'O Documento de Aparecida é o
ponto mais alto do Magistério da Igreja Latino-Americana'. Entrevista especial
com Clodovis Boff
Em entrevista exclusiva, concedida por
e-mail à revista IHU On-Line,
o frei Clodovis Boff
afirmou que o documento conclusivo da V
Conferência do Celam “é uma surpresa do
Espírito, pois nada deixava prever um texto dessa qualidade. É também um milagre
da Mãe Aparecida, a quem o Santo Padre tinha confiado a direção da Assembléia”.
E, muito otimista, continua: “O documento da V Celam não só dá mais um passo em
frente, mas abre uma ‘nova fase’ na missão da Igreja no Continente. A sensação
que passa é que ‘agora vai’”.
Frei
Clodovis Boff, frade
da ordem dos Servos de Maria, nasceu em Concórdia, Santa Catarina, em
1944. Atualmente, Boff reside em Curitiba e leciona teologia na Universidade
Católica de Curitiba. Possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia
Ciências e Letras de Mogi das Cruzes, graduação em Teologia pela Universidade
Católica de Lovaina e doutorado em Teologia pela Universidade Católica de
Lovaina.
É autor de vários livros, entre os
quais citamos Uma Igreja para o Novo
Milênio (5. ed. São Paulo: Paulus, 2003).
Ele concedeu uma entrevista à IHU On-Line
número 125, de 29 de novembro de 2004, que foi posteriormente republicada no
Cadernos IHU em Formação
número 8, de 2006, intitulado Teologia
Pública.
IHU On-Line – O que o documento
síntese da V Conferência do Celam traz de novidade em relação às conferências
anteriores?
Clodovis Boff
- O Documento de Aparecida
é, a nosso ver, o ponto mais alto do Magistério da Igreja latino-americana e
caribenha. É o melhor documento produzido até hoje pelos nossos bispos e talvez
por qualquer outro episcopado regional. Ele recapitula o que há de melhor nas
Celams anteriores, e isso dentro de um quadro teológico muito mais rico, seguro
e homogêneo. O documento é uma surpresa do Espírito, pois nada deixava prever um
texto dessa qualidade. É também um milagre da Mãe Aparecida, a quem o Santo
Padre tinha confiado a direção da Assembléia. A meu ver, o documento da
V Celam
não só dá mais um passo em frente, mas abre uma “nova fase” na missão da Igreja
no Continente. A sensação que passa é que “agora vai”. É que o documento
apresenta uma estrutura teológica e pastoral harmônica bem centrada. Acertando o
passo com lógica específica da vida da fé, o documento se estrutura articulando
os seguintes elementos: fé viva em Cristo a partir de uma experiência de
encontro (“discípulos”), fé essa que se irradia no mundo em forma da missão
(“apóstolos”) e que se prolonga na sociedade em termos de compromisso pela
justiça e pela vida (“para que n’Ele nossos povos tenham vida”). Aqui, cada
coisa está no seu lugar: a fé em Cristo no começo, como fundamento de tudo; a
evangelização como primeiro desdobramento espontâneo dela; e, enfim, a missão
social como seu necessário desdobramento ulterior.
Este é o “fio vermelho” que permeia todo o documento e lhe dá
unidade. Está aí, a meu ver, a chave geral que abre as riquezas de todo o texto
episcopal. A principal novidade do documento? É a própria boa-nova do Amor de
Deus a ser experimentado, anunciado e projetado na vida. Essa é a “prioridade
das prioridades”, a prioridade originária e permanente, que a Igreja é chamada a
anunciar e a re-anunciar sem descanso. A partir dessa novidade perene, o
documento coloca as outras novidades.
IHU On-Line - Sinteticamente,
quais seriam as três grandes luzes do Documento de Aparecida e as três grandes
sombras?
Clodovis Boff
- O grande acerto do Documento de Aparecida
é ter recolocado, no início e na base de tudo, a fé viva em Cristo. “Começou
pelo começo”, isto é, por onde começou historicamente a vida da Igreja e por
onde recomeça a cada dia. Fazendo assim, os bispos encontraram a embocadura
certa para relançar a missão evangelizadora do Continente: partir em tudo e
sempre de Cristo. Sabe-se – e Aristóteles o declara – que achar o princípio é
sempre a coisa mais difícil e também a mais decisiva, mas uma vez achada, tudo
se torna fácil e se põe em ordem. O documento apresenta a fé como um evento
existencial, como uma “experiência de encontro”. Trata-se de um encontro vivo
com a pessoa viva de Jesus Cristo. Entender a fé assim constitui uma
redescoberta decisiva da V Assembléia, pois supera uma idéia de fé entendida
como simples aceitação de doutrinas, ou como opção ética, ou ainda como mera
tradição cultural, como é em grande parte o nosso catolicismo. Fazendo assim, o
episcopado latino-americano se põe em cheio no campo da espiritualidade, a parte
mais íntima e vital da fé.
Um catolicismo de “iniciados”
Para operacionalizar pastoralmente a
idéia de uma fé como “encontro com Cristo”, fonte de tudo o mais, os bispos
propõem o “itinerário” de uma primeira “iniciação à vida cristã” (cap. VI).
