Libertação, Filosofia e a Filosofia da Libertação[1]

João Gilberto Engelmann[2]

 

Até que ponto pode-se dizer que a libertação é a essência da Filosofia? A própria gênese filosófica identifica-se com a libertação. O mitológico fantástico das (i)reflexões primitivas, por exemplo, é suprassumido numa racionalidade que desprende o homem da ignorância natural e o põe na condição de sophoi. A partir disso, uma vez que se pensa na América Latina determinada libertação, a Filosofia da Libertação (FdL) não fugiria à essência universal do filosofar lograda dos gregos. Criar ou dar continuidade ao processo de constituição de uma filosofia latino-americana, a partir desse olhar sobre a essência, não destituiria a legitimidade do pensar/agir filosófico. Ser a própria atividade de libertação, enquanto filosofia situada na realidade, seria a própria comunhão com os processos históricos, desde a gênese, de a filosofia constituir-se como libertadora. No entanto, o que difere, sobretudo, é o método e o conteúdo sobrando a forma universal que é a essência da razão filosófica.

O contexto da América Latina, vislumbrado a partir das pretensões imperialistas de colonização, dá-se proeminentemente específico em sua constituição cultural, política, econômica, etc. Sintetizamos aqui a cultura do mundo através da aparente expressão das diversidades consagradas à história. Porém, a cultura incorporada externaliza seu caráter paradoxal de universalização, por um lado, e de difusão de ideologias aliciadoras, por outro. Se de uma forma se comunga com o mundo a efetividade das manifestações humanas traduzidas na riqueza cultural, de outra, incorpora-se as tendências imperialistas de propagação ideológica.

Por isso, a constituição de uma FdL perpassa o caráter objetivo do dado (criado) cultural e político inerente à América Latina. Excentrificando-se do meramente especulativo, típico da Tradição Ocidental, a realidade latino-americana é como que o ponto de partida pelo qual se constitui uma FdL da América Latina que seja ao mesmo tempo filosófica, enquanto idéia universal, e libertadora, enquanto identificação essencial. Ainda, a ação que se pensa para a América Latina requer a ação política dos sujeitos coletivos, devendo esses serem exortados ou não na dinâmica da libertação, na construção de uma situação de liberdade que, paralelamente, liberte a América Latina das amarras dominadoras e a Filosofia da abstratividade vazia. Por mais que se pense que a FdL, pressuposta a partir do situacional geográfico latinoamericano, destituiria a Filosofia de seu caráter universal abstrato comprometendo, assim, a capacidade teórico/especulativa própria de sua dimensão clássica, a FdL percebe a necessidade de uma realização histórica, enquanto cultura inalienável, de uma América Latina liberta.

Sobretudo, a partir de uma ruptura com o ideológico ocidental/europeu; da postulação de nossa realidade como fundamento da ação político/filosófica; do povo latinoamericano como ator (sujeito) coletivo, é que pensar uma FdL faz sentido. Esta precisa ser a síntese entre a essência da Filosofia, a saber, seu caráter libertador, e a realidade latinoamercana. A FdL da América Latina precisa considerar-se filosófica e libertadora, para que filosofia e libertação possam ser realmente integradas em seu conceito, de forma a serem processos conjuntos de legitimação histórica de (re) conhecimento universal.

 


[1] Este artigo resulta dos debates ocorridos na disciplina História da Filosofia Latinoamericana, cursada no Primeiro Semestre de 2007 do Curso de Graduação em Filosofia do Instituto Superior de Filosofia Berthier – IFIBE.

[2] Acadêmico do 4º semestre de Filosofia IFIBE.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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