A Arte da Convivência
Dirceu
Benincá
[1]
“A natureza dos homens
é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados”. A afirmação de Confúcio
está coberta de verdade. Os hábitos espelham valores, princípios, concepções de
mundo e modos de vida. Assim, um hábito pode aproximar ou distanciar uma pessoa
da outra; pode gerar simpatia ou antipatia; promover sintonia ou instigar
atritos e contendas.
A propósito do assunto, um cachorro entrou em cena. Aliás,
hoje é muito comum observar determinados animais figurando como personagens
principais da casa. O tempo era de carnaval, mas desta vez o grande folião foi o
cachorro preso no quintal do vizinho. Sei dizer que o animal se investiu de um
sentimento de desespero, protesto, angústia ou coisa que o valha e não sossegou.
Passou a latir de modo incessante e perturbador, noite adentro.
No dia seguinte a vizinhança se reuniu para estudar
providências. Uns sugeriram que não se deveria falar com o dono do cachorro,
dado que ele poderia não gostar e o resultado ser pior do que o quadro
estabelecido. Alguém chegou a postular que o negócio era mesmo aguardar a morte
do bicho, admitindo que só o fim do tempo de vida do cão resolveria a situação.
Ouvi também a ponderação de que a paciência seria uma boa medida para o caso. E
dizia-se: ‘Façamos de conta que não estamos ouvindo’. Haja ouvidos que não
ouçam!
Já se disse que as idéias movem o mundo. Porém, parece
crescer uma outra tendência: a de que os cachorros movem as pessoas, que se
movem em face dos cachorros. Refletíamos sobre isso, quando uma amiga
relatou sua história: Teve de mudar de residência. Eis que ali se aproximou uma
senhora e, sem cumprimentá-la, pedir seu nome ou desejar boas vindas, afirmou:
‘Então temos um novo vizinho’. Referia-se ao cachorro que estava chegando com a
mudança.
Numa sociedade permeada de espíritos caninos, cachorros se
sobressaem aos humanos. As pessoas passam a ter menos importância e receber
menos atenção que os animais. A convivência equilibrada e responsável com o
semelhante, com os animais e com a natureza é uma verdadeira arte. É preciso
polir o/a artista que está dentro da gente, o que requer sensibilidade,
alteridade e respeito mútuo. Exige que se valorize e cuide as pessoas como
pessoas e os animais como animais, evitando inverter os papéis.
Andava nesse vai e vem com o pensamento no exato momento
em que o ônibus dobrou a esquina. Ali no muro alguém – movido sabe-se lá por que
razão – havia escrito com alta perspicácia: “O segredo de viver em paz com todos
consiste na arte de compreender as diferenças”. A beleza da epígrafe traz
exigências muitas vezes difíceis de perceber e praticar. Conviver é muito mais
que tolerar ou fazer “vistas grossas”. É predispor-se a ser com o outro/a a
partir dele/dela, sem, contudo, negar a própria identidade.
O (supostamente) mais inexpressivo dos atos pode causar
grandes transtornos à convivência. No preciso momento dessa conversa, achegou-se
um amigo para relatar um ocorrido. Disse ter visitado uma família onde é
habitual fumar dentro de casa. O mal estar gerado pelos respingos daquela
prática viciosa fez com que ele sentenciasse a si mesmo: ‘Jamais retornarei a
essa família’. De fato, determinados hábitos podem afastar para sempre uns dos
outros.
Ao analisar as experiências cotidianas vividas e
descritas, o amigo saiu-se com a seguinte afirmação: “De perto, ninguém é bem
certo”. Todos temos somas virtuosas, mas nos acompanham também hábitos e
comportamentos defeituosos que, não raro, acabam prejudicando a boa convivência
entre pessoas, grupos, comunidades, povos e com a nossa Casa Comum.
Somos da mesma natureza, mas com diferenças que, às vezes,
chegam a ser enormes e até intoleráveis. Em última análise buscamos os mesmos
fins, mas por caminhos ou descaminhos diversos. Dar-se conta disso é
fundamental. A convivência harmoniosa em meio a esse mundo conturbado, cheio de
conflitos, crises e problemas de toda ordem é uma arte. Sejamos artistas
autênticos. E como diz o cantor e compositor Reynaldo Bessa: “A arte é a arma
contra a miséria das coisas”!