Ensino da Filososfia: Problema Filosófico

Paulo César Carbonari [1]

A filosofia é um conhecimento que se pretende legítimo no contexto da diversidade de saberes que marca os dias de hoje. Já foi entendido como o conhecimento mais excelente, o mais sistemático, o mais profundo; também foi entendido como auxiliar de outros conhecimentos, tributário e subserviente a outros saberes; já foi até declarado inútil e desnecessário. Agora, depois de décadas de ostracismo na formação básica da juventude brasileira, retorna aos currículos escolares, não sem resistências. O que é mesmo ensino da filosofia?

 

Partimos da compreensão de que o ensino da filosofia é um problema filosófico. Isto significa dizer que não é apenas a adaptação didática de conteúdos da tradição para disponibilizá-los ao alcance da juventude. Não é tratar de qualquer assunto, por mais relevante que seja, colhendo opiniões comuns sobre ele. Também não é somente avivar uma coleção de antigas perguntas, por mais pertinentes que sejam. O ensino da filosofia é um problema filosófico porque exige refletir sobre a dimensão pedagógica da filosofia e a filosofia da pedagogia. Ou seja, exige refletir sobre o sentido do ensinar e do aprender e sobre o ensinar e o aprender com sentido.

 

A filosofia não se presta à simples transmissão de conteúdos prontos ou sistematizados por pensadores chamados de filósofos. O núcleo da filosofia está na construção da atitude filosófica. A atitude filosófica é prática que pretende se transformar em vivências. É a construção de uma postura reflexiva, crítica, conseqüente e engajada. É, acima de tudo, prática radical – que busca as raízes das questões. Não foge das aparências, mas sabe que elas não são tudo. Conhece o contexto, mas pergunta-se pelo pretexto. Não se contenta com as opiniões ditas, busca o não-dito. Não se satisfaz em saber textos, mas quer que sejamos leitores de textos. Não afasta do mundo, compromete o mundo e com o mundo. Assim que, ensinar filosofia é fugir do “pronto e acabado” e abrir lugar para o buscado e o construído, para a busca e a construção.

 

A filosofia na escola básica constitui-se num desafio que exige repensar a própria escola e a educação que é feita nela. Não basta abrir a grade para mais uma ou duas horas por semana, atendendo a uma exigência superior do sistema de ensino. Não basta “arranjar” um professor do “tipo grilo” para assumir esta hora de aula. Não basta disponibilizar manuais, livros didáticos e outros recursos. Não basta fotocopiar uma reportagem ou um pequeno texto da hora e “dar” aos alunos e alunas. A filosofia na escola básica precisa sim de tempo, de horário adequado, de professores motivados, bem remunerados e preparados, de textos de apoio, de biblioteca. Acima de tudo, porém, precisa de condições para que não seja mais um saber funcional numa escola funcional.

 

 O ensino da filosofia como um problema filosófico exige transformar a escola num lugar de reflexão – aliás, a rigor, não se haveria de esperar outra coisa da escola. É para isso que a filosofia retorna à educação básica. É isso, espera-se, seu retorno ajude a consolidar.

 

 

[1] Professor de filosofia (IFIBE) e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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