Poluição nossa de cada dia

Dirceu Benincá [1]

 

Paira no ar um cheiro desagradável e uma névoa espessa. É poluição composta, sobretudo, de CO2, mais conhecido como gás carbônico ou dióxido de carbono. Associado a outros gases, o CO2 causa o chamado efeito estufa. Os veículos movidos a combustíveis fósseis estão entre os principais responsáveis pela emissão desses poluentes. Mas, eles não são os únicos vilões. Acrescem as queimadas, as chaminés das fábricas, a decomposição de biomassas, etc.

Segundo o Greenpeace, a concentração de gás carbônico na atmosfera aumentou de 270 partes por milhão, antes da revolução industrial, para cerca de 350 partes por milhão no início desta década. A cada ano são lançadas, no espaço aéreo, seis bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Quantidade que só vem aumentando, fazendo os termômetros subirem. Assim, vamos chegando a picos de calor como o que se verificou no início de junho de 2007 nas planícies do Norte da Índia e do Paquistão. Temperaturas de até 52ºC mataram mais de 120 pessoas.

A seu modo, a poluição sonora também incomoda muita gente. Ela adentra pelos tímpanos em forma de música, locução, latido, miado, ronco, ruído, percussão ou outra expressão. Irrita pelo seu conteúdo, por seu volume ou pelos dois fatores conjugados. Seja de dia ou de noite, na indústria, no clube, na rua, na praça e, vezes há, em que até na igreja e na escola ela se dá. Como tal, ataca os nervos, eleva a pressão, azeda a vida... Quem vive na cidade, principalmente em metrópoles, que o diga.

Em funcionando bem, todos os nossos sentidos estão sujeitos a captar emissões que podem nos fazer mal. Existem matérias poluentes que nos chegam também pelos olhos. Cada vez mais somos vítimas da saturação imagética. As imagens que capturamos se aninham em nosso arquivo cerebral. Desde aí, influenciam e comandam nossos desejos, ações e comportamentos. Em tempos de mercado total, nosso olhar se constitui numa porta de entrada privilegiada a estimular o consumo.

Há idéias, planos, projetos e atitudes que constituem um outro tipo de poluição difusa, que poderíamos caracterizar de poluição ideológica. Atacadas por ela, pessoas, grupos, poderes constituídos, corporações e até povos inteiros cedem à violência, ao individualismo, à discriminação, ao preconceito, ao fundamentalismo, às injustiças, à corrupção e à luta cega pelo poder. E, no limite, o poder da corrupção acaba corrompendo a noção mais pura e original do próprio poder.

Simultaneamente, com diferentes nomes e intensidades, campeia livre a poluição ética e moral que corrói a base dos valores sociais e humanos. Estamos em crise de grandes utopias realizáveis, carentes de ver mais longe. Sociedade que não vislumbra horizontes mais amplos, fica torpe de sentido. A propósito, há que lutar decididamente para afugentar a poluição que dificulta e impede a concretização de uma sociedade sustentável, mais justa, humana, democrática e saudável.

Poluição é uma palavra geradora. Sim, geradora de reflexões em face de suas causas e por causa de seus efeitos. Efeitos que exigem novas atitudes. Atitudes que não se restrinjam a boas maneiras domésticas, mas que, partindo de casa, sejam capazes de imprimir um novo comportamento ético e ecológico da humanidade. Não se trata apenas de retocar padrões da ética individualista, capitalista, machista, hedonista, etnocentrista... Temos de fortalecer uma ética sócio-ambiental capaz de salvaguardar toda forma de vida e a vida como um todo. Precisamos despoluir esse mundo, a começar pela mente, pelo espírito e pelo coração. Urge combater com ousadia todas as poluições nossas de cada dia! 

 

[1] Doutorando em Ciências Sociais (PUC-SP)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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