Pontos de vista, vistas de um ponto.

"O que a gente esconde
é mais ou menos o que os outros descobrem" (André Breton)

Nei Alberto Pies [1]

 

Os nossos pensamentos sempre expressam o “lugar” em que pisamos (realidade em que estamos inseridos). Aquilo que somos e acreditamos, sobretudo, constitui as nossas opiniões. Através das organizações sociais, de classe e partidos políticos convivemos, felizmente, com a democracia. O que significa, por sua vez, compreender o quanto é bom e saudável discordar. Aliás, toda unanimidade é burra, como já fora dito por alguém.

Pontos de vista são sempre vistas de um mesmo ponto. Por isso, quando confrontamos com os outros as nossas visões de mundo, de vida e de organização, valem as diferentes estratégias que empregamos para o convencimento, mas não vale empregar meias-verdades ou a distorção de fatos. Aliás, todos sabemos, de fatos, é bem provável, multiplicam-se as suas versões.

As lutas do magistério, por exemplo, são lutas difíceis e porque não, contraditórias. Alguns, quando lhes interessa, eximem-se de assumir estas contradições, preferindo comparar seus pares a anjos, de um lado, pecadores, de outro lado. Esquecem que a realidade é sempre complexa, difícil e contraditória. E que nossas lutas não nos permitem desperdício de energia. O essencial, aquilo que interessa a todos, é fortalecer o sindicato para assegurar condições de dignidade aos trabalhadores da educação. Nem anjos e nem pecadores. Todos temos, sim, diferentes compreensões de vida e maneiras de lutar. E não estamos livres e nem acima das contradições.

Na organização dos partidos políticos, como outro exemplo, é grande a dificuldade de consensuar. Consensuar é, sobretudo, encontrar os meios para continuar conversando, dialogando. Quando entram em jogo os interesses de um e de outro (pessoa ou grupo), estes se sobrepõem, muitas vezes, aos interesses da coletividade. É que muitos escondem, por certo tempo, aquilo que os move na ocupação dos espaços sociais. Assumir o que nos move é uma atitude legítima e altiva; diferente de esconder, camuflar ou desvincular as intencionalidades das nossas ações concretas e cotidianas.           

Nossos esforços para constituir a democracia como princípio de boa convivência social passam também pela superação de uma visão totalitária de mundo, que foi ensinada e praticada pelos regimes autoritários. Somos uma democracia recente que ainda carrega resquícios de autoritarismo, na maioria de nossas organizações e instituições sociais, também nas escolas, famílias, associações, cooperativas.  É, enfrentar as contradições da realidade, nos parece algo muito difícil. Sim, porque as contradições ocorrem quando somos exigidos para tomar decisões, conjunturais e complexas, como a própria realidade. No autoritarismo, subjugamos as contradições através do poder e autoridade, inquestionáveis.

Só estaremos livres de contradições, se não fizermos nada. Nossas atitudes sempre são passíveis de erros e também de avaliação e análise por parte dos outros que, aliás, nem sempre nos compreendem. Sim, porque não conhecem, na mesma proporção, o contexto que exigiu determinada tomada de decisão.  Se os contextos e realidades mudam, por que não podemos mudar também nossas idéias? “Não é triste mudar de idéia. Triste é não ter idéia para mudar" (Barão de Itararé)

[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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