Uma experiência de apreço à vida - A  herança missionária do Pe. Berthier

 

Pe. Hermeto Lunkes (MSF)

 

 

É Novembro: o mês dedicado à vida, que vence a morte. A “vida” é a meta por excelência, em vista da qual giram todos os sonhos e esforços humanos, qualquer que sejam as razões que movam sua existência. Como pano de fundo aparece sempre de novo como razão existencial, o apreço à vida.

Foi na segunda metade do mês de novembro de 1992 que, graças à tarefa coordenadora-missionária da qual estive incumbido na congregação religiosa dos MSF (1983 a 1995, com residência em Roma), uma viagem evangelizadora para a Bialorússia (Rússia-Branca) e Ucrânia me oportunizou experiências de profundo apreço à vida. Não sei se na verdade hoje já “me caiu a ficha”. O fato é que, na prática, fomos ensinados a “ir às missões para ensinar verdades (não sei se verdades“evangelizadoras”ou “colonizadoras). De outro lado, resta-me hoje a feliz realidade de que “se calaram a voz dos profetas, as pedras começaram a  falar” (Lc.19,40).

Portadores da linguagem missionária não foram tanto os idiomas, mas a necessidade de um outro anúncio: a presença compassiva, solidária, ouvinte, contemplativa (Mt.9,35-38). É a linguagem missionária priorizada por nosso Fundador, Pe. João Berthier. Onde a linguagem dos idiomas parece inútil, ou absolutamente incompetente para gerar interações interpessoais e espirituais, ali deve “interagir intensamente” a comunhão do respeito diante da história deste povo, tão duramente provada, mas tão densamente treinada para a tenacidade da  esperança e para o apreço à vida. E ali o fruto da missão atinge mais o “sujeito evangelizador” do que o “destinatário da evangelização”. Ou, deixando em seu lugar devido lugar o profeta e o destinatário da evangelização, quem mais deverá sentir-se “questionado” pelo Evangelho é o profeta.   Missionários nestas terras de missão, para sermos evangelizados pelos que intensamente estiveram unidos ao “mistério do Cristo da Semana-Santa”: esta foi uma das prioridades de nossa missão coordenadora.

 Em agosto do ano 1992, três colegas nossos, da Polônia, Missionários da Sagrada Família partiram para a Ucrânia e a Bialorússia (Rússia Branca). Estes foram para lá ao encontro de alguns milhares de compatriotas seus que, no início da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), levados pelo regime soviético àquele exílio. Homens e mulheres, adultos e jovens, da noite para o dia, foram jogados em vagões e transportados aos campos de concentração na Sibéria, Ucrânia e Bialorússia. Distantes da pátria, violentamente separados:  esposos das  esposas, pais dos filhos e irmãos dos irmãos, eles deveriam “aprender a sobreviver” e “vegetar” num total anonimato, sem interações familiares, até o ano 1988.

 Foi nas primeiras semanas do inverno, em novembro de 1992 que, acompanhados pelo provincial  MSF da Polônia e por outro coirmão polonês da Polônia que fazia de intérprete (para a língua italiana), em companhia destes, nós, os “ilustres romanos”(o Superior Geral e eu), partimos às 02:00 horas de Varsóvia, capital da Polônia, rumando em direção à Bialorússia e Ucrânia. A travessia da fronteira para a  Rússia- Branca significou minuciosas vistorias, até que a “intercessão de um santinho verde”, anexado ao “Visto” no Passaporte, converteu o coração dos alfandegários. E a viagem pôde prosseguir.

 Percorrida certa distância dentro da Bialorússia, o ponteiro do combustível nos sugeriu um reabastecimento. Junto à bomba fomos surpreendidos pelo  aviso de uma cartaz: “Greve de combustíveis”. Porém, à distância de alguns metros dali, veio ao nosso encontro um senhor e “conversou o nosso motorista”. De fato, logo adiante, após uma curva fechada dentro daquele vilarejo, havia atrás de uns arbustos alguns vasilhames que providenciaram pelo nosso tanque. O teor da conversa “dos interlocutores”... foi para nós “magos de Roma”, o  de um “idioma de Torre de Babel”. Mas a “estrela do oriente” voltou a brilhar. Disseram-nos que era uma “greve branca” não desejada pelo governo, mas que ...... e o resto, .... o analfabeto não entendeu.

