Cidade feliz é cidade sonhada

Nei Alberto Pies [1]

 

Nossa cidade é uma cidade sonhada? Nossa cidade oferece oportunidades aos múltiplos artistas que desejam expressar sua maneira de ver e conceber nossa realidade? Somos uma cidade que respira cultura? Temos cultura própria ou vivemos sob a influência de quaisquer valores políticos, artísticos, culturais e religiosos?

Artistas são aqueles que, através de sua arte, buscam novos significados à vida e ao cotidiano, representando-os com um jeito sempre original e único. Ao contemplarmos sua arte, ficamos pasmos, boquiabertos, estáticos. Já não vemos mais a realidade como a víamos antes. Mas logo adiante, minutos ou horas depois, entram em ação os nossos olhares viciados, viciados pela rotina que nos impede de ver o diferente de forma permanente.

Em nossas andanças, temos nos deparado com uma legião de artistas (populares, anônimos, esquecidos, desiludidos) que esperam por uma oportunidade. Vez por outra, algum destes é lembrado, mas o que todo artista precisa é ser reconhecido. E o desenvolvimento da arte é também uma questão de oportunidade. E cultura, por sua vez, sempre expressa o modo de ser, pensar e agir de uma coletividade. Mas esta também se manifesta por seus interlocutores, os artistas do povo.

Nossas cidades são palcos. Mas estes palcos que abrigam circos, mega shows, jornadas literárias, seminários, palestras, teatros, colóquios têm ainda uma imensa dificuldade de incluir o nosso povo como protagonista de sua história cultural. Ainda somos mais espectadores do que promotores de cultura. O verdadeiro artista é nosso povo, que labuta cotidianamente a vida, os sonhos, a sua história.  E estes são os mais verdadeiros e autênticos elementos da entidade de nossa gente e de nossa cidade.

Por acreditarmos nas profecias de artistas e poetas, um dia escrevemos:

De janelas e poetas

Uma janela e uma vista/ Na cidade, de muitas janelas/ muitos pontos de vista.

As palavras dos poetas são paridas pra bailar/ em ônibus, praças, ruas e avenidas/ Seus desejos sempre são/ de vida compartilhada.

Mundo e humanidade/ inspiram versos que carregam/ os ideais de uma cidade.

Poetas sonham poesias/ anunciam felicidade.

Dignidade, sempre a querem, indistintamente.

A cidade, como o mundo/ precisa de poetas./ Mundo e cidade, não sabem ser sós.

Os ares dos adventos eleitorais que se aproximam parecem ainda despertar, em muitos, a dimensão dos projetos e utopias. Estes, lamentavelmente, cada vez menos confiáveis porque muito viciados.Viciados porque permeados por interesses (sempre legítimos), mas distantes dos verdadeiros anseios da comunidade.

Cremos que nossas cidades precisam ser mais sonhadas. Sonhar é atitude de quem quer sempre renovar. E os sonhos se alimentam de desejos subjetivos, culturais e materiais. Mas alguém já perguntou quais são os sonhos de nossa gente? Alguém já os levou realmente a sério? Afinal, se as cidades não construírem felicidade, elas servem para quê? Mas se poetas, artistas e lutadores sonham, um dia assim serão nossas cidades: de felicidade, inclusivas, de oportunidades, com identidades próprias, de paz.

[1]  Professor e militante de direitos humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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