Falo e escuto. Ou: falo e não escuto.

“...a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor”. (Rubem Alves)

Nei Alberto Pies [1]

 

Falamos muito, até demais, mas poucos de nós estão dispostos a ouvir. Mas, para quê falar se ninguém quer escutar? Vale mais a oratória ou a escutatória? Silenciar, para ouvir, ainda tem algum valor? Talvez precisemos aprender ou re-aprender a nos comunicar, para melhor conviver.

Nos comunicamos e nos relacionamos artificialmente. Temos, por um lado, a comunicação entendida como técnica de falar bem, como ferramenta e estratégia da propaganda e do marketing. Estas, bem elaboradas e produzidas, tentam livrar-nos das contradições da vida e do mundo, compondo o mundo ideal e imaginário. Do outro lado, onde a vida acontece, vivemos o mundo das relações interpessoais, estabelecidas cotidianamente com os outros. E estas, sim, cheias de contradições, como a própria vida.

Rubem Alves, sabiamente, como um grande mestre, chama atenção para aquilo que compõe a verdadeira comunicação: o entendimento e a compreensão daquilo que ouvimos dos outros. E dá pistas do porquê vivenciamos relações interpessoais e sociais difíceis, complexas e deterioradas.

Estamos deixando de nos compreender como seres “de” e “em” relação. Sim, pois velocidade, barulho, individualismo, sectarismo e falta de tempo não combinam com boa comunicação, sobretudo, porque não permitem conversar. E “conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos”. É na conversa que compartilhamos as angústias, as ansiedades, os sofrimentos, nossos erros e acertos. A conversa propicia, ainda, o exercício da “escuta pacienciosa” que, além de uma terapia, é uma necessidade humana que nos leva a uma melhor compreensão da gente mesmo e dos outros.

Os conflitos interpessoais, quando esgotadas as possibilidades de dialogar, compreender e conviver com o outro, são um grande problema social e por que não, problema de saúde pública. E a sociedade aposta somente no Judiciário para a mediação de conflitos. E, infelizmente, em muitos casos, o Judiciário, por sua natureza e organização, ao invés de mediar conflitos, contribui para intensificá-los, tomando posições que sempre agradam a um e desagradam a outro. Os conflitos sociais, por sua vez, são a expressão das vontades coletivas represadas e incompreendidas. E a sociedade precisa estar atenta para compreender as mensagens que os sujeitos revelam através de suas ações. Escutar é para compreender, muito antes de julgar.

A escutatória de Rubem Alves pressupõe uma postura de um profundo respeito e consideração para com aquele que nos procura para falar de si. O conteúdo que este alguém traz é aquele conteúdo que ele julgava essencial ser comunicado. O bom ouvinte deve despir-se de arrogância e vaidade, permitindo um silêncio interior (que vem de dentro). “..ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia”.

Precisamos, todos, ser ajudados e ajudar a construir os meios que nos permitam a fala e a escuta, ambas indispensáveis para uma boa convivência social. Somente a fala e a escuta propiciam o diálogo. Este esforço é pessoal, mas também é público e coletivo. Então, se você fosse convidado, faria um curso de escutatória? Você procuraria um Centro Especializado em Escutatória (público ou popular) para lhe ajudar na mediação de um conflito? Ou você prefere acreditar que sempre se garante?

[1]  Professor e militante de direitos humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


 Rua Senador Pinheiro, 350 - Vila Rodrigues - Passo Fundo - RS

CEP: 99070-220 - Fone: 54 3505 3277