Big Brother em Passo Fundo

Paulo César Carbonari [1]

“Se você quer uma imagem do futuro, 
 imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre"

George Orwell. 1984

 

Big Brother em Passo Fundo. Recentemente as autoridades políticas e de segurança instalaram “câmeras de vigilância” no centro da cidade. Disseram fazê-lo como medida para coibir a violência e supostamente gerar mais segurança. Não seriam elas a versão atual do Big Brother, como o descrito por George Orwell, em 1949, em sua célebre obra Nineteen Eithy-Four ("1984") que a tudo vê e a tudo controla – não só aos “fora da lei”?

 Os Winston Smith de hoje, cidadãos e cidadãs comuns que andam pela rua, pensam que não estão sendo controlados por ele, afinal não se rebelaram; pelo contrário, parecem gostar de ser olhados, até porque, ilusoriamente, pensam que o Grande Irmão só controla os que não são ordeiros (os tais “bandidos e marginais”). Ledo engano. Estão sendo controlados sim. O Grande Irmão vê a tudo e a todos. Ilusão é acreditar que não vê o idoso que foi buscar sua aposentadoria, a dona de casa que foi à farmácia, o trabalhador que espera o ônibus, o estudante que vai à escola, as tribos que se reúnem na praça, o motorista desavisado, o..., o..., a..., a... Dirão: mas isso não interessa a ele, que somente presta atenção a quem estiver promovendo alguma ação ilegal... É o que o Grande Irmão sempre diz: interessa-me apenas quem está fora da ordem.

Para muitos pode parecer exagero comparar as câmeras ao Grande Irmão orweliano, já que os cidadãos e as cidadãos não estão presos e muito menos sendo torturados pela convivência fóbica (com ratos). Engraçado! Agora a metáfora parece perder força e se tornar descrição. A rigor, os Winston Smith atuais, mesmo não estando presos – afinal vão e vêm como lhes aprouver – estão sim prisioneiros exatamente do medo (fóbico, com o perdão da redundância) da convivência com os outros. Os outros, qualquer um outro, é visto e entendido como uma ameaça – pode ser um bandido em potencial a me atacar a qualquer momento. Calma! O Big Brother está olhando e pode distinguir uns e outros...

 Outros ainda dirão que os Winston Smith de hoje não estão sendo passando por uma espécie de “lavagem cerebral” que os convença a seguir cegamente as ordens do Grande Irmão. Engraçado, o que os “lava” é a ameaça da presença do outro e já parecem estar convencidos de que o Grande Irmão tem razão: ele é protetor e vela pela segurança dos bons, dos “de bem”.

 Estranho como ganha sentido a expressão de La Boétie que, no século XVI, em Discurso da Servidão Voluntária, disse: "Não pode haver amizade onde há desconfiança, deslealdade, injustiça. Entre os maus, quando se reúnem, forma-se um complô e não uma companhia. Eles não se entretêm, entretemem-se. Não são amigos, mas cúmplices". Os ditos “bons”, os “de bem”, comportam-se como se fossem os “maus” de La Boétie. não vêem os outros como amigos, paradoxalmente, nem como cúmplices, simplesmente os vêem como ameaça – “entretemem-se”. Dessa forma, cumprem bem o que é esperado deles pelo Grande Irmão: adequar-se à ordem enganosa da segurança oferecida por ele.

 O mais estranho ainda é que tudo isso parece não ter sentido algum visto que hoje em dia o Big Brother está banalizado. Está mais para o olho benevolente de telespectadores que ocupam o final dos verões encantando-se com os “alemão” e as “siri” da hora. Perdeu sua força originária de ser o olho totalitário que tudo vê e tudo controla. Os Winston Smith já não estão “confinados” por se rebelarem contra qualquer todo-poderoso. Também não são torturados por qualquer fóbica convivência – nem ratos existem na “casa”; tudo é muito limpo e clean. Também não passam por qualquer tipo de “lavagem cerebral”. Talvez o que sobra de semelhança é que os “brotheres” – como são chamados os Winston Smith globais – transformam-se em servos da “ordem totalitária” representada no um milhão.

 Talvez este seja o destino mesmo de todos que somos nada mais do que Winston Smith do Big Brother global e nos reste pensar que “câmeras de vigilância” não passam de mais uma forma de modernidade segura... Quem sabe nosso futuro seja mesmo o de ter uma bota tecnológica prensando nosso rosto, para sempre....

 

[1] Professor de filosofia (IFIBE) e militante de Direitos Humanos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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