Espiões humanitários!

Édson Regis de Jesus [1]

 

Somos um país de paz, gente de paz, não temos guerras, não temos conflitos religiosos, mas porque há tanta morte? Não vivemos mais nem na Cidade dos Homens ou na Cidade de Deus (como escreveu Santo Agostinho), mas sim na cidade dos muros e das cercas elétricas. Nunca foi tão eficaz, como exagerado, enquanto pensamento social, a visão hobbesiana de que o homem se constitui como lobo de si, no caso, do outro homem e que, a todo o momento, na esquina da rua escura, no portão de casa, no interior do ônibus, na praça..., lá estará ele, um sujeito igual a mim, pronto para me apunhalar pelas costas num gesto de traição, referente ao meu eu, da sua própria humanidade.

Depois de toda a discussão sobre o desarmamento e a sua não aprovação, considerando o ambiente social que legitima a violência, resta-nos a pergunta: e se o desarmamento tivesse sido aprovado, haveria, será, alguma mudança na conduta dos habitantes de Passo Fundo? Pois o objetivo era esse mesmo, mudar! E não qualquer mudança sobre este mote, mas uma necessária para a edificação pacífica de todos os moradores.

Vejamos: o desarmamento apenas teria suprassumido um de tantos elementos que poderiam levar o homem até o ato da violência, a saber, o não acesso ‘fácil’ às armas. Porém, outros arranjos coexistiriam. Citemos por exemplo a falta de condições (de alimentação, vestuário...) como uma necessidade (se bem que nem todos os que roubam o fazem por necessidade, no sentido estrito do termo, mas também por desejo ou ambição). Sendo que a garantia da facilidade de obter uma arma de fogo seria sanada, há, então, de se crer que haveria menos fatos de crimes nas agendas noticiadas diariamente. Aqui que podemos melhor repensar a questão, pois mesmo assim não estariam sanados outros imperativos de inacessibilidade de recursos o que ocasiona a contínua conduta violenta. Tão logo, conclui-se que a arma enquanto objeto não tem nada a ver com a trajetória anterior ao gatilho a ser puxado.

Mas toda a arma de fogo tem por sonho matar alguém, foi feito para isso, se fosse somente para a defesa não mataria. “Não atire para matar, mas para ficar vivo” é um slogan falso que retrata esta idéia errônea, gerada do pensamento de que o outro, a qualquer instante, está arquitetando me atacar e, no melhor momento, o fará porque ele é um criminoso e, então, sendo isto verdade, tenho que ter uma arma para me defender e assegurar a minha vida. O outro, enquanto sujeito igual a mim (em direito), é considerado não mais como um ser histórico, de um passado e de um futuro, amigo e co-reponsável pelo desenvolvimento da própria humanidade, mas sim como um inimigo em possibilidade, um espião sobre o que tenho, dado que não se importa, nem um pouco, com o que sou!

Estando na praça, no entardecer, se alguém se aproxima, devo sacar uma arma. Assim, e só assim, continuarei vivendo. De certa feita pedi, num túnel próximo da rodoviária de Porto Alegre, que horas eram a uma senhora que, olhou em volta com certo ar de pavor e disse: pergunte para aquele policial ali em frente! Eu fui um espião e um violentador em possibilidade naquele dia, e nem sabia disso.

O debate sobre o desarmamento vai muito para além disto, mas o que queríamos retirar dele é a consciência sobre (quem é) o outro que ele possibilita, isto é, o homem como um lobo que “pode” atacar. A questão desarmamentista, mesmo considerando que uma arma facilita e promove morte, não é o mais importante, mas sim o pensamento que se tem em relação ao “outro”, enquanto sujeito, no ato de portar uma arma.

Lembremos da recente vigilância pública na cidade através de câmeras (que, ainda bem, não possui arma), a maneira de tornar os homens adestrados, fruto da idéia de que a todo o momento todos estão sendo espionados por todos para um eventual ataque. A maior necessidade da violência é a defesa concreta de um provável ataque, a consciência contrária às diferenças da outra pessoa na sua forma de ser.

Diante de todo este ambiente, em conjunto com o pensamento de que Direitos Humanos apenas defende bandidos (...), é que o IFIBE, em parceria com a CDHPF, anunciam o projeto de filosofia nas comunidades, na ótica dos direitos humanos, onde o outro não é um espião que irá atacar, mas sim um sujeito de iguais direitos que precisam de garantia, mesmo na sua diferença que caracteriza a nossa condição humana. E este grupo de jovens acadêmicos estará explicitando e promovendo os direitos de todos porque a visão que deve se constituir não é aquela de que o outro é um espião que está preste a me acometer, na minha integridade física e moral, mas sim a visão de que todos possam agir como que espiões, na ótica da defesa dos direitos humanos, espiões humanitários, na defesa dos direitos da humanidade porque sempre há Em cada diferença a igualdade!!!

[1] Bacharel em Filosofia

 
     
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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