Ouço ruídos

Édson Regis de Jesus [1]

 

Pouft! Mais ou menos este foi o sobrecarregado barulho chegou aos poucos neurônios ativos que ainda possuo. Estava em minha “perfeita realidade” (entendam-se mais as aspas que os termos) quando, ao abrir o jornal pela manhã, estrangulei meus olhos naquelas letras pequenas e, desgraçadamente, nos lamentáveis fatos divulgados. Se bem que, para muitos, é sempre uma decepção se deparar com o jornal, porque nunca se consegue sugar tudo o que ele tem disposição de informar e dificilmente fala do que se quer realmente saber. As informações, na maioria das vezes, são consternantes. O fato é que trazem mudanças, levantes e assim por diante 

            O diabo de tudo isso é que o ser humano sabe que, nesta perfeição realística, todos construímos, re-construímos, pintamos o sete, tudo em uma certa co-ligação. Mesmo não estando escrito, respondemos às presença nas entre-linhas. Uma teia, como diz Capra, para que assim o mundo tenha sentido (se bem que, até hoje, ainda não sei se a teia é duma tarântula ou daquelas aranhazinhas insignificantes - o importante é saber quem a tece - talvez sejamos nem fios, mas apenas mosquitos presos nela teia - será que há a possibilidade de ser devorado?). Afinal! Deve haver algum. Mesmo que não tivesse sentido, isto já seria um sentido, aquele de não ter sentido, até mesmo porque, igualmente, quando desconstruímos o mundo podemos observar que des-construir é construir de uma forma distinta da primeira (como se vê no jornal).

            Voltemos ao pouft inicial, até porque se gosta de barulho hoje em dia, mesmo que não haja dança. Ver, entender, ouvir, como no caso, é uma maneira de interpretar a realidade e, partindo disto, agir como um momento de construção de algo num campo com um conjunto de presenças num determinado contexto-ambiente.

            Dize-se então: ‘temos que mudar’; ‘é preciso que modifique tal estrutura’. Mexer, tirar, transformar, revolucionar, romper, sacudir, saracotear, rebolar e todos os verbos que remetem a movimento! Tudo isto completa o universo de sentido do humano. São eles, e outros, que, historicamente, constituem o pouft que cria as condições para a (pré)-compreensão da realidade e que lhe permitem andar em seu ciclo!

            Mediatizado este baque, saímos como moscas tontas na tentativa, entrando na onda de sempre, de mudarmos algo e fazer eco ao som aqui citado. Todo mundo quer ser protagonista, mesmo que seja do teatro mais antigo. Entenda-se bem, não se disse, aqui, que fazer eco-ar as coisas não seja bom e importante, mas é?

            Frente a isto, dizer o quê? Bom, o ato de falar já pressupõe em si o acesso a algum conhecimento, pelo menos um ato que se preze em si mesmo, que interpela, na comunicação, uma ação na realidade, salvo quando já está no script ou num jornal! Aí é que surge o problema: a criatividade, um fato extra-ordinário e, no exercício, mesmo querendo ou não querendo, a capacidade de mudar a realidade, que no fundo seria tear - não esqueçamos que podemos ser mosquitos presos na teia.

            Escutar a realidade é construir uma compreensão, um posicionamento, uma postura. O detalhe é que aquele ruído, que às vezes escutamos, acontece porque as coisas não têm sentido, mas somente voz forte e, diante delas, não há o que saber e  menos ainda o que dizer, pelo menos previamente.

            Todos querem falar, gritar, modificar, revolucionar. Dizem por aí que assim não dá, assim não tem jeito, tudo está errado. Bom, se tudo está errado, o errado é o certo porque não tem algo que não seja ele mesmo. Então, deixe que o certo, mesmo que erroneamente, ande, e isso é melhor que modificar as coisas. Ora, seria certo deixar algo singularmente certo por outra coisa que não seja certa, certo? Errado. E errado é só esperar para ouvir, o barulho!.

Será potente o pouft na cabeça dos sonolentos. Todos vão ouvir, até aqueles que não têm tantos neurônios. E, posteriormente, é só escutar o ladrar, o exigir que se fale algo em nome de, diga, pronuncie... Tudo em nada! Eu quero esperar em silêncio, sem poufts vazios. Deixar a aranha tear, mais um fio e, depois, aí sim depois escutem o barulho que será feito, isto se aquele fio a ser tecido não me sufocar antes! E novamente segue o Leviatã Pouft que vagamente serve de base para os heróis da mudança vaga!!!

 

[1] Bacharel em Filosofia

 
     
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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