 Após perda de uma hora nesta “greve-blitz” a nossa viagem prosseguiu e, por sinal, sem nenhum outro percalço. Enquanto nosso “Fiat” de fabricação polonesa engolia rodovias concretadas, nossos olhos degustavam aquelas infindas planícies, atapetadas do verde de trigo, centeio, rabanetes e de outras culturas do gênero, confirmando-se o que se dizia: “Bialorússia e Ucrânia são os celeiros da União Soviética”. Aqui e acolá, em meio às lavouras, erguiam-se silos, galpões e algo do gênero. Após longos kms. de rodovias retilíneas, num longínquo horizonte, avistava-se a  presença de cidades. No entanto, a rodovia, estrategicamente construída, evitava o tráfego pelos centros urbanos, estratégia de defesa nacional. A exigüidade de nosso tempo não nos oportunizou a passagem pelas cidade.

 A noite começou a cair cedo. O sol estava oculto por uma fina cortina glacial. Mas, como tudo indicava, era horário de encerrar seu giro para iluminar nosso espaço. Eram cerca de 15:30 horas. Inaugurava-se a nossa primeira noite de inverno soviético. Ela avançava e as rodovias nos direcionavam em direção ao nordeste, isto é, em direção a baixas temperaturas. Os primeiros flocos de neve começaram a cair, dando sinal para iniciarmos a “bater os queixos e os dentes”. As planícies começavam a ceder espaço a terras mais onduladas, até que, com o avançar dos quilômetros, apareciam algumas cadeias de montanhas, esbranquiçadas e clareadas pela neve.

 Finalmente, a “boa notícia” da proximidade de nosso destino nos foi informado num serviço de combustíveis, onde pudemos abastecer sem as  complicações da meia-manhã.. De fato, por volta das 20:00 horas, entre pedidos de informações de buscas, estacionamos diante da casa procurada. Era a residência de um casal de velhinhos poloneses, um dos muitos antigos exilados para cá. Este hospedava o nosso coirmão MSF, da Polônia, vindo com ousadia e ardor missionário, ,“aproximando-se dos afastados para longe”. A razão motivadora - que se poderia chamar de “fundante” para a nossa viagem e que nos acalentava pelo caminho dentro do nosso modesto automóvel sem calefação - estava diante de nossos olhos e concretizara o desejo de encontrarmos nosso coirmão, reunido em torno de um  grupo de pessoas que, teimosa e tenazmente foram capazes, a partir “de um espírito de força, de amor e de sabedoria, ... reaviadas pelo dom de Deus que estava neles pela unção do Espírito de Jesus” (2Tim.1,6-8),  se encontravam ali nesta noite. Desde que se vislumbrava a proximidade de sua “libertação”, estas pessoas foram se reencontrando, no início timidamente. Depois como que a cochichar nos  ouvidos uns dos outros, amadureceram  projetos de reorganização de suas vidas e comunidades.

 Estas comunidades, por longos e penosos anos provadas da presença  de algum sacerdote, religioso ou religiosa, das celebrações e da vida pastoral nas comunidades – como ontem estavam profundamente habituados em sua Pátria distante – hoje em sua “comunidade eclesial do silêncio”, eles voltam a acreditar que “Jesus de Nazaré” continua caminhando solidariamente com eles, na busca de um futuro, aqui ou talvez em sua mãe-pátria - conforme nos afirmou, com lágrimas e brilho nos olhos um daqueles velhinhos”. 

 Efetivamente, estávamos ali para sermos “evangelizados”. Pudemos testemunhar a força renovadora e libertadora de uma comunidade cristã que, às escondidas e perseguidos, se reuniu   em torno da Palavra de Deus, escrita pelo punho de uma humilde escrava ali presente no grupo, como veremos adiante.

 Havia nas redondezas de Kublitz, antigo reduto de católicos, mais 13 pequenos povoados na Bialorússia e na Ucrânia. Ali nos esperavam grupos de idênticas situações e projetos.. Ali estavam estes remanescentes poloneses exilados, alegre e decididamente dispostos a retomar o cultivo da sua fé cristã. A sua recente “história”, sofrida mas não desesperançada, poderia tornar-se sementeira de uma nova sociedade. A intrepidez e a ousadia que o Batismo infundiu nesta gente, estavam  confirmando a vitalidade do Mistério Pascal de Cristo, reassumido com outras e novas perspectivas.

