o Estado, nossos modos de vida, as concepções de política e de poder, a visão do planeta e da vida. Mas reinventar para quê?

O Estado nasceu como um pacto ou contrato social dos indivíduos que, sozinhos, não conseguiam garantir a proteção e segurança de todos. Como idéia basilar, o “bem comum”. Criou-se, então, a institucionalidade. Ao longo da história esta vem sofrendo modificações na sua estrutura de organização e poder.  E o que evidenciam as recentes reinvenções, anunciadas e experimentadas, é um estado a serviço do desenvolvimento (econômico), que privilegia alguns já empodeirados (de poder e de dinheiro) em detrimento dos demais. Aos últimos, a promessa salvadora do desenvolvimento, num planeta que já cansou de exibir os limites da exploração humana e quando a solução é desconcentrar a renda e disponibilizar meios e recursos que garantam vida digna a todos.

Estórias inventadas não resolvem o problema da falta de recursos e de serviços básicos de acesso à saúde, educação, habitação, emprego para a grande maioria da população. Estas coisas, garantidas na Constituição Brasileira, mas não na prática cotidiana dos brasileiros e brasileiras. Em vez de estórias, gostaríamos de saber a verdadeira história que desdobra os fatos e acontecimentos.

A complementariedade e interdependência sempre estruturaram a vida planetária. O nosso modo de vida tornou-se tão complexo que deixamos de ver a natureza como uma exuberância limitada. Os limites desta natureza, não os consideramos porque somos imediatistas, consumistas, interesseiros. Nossos interesses primeiros sempre são os econômicos, os imediatos, os individuais.

Andam por aí a sugerir uma nova revolução. Sim, precisamos de novas rupturas, capazes de devolver aos indivíduos a condição de sujeitos de sua história. Não somos, porque resistimos, uma massa de uniforme pensamento. Nossa memória exige que digamos que re-inventar poderá ser sinônimo de re-enganar. Ao invés de re-inventar, buscar novos significados, reconhecer e contextualizar melhor os desafios do nosso tempo. Nos ajudarão aquelas habilidades criativas que re-signifiquem a vida e criam novos compromissos, da gente com a gente mesmo, da gente com os outros e da gente com a natureza. Sim, pois a roda já foi inventada faz tempo. E esta nos solicita a andar, com um olhar para trás e outro para frente, porque assim é que deve ser.

[1]  Professor e militante de direitos humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


 Rua Senador Pinheiro, 350 - Vila Rodrigues - Passo Fundo - RS

CEP: 99070-220 - Fone: 54 3505 3277