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Professores ainda lêem jornal

“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender” (Paulinho da Viola)

Nei Alberto Pies [1]

 

Experiências novas nos permitem perceber a realidade por outros ângulos, outros pontos de vista. Escrever é uma destas experiências que me permitiu dialogar de modo diferente com o público leitor, e também com colegas de profissão. E me alertou para o fato de que os professores ainda lêem jornal, contrariando o que muitos supõem e imaginam.

É do conhecimento de todos que a condição salarial do magistério não permite aos professores e professoras o pleno acesso a livros, jornais e revistas que poderiam qualificar mais a sua atuação docente. Mas, felizmente, o acesso aos jornais não é de exclusividade dos assinantes, eles estão disponíveis nas escolas, são emprestados, são lidos em diversos locais de trabalho, bares e oficinas, órgãos públicos, empresas. O professor, sabendo de sua responsabilidade de acompanhar e ler a realidade cotidiana encontra alguma forma de acessar aos mesmos.

Ler desenvolve nossos pensamentos e amplia nossas idéias. Complementaria: ler e escrever nos ajuda a pensar melhor. A leitura, por si só, é limitada na perspectiva da construção do conhecimento, porque nos coloca na condição de receptores das informações. A escrita, por sua vez, um ato reflexivo, nos permite recolocar e re-significar as idéias que lemos. Deste modo, acrescentamos novos pontos de vista, aprofundamos conceitos e idéias, produzimos novos saberes.

O papel da escola é justamente este: permitir a sistematização das informações, para que estas se tornem conhecimento. O conhecimento é gerado quando as informações se transformam em instrumentos que permitem, aos alunos, uma maior compreensão de mundo e, conseqüentemente, uma melhor intervenção nele. Este é um exercício permanente e que desafia o nosso pensar e agir na escola.

Para além de ler, escrever e sistematizar os conhecimentos da realidade, os professores têm o desafio de rever as suas práticas. Reflexões recentes sobre o tema apontam para a necessidade do professor sistematizar os seus conhecimentos e suas práticas, como forma de re-significar a sua intervenção em sala de aula. O mundo está em “ligeiras e profundas mudanças” e cabe ao professor promover-se, atualizar-se, complementar-se, sem comprometer suas opções pedagógicas e ideológicas, e sem entrar na onda de quaisquer estratégicas mercadológicas de aperfeiçoamento, em nome da qualificação. Mas este não é um esforço e uma responsabilidade solitária, mas de todos os que pensam, decidem e tem responsabilidades para com a escola.

Nós, professores, estamos cientes do nosso papel e responsabilidade; queremos colaborar para uma educação de melhor qualidade. Mas cobramos contrapartida: maior dignidade (melhores salários, respeito, apoio e incentivo, tempo para estudar e planejar, maiores condições materiais na escola). Nos esforçamos muito para ler e compreender os desafios do mundo e da escola e lamentamos que a educação ainda seja encarada como um gasto, tenha uma conotação política-partidária e que ainda seja prioridade somente nos discursos e intencionalidades. Sim, os jornais mostram isto. Continuaremos a ler jornais, desejando que algum dia nos tragam outras informações, novas realidades.

[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 

 


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