Entendem por aí introduzir “mistagogicamente” os afastados da fé à escuta da
Palavra, à oração pessoal e à eucaristia. Pois só um catolicismo de “iniciados”
é realmente evangelizador, socialmente fecundo e eficazmente resistente ao
secularismo moderno assim como aos proselitismos atuais. Quanto às sombras,
vamos com calma e respeito, pois se trata aqui de um documento de nossos pais e
guias na fé. Mas, francamente, não percebemos sombras que mereçam reparo. O que
talvez possa acontecer seria a tentativa de jogar sombras sobre o documento por
parte dos grupos que pretendem levar a Igreja por caminhos pouco sintonizados
com o sopro do Espírito.
IHU On-Line - Qual é a
importância de difundir na cultura de nossos povos a fé em Deus-amor, e como
isso se aplica no dia-a-dia da Igreja?
Clodovis Boff
- A mensagem de Deus-amor é a coisa mais preciosa que a
Igreja tem a oferecer ao mundo. É disso que ela vive e é para isso que ela
existe. Esta é a essência mesma do Evangelho. Isso vale para todos e mais ainda
para os nossos povos pobres. Estes, excluídos que são pelos poderosos, precisam
sentir-se acolhidos pelo Criador e Pai, de modo a criarem coragem para viver e
lutar por tão grande dignidade. Quanto à “aplicação” da mensagem do amor de
Deus, deve-se dizer que, mais do que se aplicar, ela precisa ser vivida a plenos
pulmões e em todo o tempo. É como uma luz que enche de beleza, energia e calor
cada realidade da vida, desde o eros até à vida na pólis. A evangelização
objetiva despertar antes de tudo essa paixão mística e esse deslumbramento
espiritual. Se a fé é bastante intensa, ela mesma encontra suas formas concretas
de se manifestar. Pois, como disse Nietzsche
, “quem tem um porquê sempre encontra um como”. Quanto à operacionalização
pastoral do anúncio do Evangelho do Amor, os bispos propuseram concretamente uma
“grande missão continental” (n. 376-8). Esta objetiva mobilizar todas as forças
vivas da Igreja para “sair ao encontro” dos distantes. E isso não com intenções
de proselitismo ou de reconquista, mas para partilhar a alegria do Evangelho e
comunicar as maravilhas da vida em e com Cristo.
IHU On-Line - A Assembléia de Aparecida confirmou
a “opção preferencial pelos pobres”. Como essa opção vai ser posta em prática?
Clodovis Boff
- Em Aparecida, a opção pelos pobres ganhou uma nova
amplitude. Foram identificados “novos rostos” da pobreza: os desempregados, os
refugiados e migrantes, os aidéticos e os tóxico-dependentes, a população de
rua, as mulheres vítimas da violência e exploração sexual, os presos e tantos
outros rostos mais. Mas é, sobretudo, a qualidade desta opção que é mais
sublinhada pelo documento. Trata-se de uma opção verdadeiramente evangélica, no
sentido de vir banhada e mesmo encharcada da fé em Cristo. E isso, tanto em sua
origem (ela nasce do encontro com o Filho de Deus, “que de rico se fez pobre”)
quanto em seu exercício (ela vibra com os sentimentos do coração do Bom Pastor).
Quanto às aplicações concretas, além das indicações práticas que dão, os bispos
apelam para a “imaginação da caridade”, a que se referiu João Paulo II.
IHU On-Line - Qual é a
importância do tópico “família” e da necessidade de “promover a cultura do amor
no matrimônio e na família, assim como o respeito pela vida”.
Clodovis Boff
- A Igreja sempre viu na família uma instância
privilegiada da transmissão da fé como também dos valores humanos, inclusive
sociais. Em verdade, entre todas as agências de transmissão de valores, a
família é a primeira e mais importante pela influência capilar, profunda e a
longo termo que exerce sobre os filhos. Não é, pois, verdade que ela é mais
vítima da problemática social do que agente de mudanças. Esta é uma visão falsa
e derrotista. Como “célula da sociedade”, uma família sadia leva a uma sociedade
sadia. Mas se essa célula é cancerosa, toda a sociedade pode entrar em
metástase. A vocação específica da família é particularmente urgida no contexto
atual de relativismo e de niilismo, no sentido de resistir a e mesmo de reverter
o atual processo de desagregação dos valores, inclusive os mais naturais, como o
amor à vida, a família heterossexual e a solidariedade humana.
IHU On-Line - Que rosto de
Igreja emerge da V Conferência? Quais seriam suas principais características?
Clodovis Boff
- Será o tipo de Igreja que cumprir o lema da Conferência,
devidamente desenvolvido no Documento de Aparecida.
Portanto, será em primeiro lugar, uma Igreja “discipular”: ouvinte da Palavra,
meditadora, grande orante, contemplativa, adoradora, doxológica e eucarística.
Depois, será uma Igreja “missionária”, que anuncia com alegria e entusiasmo a
Boa-nova do amor de Deus em Cristo, como o que enche de sentido o coração do ser
humano, também nesta vida. Será, enfim, uma Igreja “agápica”, enquanto se faz
samaritana de todos os caídos à beira das estradas do mundo, cuidando deles e
curando-os.