Um heroísmo que faz falta

"Modificar o passado não é modificar apenas um feito.
É anular suas conseqüências que tendem a ser infinitas". (Jorge Luis Borges)

Nei Alberto Pies [1]

O Brasil, nesta última semana, registra mais um capítulo na história das tragédias humanas. Para nossa sorte, os sempre heróicos bombeiros e os nossos atletas, nas disputas esportivas do PAN, honraram o que mais prezamos: o orgulho de sermos brasileiros. Mas este orgulho anda ferido. A nação brasileira deu-se por conta de que suas autoridades, especialmente as responsáveis pela aviação aérea, estão fragilizadas e imobilizadas. E há um vazio a ser preenchido, alimentado pelas dificuldades de visualizarmos soluções duradouras para os nossos problemas.

Vivemos tempos à procura de heróis. Foi-se o tempo em que muitos de nós éramos movidos por causas. Estas eram “encarnadas” em algumas pessoas que eram nossa referência nas lutas coletivas. O heroísmo é uma atitude altiva que materializa virtudes como a obstinação e determinação de alguém, sempre na perspectiva da coletividade. Este, hoje, faz muita falta.

A sensação que a tragédia com o Airbus A 320 da TAM nos trouxe é a de que algo, que está em curso, anda desarrumado. Mais do que isso: parece que o Brasil anda dois metros para frente e um metro para trás. Fica a impressão de que há forças ocultas e muito fortes que não permitem caminharmos para um ambiente de maior harmonia e congraçamento, condição indispensável para o tão necessário desenvolvimento. Senão denúncias e corrupção, ares pessimistas.

Ou erramos muito nas nossas previsões ou não sabemos detectar as verdadeiras causas de nossos problemas. Por vezes resolvemos que nossos problemas residem nos morros do Rio; depois ficamos com a impressão que estão nos céus de São Paulo. E, por vezes, tendemos a reduzir nossos problemas às práticas da corrupção e da impunidade, que pensamos serem de Brasília. Assim, esquecemos que somos um país de grande concentração de renda. Ignoramos que a idéia de povo pacífico e tranqüilo não se sustenta pelos números da nossa violência cotidiana. Não percebemos que o acesso à justiça é uma imensa dívida que a nação brasileira deve a todos aqueles e aquelas que têm uma condição de vida na indignidade.

Pois é da cultura brasileira simplificar, reduzir, focar, particularizar. A visão de vida e sociedade é pensada a partir do hoje, do imediato, do particular de cada um e cada uma. Cremos que nossos problemas são de fácil solução. Mas nossos problemas não são fáceis: são crônicos, complexos e de longa data. Por isso, também a tendência de não assumirmos a nossa parte de culpa. Essa visão estreita e míope não nos permite ler e interpretar a realidade de forma mais complexa, mais inteira, mais interligada, mais real.

Se é verdade que “os esportistas são os heróis em tempos de paz”, como disse a filósofa Angela Hobbs, eles não dispensam a responsabilidade das autoridades na condução de nosso país. Mas seus exemplos de superação honram a vitalidade, a alegria e a vontade de vencer dos brasileiros e brasileiras.

Em momentos de crises e de grande comoção social, não nos servem heróis oportunistas. Mas é claro que esperamos atitudes coerentes e heróicas. Heróis e heroínas são pessoas que, em seu tempo histórico, empregam ousadia e coragem para apontar caminhos e soluções necessárias para gerar uma maior tranqüilidade e segurança a todos. Aqueles e aquelas capazes de conquistar seguidores de suas idéias. Capazes de nos convencer e mobilizar.

Tragédias como as de Congonhas devem mobilizar a sociedade para a busca da confiança, credibilidade e verdade. Mas como alerta Armínio Fraga, a “credibilidade é algo que se perde rápido e se conquista devagar". Se nossos líderes políticos andam pouco inspirados, o prognóstico da sociedade deve ser um só: cobrar responsabilidades. Acreditamos, como Constantin Brancusi: "as coisas não são difíceis de fazer, o difícil é nos dispormos a fazê-las". Boa sorte, Brasil!


[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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