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Saudação Turma 2004
Por Édson Régis de Jesus,
Orador da Turma [1]
O dia de hoje é de festa. Estão
aqui pessoas que há três anos chegaram assustadas e cheias de esperança e que
foram acolhidas. E a acolhida que tiveram foi determinante para os três anos que
se sucederam.
Eram meninos, ainda
adolescentes na sua maioria, e homens e mulheres maduros, procurando por
respostas às suas perguntas. As respostas não foram respondidas. O que essas
pessoas encontraram foram mais perguntas.
Foi assustador, no
começo. Palavras como: epistemologia, racionalidade, transcendência, suprassunção, dialética, metafísica, eram para elas enigmas. Hoje fazem parte da
vida dos que ficaram. Muitos foram embora, por muitos motivos. Escolheram outros
caminhos, nos deixaram saudades.
Nós, os formandos
ficamos aqui, bravamente, vendo colegas irem embora e assistindo o crescimento
uns dos outros. Crescemos cada um de uma forma. A subjetividade foi respeitada
sobremaneira por todos, principalmente por parte do nosso amigo da turma, o
professor André. Encontramos seu sorrido pelos corredores, seu abraço caloroso,
suas perguntas instigantes, seu respeito pelo jeito de ser de cada um.
Encontramos nele uma tremenda capacidade de fazer conexões, de procurar a radicalidade das coisas e a procura pela melhor forma de fazer a vida florescer.
É dele que vamos levar a noção de que o que aprendemos deve ser usado para viver
com intensidade. É muito pouco ser erudito, mas viver em plenitude, perceber as
pessoas e o mundo com a devida atenção fez com que nos tornássemos mais humanos.
Os que ficaram e
que hoje estão aqui mereceram do nosso paraninfo o professor Carbonari um
tratamento entusiasmado que provocou em nós uma curiosidade sem fim.
Submeteu-nos inúmeras vezes a torturas carinhosas, ocasiões em que fomos
bombardeados por perguntas que nos obrigaram a estudar, como aconteceu nas aulas
de lógica formal. E como estudamos! Jamais esqueceremos a jamais poderemos
agradecer suficientemente pela forma que ele encontrou de nos obrigar a devorar
livros. A marca que nos fica dele e que levamos para a vida, é de que todos
somos capazes, de que não basta a somente instrução, mas o que precisamos
realmente é de entusiasmo, tenacidade, capacidade crítica e leitura, muita
leitura. A ti caro “Paulinho”, gratos.
Nossos homenageados
são os representantes dos educadores que também nos acolheram e cuidaram da
nossa auto-estima acadêmica. São três pessoas que escolhemos quase pelos mesmos
motivos, mas que são tão diferentes entre si.
O professor Iltomar
ensinou-nos a amar a América Latina. Mostrou-nos que temos aqui filosofia, e da
boa. Inspirou alguns de nós a estudar com profundidade o pensamento de Henrique
Dussel, dono do nome deste auditório. Não se limitou à erudição, mas desenvolveu
em nosso espírito um sentimento de orgulho pelo que é autenticamente nosso,
assim como pela constatação de que é premente ver o outro, pois ele está aí, na
nossa frente, mostrando-se e gritando por justiça social. Além de professor,
ficamos gratos também pelo suporte técnico, junto com a Janete, que nos ofereceu
frente às nossas necessidades legais. Imensamente gratos a ti, professor Iltomar.
O professor Wohlfart que nos acompanhou todas as quintas e sextas-feiras do ano de 2005. Nos
emociona por ter mostrado, dado seu rigor teórico, que somos capazes de penetrar
em intrincados construtos filosóficos, fazendo com que esses sistemas se
mostrassem a nós, não sem muito esforço, mas a duras penas. Ao fim e ao cabo
vimos que crescemos e vimos principalmente, que o que produzimos, o que
escrevemos foi cuidadosamente analisado por ele e valorizado, , cada frase, cada
palavra, cada vírgula. Tínhamos a nítida sensação, no começo, de que não
conseguiríamos corresponder ao que as disciplinas exigiam, mas com o decorrer do
tempo percebemos que o que ele fizera conosco fora algo de muito respeito pelo
nosso potencial. Ele sempre soube que agüentaríamos o rigor e a teoria e apostou
nisso. Descobrimos com ele que a erudição não é tudo, mas que precisamos
disciplina e muita, muita leitura. A ti professor João Wohlfart, muito obrigado.
