Davi e Golias no “Deserto Verde”

Pe. Dirceu Benincá [1]

 

Usando uma pedra e uma funda. Foi assim que o pequeno Davi venceu o gigante Golias (1Sm 17). Em Aracruz, Norte do Espírito Santo, há uma luta histórica entre Davi e Golias. O enfrentamento se dá no interior do “deserto verde”, formado pelas extensivas plantações de eucaliptos. “Golias” está bem representado pela potente e lucrativa empresa Aracruz Celulose, que estimula a cultura do “verde insustentável”. “Davi” é retratado pelos índios Guarani e Tupiniquim, vítimas da colonização e do “progresso”. 

Desde 1968, a empresa Aracruz está presente no município do mesmo nome. Dez anos depois instalou no local sua primeira fábrica de celulose. De lá pra cá, vem se expandindo pelo país afora com seu afã capitalista. Não mede conseqüências, destruindo comunidades indígenas e causando sérios danos ambientais. Na região de Aracruz, apropriou-se de uma vasta área de terras dos índios, sob a alegação de que essa população não era indígena. Ali existem hoje três aldeias Guarani e quatro Tupiniquim, somando cerca de 2.600 pessoas.

Falando sobre os problemas enfrentados, um cacique de uma das aldeias disse: “Muitas vezes somos chamados de preguiçosos e incapazes. Acusam a gente de impedir o desenvolvimento”. E acrescentava: “Nós somos a favor do progresso da vida e contra esse progresso da morte”.  A luta dos povos indígenas pela retomada de suas terras dura cerca de 40 anos. Até nisso se assemelham ao povo do Antigo Testamento que passou 40 anos no deserto – “não verde” – em busca da Terra Prometida (Dt 29,4-7).

Por esses dias, reacendeu-se a luta. Em 24/07/2007, a Comissão de Caciques e lideranças de ambas as nações indígenas escreveram uma carta aberta à população e autoridades brasileiras. Nela informaram que os índios estão iniciando um conjunto de ações tendo em vista a retomada dos 11.009 hectares de terra invadida pela empresa. Desejam que o processo seja rápido e pacífico. Pretendem reconstruir suas aldeias e reflorestar suas terras com espécies nativas.

De sua parte, os índios querem viver em harmonia com a natureza, o que não está sendo possível por causa da intromissão arrogante do moderno Golias. E afirmam que a Aracruz traz a destruição da mata e dos rios, bem como a poluição do ar e das mentes. Em recente visita que fizemos à região, ouvimos de um cacique o seguinte comentário: “Se a empresa quiser fazer um “papel bonito”, ela não pode continuar comprando os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo”. Esse ‘papel bonito’ não se faz à base de cloro – que deixa a celulose com a brancura exigida pelo mercado consumidor – mas com base na justiça e no direito. 

“Queremos nossas terras e nossos direitos para que não tenhamos que ficar dependendo de cesta básica, de esmola ou de algum empreginho na cidade”, declarou um guarani. Os índios, juntamente com os quilombolas que residem nos arredores, não se cansam de lutar pela conquista da “Terra Sem Males”. Sabem, entretanto, que para isso terão de se confrontar com o Golias que está muito forte e articulado.  Não é de estranhar também que ele tente de todas as formas deslegitimar os direitos dos pobres e criminalizar as suas organizações e estratégias. 

Quando a força e o direito se confrontam pode-se esperar basicamente dois resultados: A vitória da força física e do poder econômico sobre o direito ou a vitória do direito se este se organizar com força. Doação das terras que são suas, os índios dizem que não aceitam. Não faz sentido receber como doação o que se tem por direito. Desejam, isto sim, a homologação da área que lhes pertence, como já foi amplamente comprovado. Estão à espera da ação do Governo Federal. Justiça seja feita para livrar os indígenas, os quilombolas e a “mãe natureza” das garras desse “Golias”!

 

 

[1] Doutorando em Ciências Sociais (PUC-SP)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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