De diálogo e radicalidades.

“Mede-se a grandeza de uma idéia pela resistência que ela provoca” (Anaxágoras, filósofo grego)

Nei Alberto Pies [1]

 

 

 O amadurecimento e a consolidação da democracia exigem posturas dialógicas, construídas pelo bom senso, diálogo e compreensão. Sim, estas permitem encontrar soluções para os inevitáveis conflitos de interesses. No âmbito pessoal, por sua vez, psicanalistas, psicólogos e especialistas em auto-ajuda sugerem que é preciso ousar, quebrar a rotina e radicalizar para tornar a vida com maior sentido. Desta maneira, as radicalidades (das posturas de vida e ações políticas) são sempre motivadas pelas circunstâncias que o momento e o contexto nos impõem.

A dialética, como possibilidade de aproximação dos estranhos e diferentes pensamentos e ideais, pressupõe que os envolvidos tenham disposição para dialogar e convergir. Quando esta disposição não existe, atos radicalizados (e civilizados) acabam contribuindo, sobretudo, para denunciar a indisponibilidade de um ou de outro e externam o conflito àqueles que não estão diretamente envolvidos nele.

Radicalidade é uma idéia positiva, que significa, dentre outras coisas, “uma busca desesperada pela verdade”(Emmir Nogueira), independência e vigor intelectual, sinceridade de intenções, exigência (sobretudo de si mesmo). Ser radical não é ser violento. É, acima de tudo, ser leal aos ideais de humanidade, individuais ou coletivos. É que exigir direitos, num país que só sabe cobrar deveres tornou-se um ato radical porque rompe com a inércia política e cidadã da maioria da população. Mas aqueles que detém cargo ou função pública deveriam saber que suas ações e atitudes são passíveis de avaliação e crítica, que podem e devem ser exercidas livremente dentro da normalidade do processo democrático.

Há aqueles que defendem que a luta por direitos perde legitimidade quando precedida de atitudes e atos radicalizados. Que radicalizar é sinônimo de não merecer, de perder crédito, de baderna (não pertencer à civilidade). Mas não são mais radicais e mais violentas a mentira, a enganação, a promessa e a burocracia que impedem que muitos direitos não saiam do papel? Sim, ainda somos o país da “letra morta”, da cidadania de papel, como afirma Gilberto Dimenstein.

Organizar-se e exigir direitos são atitudes combatidas pela elite pensante. Por que é pensante, é quem manda. Impressiona que esta mesma elite se assume elite somente quando as situações não ensejam a luta de classes e a disputa ideológica. Por que será?

O contrário dos radicais são os frouxos e acomodados. E estes, existem aos montes. E sobre eles não pesa nenhum tipo de pressão ou preconceito, porque exemplares na convivência cotidiana. Os outros, sim, quando quebram a “aparente normalidade”, aparecem para cobrar ou exigir, tornam-se incômodos, provocadores da desordem, maus. Por isso mesmo que a idéia da organização social, que procura envolver e discutir os problemas com a sociedade, é uma idéia que possui uma grande resistência.

Cremos no diálogo como a grande possibilidade de construção de alternativas aos conflitos que, cada vez mais, precisam de mais eficientes instrumentos de mediação. Mas quando as condições estiverem esgotadas para tanto, é inaceitável que a criatividade e ousadia das justas manifestações seja vista como forma de desconstituir as motivações de quem se organiza. Sim, “nada causa mais horror à ordem do que homens e mulheres que sonham”, disse Pedro Tierre. E perigosos se tornam todos aqueles que sonham e organizam seu sonho. Radical, é querer vida digna, quando muitos não a têm!

[1]  Professor e militante de direitos humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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