O professor Elli
Benincá já deve estar cansado de ser homenageado. Nós somos mais uma turma a
fazê-lo. Nós vamos ignorar sua cultura, sua didática e vamos nos deter em uma
virtude que, entre tantas, para nós, é a mais significativa: a generosidade. Com
o professor Elli nunca tememos fazer uma pergunta, por mais simplória, por mais
grotesca, por mais fora do contexto que fosse. Isto se deve à tremenda
capacidade deste homem de transformar tudo em algo grande, nobre. Nunca nos
sentimos desvalorizados ou ignorantes, nunca nos sentimos uma formiga frente a
tanta sabedoria. Sempre fomos olhados com profundo respeito. Aprendemos com ele
que a erudição não é nada, mas que o importante é viver de tal forma que podemos
olhar no fundo dos olhos do outro e mostrar nossa alma para poder enxergar a do
outro. Sempre fomos olhados com ternura e respeito por alguém que é grande, em
todos os sentidos. Professor Elli Benincá, gratos por tudo.
Cada professor e
cada professora deixou sua marca indelével em nossos corações. Sabemos mais do
que ninguém porque o IFIBE figura entre as melhores faculdades de filosofia do
país. Quando da visita do MEC este ano, ficou patente que somos diferentes.
Nossos professores e diretores são disponíveis, respondem aos nossos e-mails,
retornam nossas reivindicações. Uma representante do MEC deu-nos os parabéns
pela escolha da instituição. E nós, todos juntos, sabemos que merecemos.
Enfim, não
estaríamos aqui não fossem vocês. Nossos pais, filhos e filhas, irmãos e irmãs,
parentes e queridos amigos. Nós nos recusamos o seu convívio muitas vezes por
causa da tirania da filosofia, mas podem estar certos, esta “tirania” nos fez
mais felizes, imensamente mais felizes. Não estaríamos aqui não fosse o suporte
que nos deram, de todas as formas e, principalmente, pelo amor e carinho que
demonstraram nos ouvindo, incansavelmente.
De forma especial
queremos agradecer ao staff da biblioteca. Acostumamo-nos com aquele cheiro. Ele
vicia. Hoje amamos os livros que estão lá, vivos, desde que sejam abertos e
saboreados por alguém. Não recomendamos a ninguém que trate desse vício, ele é
vital para a humanidade. Os funcionários, com aquele sorriso aberto de
satisfação, estão mais do que viciados. A leitura é vida que percorre todos os
tempos, nos permite conhecer almas imortais e conhecer o mundo.
Enfim, agora a tão
esperada formatura. Para este momento houve muito empenho de todos. Fizemos
desde exposições, trabalhos, provas... reuniões, encontros de confraternização,
festas... até cucas. Mas é chegada a hora. Cada um tomará um rumo, mas a
filosofia nos acompanhará e nos protegerá. Temos agora afinidade com ela, por
isso ela não nos abandonará. A ciência do universal, saindo conosco daqui, será
nossa paraninfa pela vida afora. Ela nos ajudará a procurar sentido e liberdade
e, acima de tudo, será a nossa inspiração ao longo da vida. Ela estará sempre
conosco. Porém, queridos amigos, companheiros de muitas discussões e críticas,
colegas de três belos anos, nós vamos nos separar, hoje.
Todos temos um
caminho a ser feito. Mas temos certeza que estaremos sempre unidos entre nós,
professores, funcionários, enfim, todos que aqui estamos porque fazemos parte de
uma mesma humanidade que busca, com os olhos entrelaçados com a esperança uma
vida de aprendizado, onde a paz, o amor e a justiça possam reinar. E a nós,
formandos 2006, sempre estaremos unidos pelo pensar filosoficamente o mundo na
árdua batalha de sermos construtores de uma real-idade mais humana. Porque de
hoje em diante para nós viver é preciso, filosofar, também!