Água, energia e moenda

Dirceu Benincá [1]

Água é fonte de vida e de energia. Os povos indígenas costumam dizer que ela é o sangue da mãe-terra. Porém, os que têm a cabeça povoada de idéias e princípios capitalistas, vêem a água, a terra e também a energia como mercadorias. A energia, oriunda de fontes diversas, exerce função fundamental, semelhante ao nosso coração. Bombeia o líquido vital, mesmo “morro acima”. Ambas - água e energia - movem a vida, além de muitas máquinas e “moendas” capazes de moer a própria vida.

A propósito, o MAB (Movimento de Atingidos por Barragens) e outros movimentos populares estão discutindo seriamente como garantir “luz em todo o túnel” e para todos; não apenas para alguns ou somente no “fim do túnel”. Ocorre que faz escuro, o que não significa que devamos nos deixar tomar pelo medo e sonolência. A direção do debate é muito clara. Trata-se da necessidade eminente de construir outro modelo energético. Isto implica pensar e dar corpo a outra forma de desenvolvimento, de produção, de consumo, de convivência, enfim, de vida.

Por baixo do “moinho” neoliberal corre muita água. É a mesma máquina capitalista que gera exclusão social em massa e degradação ambiental por todos os lados. São enormes as contradições que este sistema produz. Sua fome de capital é voraz. Por isso privatiza tudo: água, energia, alimentação, sementes, transporte, telecomunicações, meios de comunicação de massa, combustíveis, saúde, etc. E os pobres é que sempre pagam a maior conta.

Na Nicarágua – onde cerca de 42% da população não tem energia –, a produção e a distribuição da energia elétrica é privatizada, garantindo lucros exorbitantes a empresas transnacionais. Contudo, a transmissão (incluindo os custos com a construção e a manutenção da rede) fica por conta do governo. É a expressão mais clássica do capitalismo, que privatiza a mais valia (lucro) e socializa os custos, os riscos e os prejuízos. Qualquer semelhança com o Brasil, El Salvador, Argentina e outros países da América Latina e Caribe não é mera coincidência.

Em nosso país, embora alguns insistam em dizer que o crescimento anda acelerado e a qualidade de vida está melhorada, não cabem ilusões. O moinho neoliberal continua esmagando os pobres sem dó nem piedade. Por esta razão, a organização popular é essencial. Não é ultrapassado dizer que, só o povo organizado e politizado pode combater o imperialismo com suas modernas formas de colonização globalizada.

O que importa às camadas populares é seguir na direção de um “porto seguro”. Por certo, este almejado porto não pode ser o capitalismo neoliberal. Ele é um sistema nada seguro e nem um pouco confortável para a população empobrecida do continente latino-americano e caribenho. Navegar é preciso e indispensável. Mas, não é o bastante. É necessário remar contra a maré. Importa discutir projetos, estratégias e táticas eficientes para fazer a travessia, evitando o “afogamento” coletivo.

Afora os impactos sociais e ambientais gerados pelo capitalismo, hoje enfrentamos uma profunda crise na democracia representativa, o que faz crescer o descrédito e o nojo da política. Temos a sensação de que a direita invadiu a chamada esquerda e esta ocupou assento da direita. Creio que, numa tal situação, cumpre aos movimentos sociais populares garantir o papel da verdadeira esquerda, defendendo um projeto político, econômico e sócio-ambiental alternativo.

“Água e energia não são mercadoria”, denunciam os movimentos populares, sobretudo o MAB. E ressaltam que não dá para querer mudar pouca coisa só porque é difícil mudar o necessário. O que é necessário mudar é o sistema que gerencia a água, a energia e que acaba triturando os pobres no dia a dia. Enquanto houver opressão, exploração e exclusão, sonhar com a vida digna para todos e lutar por uma nova história é imprescindível. Como afirmou o revolucionário argentino, Ernesto “Che” Guevara, morto há 40 anos: “Hay que endurecerce pero sin perder la ternura jamás”!

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[1] Doutorando em Ciências Sociais na PUC/SP

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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