Dia Mundial da Filosofia

Paulo César Carbonari [1]

 

 

 

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) estabeleceu que a terceira quinta-feira de novembro de cada ano, a partir de 2002, seria consagrada à filosofia, passando a incentivar a celebração do Dia Mundial da Filosofia. Em 2007, o Dia da Filosofia é 15 de novembro.

A UNESCO, que mantém um programa de incentivo ao desenvolvimento da filosofia, foi motivada a propor a celebração do Dia da Filosofia com o intuito de incentivar os povos de todo o mundo a compartilhar sua herança filosófica e a abrir uma reflexão renovada sobre novos pensamentos, suscitando o debate publico entre intelectuais e a sociedade civil sobre os desafios que estão postos às sociedades nos dias atuais.

Segundo Mika Shino, especialista do Programa de Filosofia da UNESCO, “O Dia Mundial da Filosofia permite que as instituições celebrem a importância da reflexão filosófica e que as populações do mundo inteiro sejam convidadas a participar de atividades filosóficas. Para a UNESCO, a filosofia oferece os fundamentos conceituais dos princípios e dos valores dos quais depende a paz mundial, a democracia, os direitos humanos, a justiça e a igualdade. A filosofia permite consolidar autênticos fundamentos para a coexistência pacífica”.

Na fala da especialista está a expectativa com a presença da filosofia em assuntos cruciais da vida contemporânea. Espera dela uma contribuição reflexiva e engajada. Lança questões-chave, tanto num, quanto noutro sentido. Propõe que a data enseje perguntar-se: “”a quem negligenciamos a reflexão?; a que realidades intoleráveis nos habituamos?”.

A pergunta que se dirige à reflexão ganha um sentido forte por apresentar à agenda da filosofia a tarefa do pensar como atividade humana, na expectativa de que seja possível a todos/as. Por isso, quando chama a atenção para aqueles/as a quem é negligenciada, provoca tanto a sociedade em geral, quanto os/as filósofos/as, em particular, para pensar sobre o lugar da filosofia na vida de todas as pessoas. É aqueles/as a quem falta acesso à reflexão, por ter-lhe sido negligenciada, que lança o foco, certamente na expectativa, dadas as motivações que antecedem às questões, de provocar para a “inclusão” na reflexão.

A segunda pergunta põe a filosofia no mundo e a chama para dar atenção à realidade, em especial às “realidades intoleráveis”, às quais “nos habituamos”, talvez porque a tarefa da reflexão, esperada de todos (objeto da primeira questão) foi deixada de lado. Pretende, talvez, mostrar que a filosofia está no sem lugar do mesmo, do comum, do habitual, na expectativa de que esteja no lugar da crítica, da reflexão. A filosofia é convocada a se desinstalar do habitual e a contribuir com a desinstalação do habitual.

Alguém poderia dizer que a especialista espera demais da filosofia, tão desinstalada dos assuntos mundanos, seja por sua própria obra, seja por ação da sociedade. Não faltam os/as que acreditam, e a tradição filosófica tem muitos exemplos, que, engajada no mundo, a filosofia perde sua especificidade, confunde-se com o habitual e, contraditoriamente, esvazia-se da possibilidade crítica a ele. Por outro lado, há também aqueles/as, e a tradição filosófica também tem muitos exemplos desses/as, que pensam exatamente o contrário e entendem que, se não estiver imersa no mundo, a crítica não terá sentido, tornando-se habitual (em si mesma) e estéril o afã de reflexão. Paradoxalmente, as alternativas têm em comum a mesma nervura: a filosofia tem sentido quando gera pensamento e ação refletidas.

Estas observações podem parecer estranhas a olhos acostumados à mesmice e pouco afetos a aceitar impertinências. Talvez exatamente nisso esteja a força da filosofia: sua nervura provoca a mesmice e gera impertinências. Talvez exatamente por isso tenha-se que declarar um Dia Mundial da Filosofia: para, ao menos num dia, parar para pensar o habitual, para estranhar e ser impertinente!

 

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[1] Mestre em Filosofia e professor no Instituto de Filosofia Berthier, defensor de direitos humanos  (CDHPF E MNDH)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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