Luxo: o aumento da necessidade e da dependência

João Gilberto Engelmann[1]

Em sua dimensão natural, o homem possui um contingente de carências a serem supridas; todavia, para além da imediaticidade do dado natural, insurge-se no homem outras tantas carências pelas quais se constitui o leque de necessidades a serem satisfeitas. O fazer-se homem, processo de auto-constituição cultural/histórica, pressupõe a elaboração de condições pelas quais o homem, também natural, se efetiva como ideal racional. Através de seu estar-no-mundo, o ser humano se compreende enquanto sujeito de constituição do que pode ser chamado de natureza humana, representada na cultura enquanto desenvolvimento histórico. No entanto, o elenco das necessidades também é uma pressuposição do homem, conforme sua vontade subjetiva em função da objetividade observável na cultura do mundo. Ou seja, o conceito de necessidade já não explicita unicamente o suprimento das impreteríveis carências humanas, mas norteia certa satisfação pessoal do ter-junto-de-si. Dessa forma, tal satisfação imprime nas coisas (objetos de consumo) uma teleologia da felicidade.

Aparece-nos corriqueiramente o tema da desigualdade mostrando a disparidade da distribuição da riqueza em nosso pais e mundo. Sobretudo, o que nos parece um tanto que irracional, na análise proporcional do contexto econômico, é que essa discrepância social advém justamente da infinita produção de necessidade. Ou seja, o que e o quanto se tem, em termos monetários, está diretamente relacionado com preocupações de mantimento da capacidade de consumo, suprimento de necessidades exageradas. Nesse sentido é que, se a alguns é dado o direito e as condições de suprir todas e quaisquer necessidades, a outros, enquanto direito formal, é assegurado unicamente a possibilidade desse suprimento. Ou seja, o direito ‘animal’ natural, enquanto necessidade de comer, beber, morar,  de muitos fica prejudicado e/ou nulo em função da arbitrariedade de poucos. Se de um lado o sentido da vida e a felicidade advém do requinte do luxo, por outro, a miserabilidade e amargor provém da imundice do lixo.

No entanto, à medida que se cria um contingente abusivo de necessidades, edifica-se simultaneamente um sólido e irreversível ciclo de dependência. Aposta-se no poder de consumo como o meio pelo qual a felicidade (bem-estar) efetiva-se objetivamente. O sentimento de bem-estar consigo mesmo e com o mundo está diretamente relacionado à intensidade e periodicidade com que se gasta. No entanto, visto aquele círculo vicioso, o jogo das necessidades tende unicamente a aumentar de maneira a tornar-se infinito, infinitizando-se também, os ideais de felicidade e imputando melhores condições de vida a quem nada tem, oxalá poder de consumo. Ou seja, o crescente duelo entre o básico ignorado e o supérfluo suprido ao extremo.

Vislumbramos, pois, o perceptível paradoxo em que nos situamos. De um lado todo o direito e condição, e de outro, somente um direito abstrato que não realiza nem a dignidade, tampouco qualquer superficial necessidade. Sobretudo, temos um grave problema explicito na divisão da riqueza. A propriedade, enquanto direito igual e justo, é a própria coextensividade do homem; é a manifestação das condições objetivas de comungar com o mundo as riquezas produzidas por todos. Nesse sentido, para inúmeras pessoas está sendo negado as condições de lançarem-se sobre o mundo, no sentido de possuírem , através de uma vida digna, um corpo próprio na efetividade de suas necessidades satisfeitas. Para além de toda especulação, existe uma realidade desigual objetiva (subumana) carecendo urgentemente de transformação. A dependência quanto ao consumo nem de perto se aproxima das dependências práticas em que milhares de pessoas estão imersas. Para além da consciência, resta-nos algo mais; resta-nos a responsabilidade de efetivar as necessidades  numa perspectiva horizontal de universalização do ideal de homem.


[1] Acadêmico do 4º semestre de Filosofia IFIBE.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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