Filosofando – a meio-termo![1]

 

Édson Régis de Jesus [1]

 

Ao homem que quer pensar a vida, o mundo, a própria forma do conhecer é, simplesmente, inevitável o ato do filosofar.  Mesmo que seja uma robusta e sólida ou refinada e abstrata busca por alguma sustância real de segurança, será feita por sobre um suposto estatuto de um verdadeiro conhecimento, que logo entenderá como efêmero aquilo que o pensamento humano constrói, enquanto filosofa.

Toda afirmação, desde aquela mais corriqueira até um argumento mais elaborado que seja posto, pressupõe, em si mesmo, alguns pareceres óbvios, dados à vista. Fichte já bem disse na Doutrina-da-Ciência que há uma ciência primeira que dá os princípios para todas as outras, o nosso problema é essa dita ciência primeira que possibilita o conhecimento, nossas proposições. Aquilo que nossa ‘cabeça’ tem por certo para pensar, julgar e dar sentido a todo o resto, mas que não se explicita. Seria como tentar ver, sem espelho, a própria nuca? O eterno giro da cabeça. E dali continua todo o alvoroço sobre o desenvolvimento dos fundamentos de sentido.

Muitas vezes, no curso de filosofia, escutei dizer que o mais complicado não é tanto apreender, mas mais é o ato de desaprender, isto é, tirar a inocência da obviedade. Até o Thaumazein – susto – se vai, mas e depois?

Talvez seria partir do não-saber-absoluto, como quis o Descartes. Neste sentido, é inevitável a todo homem usar a razão para o exercício da filosofia na busca pelo saber. Mas se a filosofia é inevitável, será que somente assim ela é preciso? Até mesmo porque tentar discordar disto é reafirmá-la no próprio argumento. Diríamos que a maior necessidade da filosofia é o próprio ato de formação de cada indivíduo no esclarecimento do quê da sua vida; toda eficácia das coisas que se apresentam nos nossos dias de cada um requerem uma justificação, conhecimento com sentidos."toda eficácia das coisas que se apresentam nos nossos dias de cada um requerem uma justificação, conhecimento com sentidos, mas não qualquer sentido, mas "O Sentido". Surge assim a necessidade filosófica mais incisiva.

Mas será que todos os que estudam filosofia alcançam este objetivo essencial? De ser filósofo em busca de conhecimentos e sentidos? Como nem todos os estudantes de medicina praticam o que aprenderam (ou que ao menos deveriam ter apreendido) ou são médicos, eu estudei filosofia por três anos e, infelizmente, por adaga do destino (se é que ele existe) não me tornei,  minimamente, ‘filósofo’, por mais que tivesse a pré-tensão, que foi somente o que restou. Porém, desaprendi algumas coisas – o que já foi uma grande coisa! – e me encontro na posição do inexato sobre questões filosóficas.

Dado que, mesmo estudando filosofia, muitas vezes nós estudantes ficamos na fase: eu tenho a impressão... eu acho que..., Poderia, então, dizer que somos aprendizes de filósofo, na virtude aristotélica (se o somos!), isto é, aquele do justo meio (Aristóteles afirma que a virtude é o meio-termo, sendo que os vícios acontecem na falta ou no excesso).

Isto porque, ao estudar filosofia não passam despercebidas as questões centrais de inquietação do homem, porém, por outro lado, elas nem sempre permitem o rigor da concatenação das idéias num espírito esclarecido.

O mais crítico até poderia chamar isso de água morna. O meu entendimento chama de processo estável de efervescência ou, por outro lado, em nível avançado de degelo, dialeticamente, a água morna, seria a síntese que congrega e melhora os estágios anteriores, aqui, apenas vistas de um ponto e o meu ponto de vista sobre esta condição. O meio-termo como sendo a potencialidade de abertura para com o Outro na possibilidade de discussão e reflexão de forma inacabada, o que também seria digno para ser um [neófito] bom pensador.

Noutro dia um acadêmico proferiu: “o fato é que ser filósofo parece ser tão difícil quanto ser santo”. Buscar o sentido fundamental da questão, ser filósofo, filosofando é caminho, mas tentar olhar a própria nuca não! Não se deve esquecer que não há como exaurir o sentido (talvez o sentido não tenha mesmo todas as coisas!), conhecê-lo totalmente, o que alguns pensam ser a chave para ser filósofo. A parcialidade do meio-termo.

Por vezes acontece aos estudantes de filosofia, que este aparente fracasso possibilita uma grande tristeza. Talvez porque ser [meio] filósofo é ser mesmo melancólico na alegria de viver filosofando. E a vida, já nos disse o grande poeta Quintana, “é um dever que nós trouxemos para fazer em casa”. Então, o façamos porque filosofar é viver ainda mais... Sem esquecer que Quintana não disse que esse dever tem fim, pois o homem nunca poderá sobreviver sob a total morte do pensamento. Filosofemos, ao menos, à meio-termo.

 

 

[1] O texto que segue não tem a pretensão de ser um escrito filosófico, no sentido estrito do termo. São apenas algumas palavras de preocupação soltas, que todo acadêmico de terceiro ano e pós-filosofia deve compartilhar.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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