Bar, oficina e cultura

Era uma vez...
A riqueza contra a simplicidade/ Uma mostrando pra outra
Quem dava mais felicidade (
Álvaro Socci / Cláudio Matta)

Nei Alberto Pies [1]

 

O povo grego, em 700 a.C, referenciava as suas ágoras (praças públicas) como lugares de intenso convívio, interação e promoção cultural. Esta herança grega perpetua até hoje, quando temos, em todas as cidades, a praça como um lugar central, para onde tudo e todos deveriam convergir, sobretudo as idéias. O homem contemporâneo, por sua vez, e em nome da segurança e comodidade, constituiu outros espaços que lhe permitem as maiores trocas (de desejos, cultura e de consumo), os shopping centers.

Pois é, mas as praças perderam seu brilho e encanto, substituídas por ambientes que ainda preservam a simplicidade, ingrediente importante para os relacionamentos sociais. Antes, ocupadas por humanos, hoje habitat para as pombas. As praças foram substituídas, em parte, pelos bares e oficinas (de trabalho).

Faz bom tempo que temos observado os comportamentos característicos de bares ou de oficinas que, para além de lugares de entretenimento e do trabalho, são verdadeiros pontos de encontro e troca de saberes. Impressiona-nos como na capital (Porto Alegre), os bares exercem, através do happy hour, lugar de privilegiado e contagiante encontro de amigos, famílias ou colegas após o término de uma jornada diária de trabalho. Em Passo Fundo, e creio nas demais cidades, por sua vez, também os bares, mas especialmente as oficinas, tornam-se lugar onde se divide o cafezinho, a caipirinha, o churrasquinho da sexta-feira, o chimarrão, as palavras cruzadas dos jornais, o bom papo entre amigos, a leitura dos jornais.

Algo nos faz crer que o encontro da gente com o outro é uma necessidade humana da maior grandeza. E que reconhecer a importância do bar e da oficina é, por sua vez, reconhecer que a cultura também se faz nas sutilezas, na simplicidade, na cumplicidade, nas relações de homens e mulheres que decidem se encontrar em ambientes menos formais e mais aconchegantes. Isto nos faz constatar, por sua vez, que ambientes dirigidos pela racionalidade e pela ordem como os escritórios, fábricas e escolas servem bem para outras coisas, menos para integrar plenamente as pessoas que por lá convivem.

A imponência, o luxo e a segurança dos shoppings convivem, lado a lado, com a simplicidade dos bares e das oficinas. São os jovens os que mais convivem no shopping; o shopping é feito, preferencialmente, para eles. Não se sentiriam satisfeitos e agradados pela simplicidade, por isso quando vão ao bar é somente para beber. Sim, são outras concepções, modos de vida e maneiras de compreender os espaços sociais.

Shopping, bar, oficina e praça são espaços culturais que nos ajudam a compreender a complexidade da cultura de nosso tempo. Museu, teatro, circo, clubes e rua também são espaços igualmente importantes na nossa produção cultural, pois todos possibilitam a sociabilidade e a interação, que impulsionam e renovam as nossas idéias. Sim, pois são as idéias é que movem o mundo, antes mesmo do dinheiro. E este sempre foi um risco: a gente permitir que valorem em dinheiro o que a gente faz por necessidade e pelo prazer de fazer, conviver.

[1] Professor e militante de Direitos Humanos

 
     
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   

 


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