 Caiu bem à vista que as raízes de sua fé cristã não estavam ressequidas e nem as razões de suas esperanças ético-cristãs haviam sido aniquiladas. Nestes relatos quero omitir qualquer traço de sentimentalismo e imaturidade, em respeito à maturidade e à veracidade do cristianismo destes exilados. Onde uma história é escrita essencialmente com sangue e suor humano, não há lugar para “fanatismos religiosos” –  e, muito menos,   para a “mediocridade” de “uma religião mercantilista”. . Amiúde   a nossa modernidade, que se orgulha de suas “liberdades”, se traduz em práticas religiosas de “caprichos pessoais”, onde a solidariedade e a corresponsabilidade não tem ... nem voz, nem vez.

 O contexto global de toda esta visita-missão e encontros com as 14 comunidades, tanto na Bialorússia quanto na Ucrânia, teve sua “marca registrada” já no primeiro encontro. É verdade, cada comunidade teve suas peculiaridades e suas riquezas a partilhar. Muitos testemunhos destas pessoas exigiam que me “beliscasse minha pele”, para testar se estava bem consciente e acordado diante do que estava ouvindo. Não acreditar nas palavras destes “mártires” seria, no mínimo, uma grosseira ingenuidade. Duvidar do que testemunhavam estas pessoas poderia ser razão suficiente para um auto-exame. A serenidade da voz e o equilíbrio das partilhas feitas por estas pessoas foi algo emocionante..De extrema riqueza, sobretudo em dimensão da vida solidária, foi um testemunho de uma pessoa madura em idade e fé crista. Faço constar este testemunho, porque só pode ter partido de um coração que amou e apreciou a sua vida.

 Não poderia omitir este testemunho que continua falando forte em mim: a “experiência de apreço à vida” dado por alguém que, na sua idade avançada, com uma mente lúcida, postura equilibrada e opção firme nos deixou no encerramento do primeiro encontro. 

 Naquela primeira noite, confirmou-se para mim aquela verdade libertadora de que, nem  a violência, nem a vingança e... nem a morte tem a última palavra lá onde há pessoas que apostam na vida. Foi na humildade daquela noite que me impressionou, como “primeiro anúncio” e como renovada proclamação a Boa Notícia do Jesus de Nazaré, ali em Kublitz Isto aconteceu mediante o gesto e as palavras proféticas de uma vovó ali presente naquele salão gelado. Num determinado momento daquele encontro aquela anciã pôs-se de pé; pediu licença para dar o seu testemunho. Caminhando trôpega para o fundo daquela sala,  ajuntou uma sacola de pano. Voltando ao grupo, colocou-se diante de todos. Tirou daquela sacola um caderno. Da grossura de uns dois centímetros de grossura. Respirou profundamente.Enxugou umas lágrimas que rolavam por entre os sulcos  de sua face e, cobrando forças, abriu aquele caderno “surrado” pelo uso de toda aquela comunidade. Levantando-o, disse a plenos pulmões e em voz rouquenha,  palavras com este sentido:

 “Queridos Missionários, durante mais de 50 anos fomos privados da missa e dos sacramentos; fomos proibidos de rezar o terço, de ler e estudar o catecismo e a Bíblia. Os chefes do governo queriam que nós nos esquecêssemos de nosso Deus e de sua Palavra”.  A  velhinha  parou  por uns instantes a sua fala, para engolir o “nó” de sua emoção.  E de novo, respirando profundamente para   recobrar  novo  fôlego,  ela testemunhou:  “Quiseram silenciar a nossa fé. Mas, não conseguiram acorrentar e silenciar a Palavra de Deus. Estamos aqui, vivos, com mais fé em Jesus Cristo e no Reino de Deus, porque nós encontramos a força de Deus, lendo e rezando  a sua Palavra que eu escrevi com o meu próprio punho neste caderno. Para quem gosta da vida, não pode esquecer da Palavra de Deus. Aqui está,... Esta é a força que nos  fez  vencer”. 

 Olhando para dentro da vida de certas comunidades, se “tivermos olhos para ver e ouvidos para ouvir” (Mc.9,18), em nossa missão diária teremos chances resgatar e de reacender o carisma e a espiritualidade fundantes, capazes de redimensionar-nos de forma missionária. Partilho esta minha experiência e a “graça” do encontro com aquela gente que realizou um “êxodo” não sangrento, mas do qual saíram para “dar razões de sua esperança a todos quantos de nós a perguntam” (1Pedro 3,15). Os impactos da missão nos levam a muitas surpresas, tais como as experimentou Isaías (65,25): “Naquele dia vereis lobo e cordeiro a beber nas mesmas águas”.  

 

Par. Cristo Redentor, 06 de novembro de 2007

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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