Masculinos, somos. Machistas, nos tornamos.

“Se queres progredir não deves repetir a história,
mas fazer uma nova história” (Mahatma Gandhi)

Nei Alberto Pies [1]

 

Na condição de painelista, certo dia, fazíamos uma reflexão sobre as relações de gênero, condenando o machismo como forma de dominação do homem sobre a mulher, quando surgiu uma interrogação feita por uma jovem: “Professor, o senhor falou tão bem de relações respeitosas entre homem e mulher. O senhor é machista?”. E respondemos: Somos machistas, sim, pois vivemos, convivemos e fomos educados numa cultura machista. Se disséssemos que não, estaríamos afirmando uma inverdade; mas somos daqueles que procuramos nos assumir para nos corrigir. Sim, consideramos o tema dominação masculina assunto sério para ser levado à reflexão. Queremos dividir idéias com aqueles que têm abertura, compreensão e disponibilidade para dialogar.

Recentemente, coordenamos, junto com mulheres de um município da região, uma Campanha de Superação da Violência contra a Mulher e de afirmação de seus direitos. Pudemos verificar a “ânsia represada” das mulheres daquela localidade no quesito dominação masculina. Imaginamos não ser privilégio daquele lugar. Como único homem (masculino) presente nos encontros, ouvimos ressentimentos, queixas, medos, constrangimentos.A experiência vivenciada nos recordou Aldous Huxley: "os fatos não deixam de existir porque são ignorados”. Sim, pois o fato que fazemos questão de ignorar culturalmente é que nós homens gostaríamos de continuar “dominando as mulheres”, controlando sua ascensão social, sua sexualidade, seus sentimentos, suas atitudes, suas idéias.

Acompanhando os trabalhos das PLPs (Promotoras Legais Populares, em Passo Fundo), o lançamento da Lei Maria da Penha e últimos acontecimentos envolvendo situações de extrema violência com que são agredidas mulheres de nossa cidade, pensamos estar vivendo um processo de ação e reação diante da problemática anunciada. Sim, pois felizmente, com a consciência despertada, as mulheres começaram a denunciar mais. Com maior apoio (Casas de Apoio e Delegacias da Mulher) as mulheres passaram a acreditar mais na efetividade das leis e da justiça.  Não suportando mais serem espancadas, maltratadas e inferiorizadas, exigem dignidade e dizem Basta à violência.

Às mulheres já interessa há muito tempo enfrentar o tema da dominação masculina. Quando este assunto interessará a nós homens? Assim diziam as mulheres na Campanha: “mas quando a gente conversará isto com os nossos maridos, os pais de nossos filhos? Eles é que deveriam estar ouvindo sobre os direitos da mulher e não a gente”. A reação dos homens não tardou a chegar aos nossos ouvidos: “só estão ensinando direitos às mulheres. Cadê os deveres?”. Destacar os deveres, em detrimento dos direitos, expressa claramente a vontade de perpetuarmos a nossa dominação.

Rose Marie Muraro, estudiosa do assunto, diz que “nas sociedades de caça iniciam-se as relações de força, e o masculino que passa a ser o gênero predominante, vem a se tornar hegemônico no período histórico – há oito mil anos-, quando destina a si o domínio público e à mulher, o privado”. Já passou tempo demais para reproduzirmos, estupidamente, uma idéia que se tornou histórica, mas não precisa ser eterna. Sim, porque o que as mulheres gostariam de construir conosco são relações mais respeitosas, mais compartilhadas, complementares e que trouxessem, na prática cotidiana, mais oportunidades para o cuidado consigo mesmas, para a sua felicidade. A felicidade delas também é a nossa. Felicidade é o objetivo de todos e todas, de todos os humanos.

 


[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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