De jeitos, direitos e favores.

É /a gente quer viver pleno direito
a gente quer viver todo respeito/a gente quer viver uma nação/a gente quer é ser um cidadão (Gonzaguinha, Canção É)

Nei Alberto Pies [1]

 

O povo brasileiro, historicamente, confunde o conceito de direitos com a idéia de favores. Culturalmente, foi assimilando mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem usufruídos. Da mesma forma, erradamente, os brasileiros acreditam que o público é o que não é de ninguém. É por isso que as atitudes cotidianas dos brasileiros só são compreensíveis pelos processos culturais que nos fizeram “ser o que somos”.

No filme “Os outros”, do diretor Fernando Mozart, apresenta-se o povo brasileiro como muito religioso e que tem adoração pelas formas arredondadas da bunda, do bumbo e da bola. Os brasileiros, segundo o filme, não perdem o controle da bola e o rebolar da bunda. O carnaval, por sua vez, é uma grande festa capaz de superar, instantaneamente, todas as desigualdades sociais, reunindo todas as seitas religiosas no embalo de um único ritmo. A idéia de que brasileiros sempre são os outros teria origem no início da colonização, a partir de uma idéia de que “esta é uma terra sem males” e de aqui tudo se pode. Então, se o outro pode (roubar, enganar, mentir, ser corrupto) porque também eu não posso fazer? Desta forma, foram aumentando e se multiplicando os outros, de forma que hoje ninguém assume mais quaisquer responsabilidades sobre nada. Outros agora são ninguém. Se não bastasse, atribuímos a iluminados ou iluminadas salvar o país. O povo se comporta como expectador e não como protagonista de sua história.

Quando o Brasil foi avistado pelos colonizadores, os índios e, mais tarde, os negros, tiveram sua cultura ignorada e suprimida. Suas culturas não eram dignas de uma identidade brasileira e, por isso mesmo, sempre foram marginalizadas. Os colonizadores aqui implantaram, ou adaptaram, o modo europeu de ser. Por muito tempo, em nossa história, ser culto (possuir ou dominar cultura) significava ter estudado em universidades européias ou ter viajado pela Europa. Aos brasileiros, sua própria cultura (modos de ser, pensar e agir), ainda não é suficientemente séria para ser reconhecida e estudada. O Brasil ainda hoje carece de uma identidade.

Quem é que não conhece o “jeitinho brasileiro?” O jeitinho brasileiro é a expressão notória de que os direitos, sempre conquistados com luta e organização, são renegados, muitas vezes, entrando em ação os jeitinhos. Sim porque estes resolvem, na camaradagem, as situações particulares de cada um. Por sua vez, os direitos, apontam benefícios coletivos e critérios justos, ao passo que os jeitinhos resolvem os problemas individuais, com vantagens para quem é beneficiado e quem media o mesmo. Some-se ao jeitinho brasileiro a “Lei de Gérson” (sempre levar vantagem em tudo) e explicamos a cultura de corrupção, nos sucessivos escândalos que vimos assistindo até hoje.

Muitos brasileiros não se imaginam protestando ou exigindo direitos. Pois é por conta disso que somos a nação das filas e das esperas demoradas, abrindo oportunidades para os “espertos” se darem bem. Os que lutam por direitos são tratados como baderneiros, rebeldes, vagabundos, gente que não tem o que fazer. Criou-se, assim, a idéia de que é crime reivindicar e exigir direitos.

O que é público, por sua vez, é tido como aquilo que não é de ninguém. Se não é de ninguém, porque cuidar? O que é público é tudo aquilo que é um patrimônio de todos.  E porque não pensamos assim, vamos destruindo o que é de todos, porque entendemos que não é de ninguém.

O Brasil tem jeito? Sim, o Brasil terá jeito quando brasileiros e brasileiras assumirem uma cidadania ativa, exigindo de si mesmos e dos demais novas posturas e condutas. Acreditamos que é possível? Pois é, se nem eu e nem você fizermos nossa parte, seremos mais dois no time dos outros.


[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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