O preço das idéias

“Como no dito: “Quando as máquinas começarem a agir como homens, os homens serão forçados a agir como máquinas”. Pessoas alienadas deixam de ter o seu auto-controle. Elas perdem muito da sua individualidade e por extensão são privadas de seu mais notável valor como seres humanos. (www.dharmanet.com.br/honganji/caminho4.htm)

Nei Alberto Pies [1]

 

Os filósofos gregos nos ensinaram que “pensar bem nos ajuda a viver melhor”. Mas, de que adianta elaborarmos bons pensamentos se não formos capazes de colocá-los em diálogo, em confronto e em circulação com outras idéias?

Observando diferentes situações em que são exigidas as idéias, nos deparamos com uma triste realidade: muitos de nós nos abstemos de expor o que pensamos. Outros, em outro extremo, falam muito e sem demora perdem o crédito daquilo que pensam. O fato é que todas as idéias que lançamos, tem um preço a pagar. Está em cada um de nós buscarmos o equilíbrio e discernimento, pois só as idéias essenciais é que valem um alto preço.

Sócrates, filósofo grego, foi executado por conta de suas idéias. O seu questionamento à organização da pólis grega e a maneira como era implantada a democracia resultou, em 400 a.C., numa das primeiras execuções da história por exclusiva defesa de idéias. Sua atitude, a de dar sua própria vida para não abrir mão de suas idéias, também foi atitude de líderes conhecidos como Jesus Cristo, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Che Guevara, Chico Mendes, dentre outros.

Em casa, na escola, entre amigos, no trabalho, na família, a convivência exige que tenhamos postura de seres pensantes. E dizer o que pensamos do mundo, das coisas e das pessoas permite sermos reconhecidos em pensamento e ação, mas também cobrados em nossa coerência. Quando não assumimos nossas idéias, deixamos de ser nós mesmos e permitimos que alguém pense pela gente.

Por vezes, preferimos apenas nos identificarmos com aqueles e aquelas que comungam com o nosso pensamento. Não queremos, sobretudo, assumir a responsabilidade de tornar nossas idéias públicas e reconhecidas. Por temermos o preço pela exposição das idéias, forçamos sempre os outros a fazê-lo.

Mas qual é o preço das idéias? Ah, isto não sabemos e não podemos mensurar. O fato é que elas sempre agradam ou desagradam a alguém, sempre imprimem percepções e significados que não sabemos prever. Mas idéias autênticas, críticas e bem elaboradas, com certeza, geram instabilidades. Pois, o mundo insiste em nos formatar e alinhar com a linha do pensamento vigente. Os que pensam criticamente o mundo nunca são bem vistos, pois sempre existe alguém que queira manter tudo como está. Mudanças somente são permitidas quando estas não enfrentam a lógica dos interesses pré-estabelecidos.

Às vezes, parece que as idéias perderam importância num mundo ditado pela velocidade da informação. O certo é que nem todas têm possibilidade de dialogar com um número significativo de pessoas. Mas a criatividade humana encarrega-se de inventar e reinventar, todos os dias, novas formas de comunicar as idéias. Aquelas trabalhadas com profissionalismo, criatividade e ousadia tendem ser mais rapidamente compreendidas e assimiladas. Este é hoje, o segredo da comunicação.

As idéias marginalizadas, por vezes, manifestam-se em ações violentas ou silenciosas. Sim, porque por detrás de nossas ações, sempre existem idéias motivadoras, manifestas ou não. Nenhuma ação humana atua na neutralidade. Cabe a nós buscarmos interpretar as mensagens intrínsecas aos fenômenos e aos fatos.

Deveríamos construir uma educação que propicie a condição de seres pensantes e de boa comunicação. Boas idéias não podem ser omitidas, escondidas, marginalizadas.Boas idéias devem ser, criativamente, dialogadas. Com coragem, porque as idéias não podem viver aprisionadas.


[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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