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Pensar a vida, eis a tarefa!

Paulo César Carbonari [1]

Pensar a vida, eis a tarefa (Hegel)

Pensar é exercício humano, tarefa substantiva do humano, que humaniza a humanidade. Pensar a vida é o desafio que se quer tarefa de quem quer filosofar com consistência, seriedade e compromisso.

Mas, nem todo filosofar acredita na possibilidade de pensar e muito do que se pensou não humanizou e nem preservou a diversidade das formas de vida. Serviu para inviabilizar, alienar, obscurecer o pensamento; para a destruição e a morte.

Por isso, o esquelético pensador da gravura do convite da turma ganha sentido... talvez ... é contradição manifesta.

Sem perplexidade, aquele estado de indecisão no qual não é recomendável ficar nem em termos teóricos e nem em termos práticos, como nos lembra Descartes, não há pensamento... muito menos como superar contradições.

Aristóteles, como nos ajudou a compreender Jonas, já nos lembrava que é do espanto que nasce o filosofar e que a tarefa da filosofia é, em termos teóricos, compreender as coisas como elas são, já que não nos é dado mudar sua substância; em termos práticos, tornar o agente melhor, feliz; e em termos técnicos, fazer bem de tal sorte que as coisas feitas cumpram sua finalidade como coisas.

Compreender que a fé é o que mobiliza para o conhecimento em geral e, acima de tudo, para o conhecimento de Deus, que é dom, é o que nos ensinou Agostinho, nos alvores da filosofia cristã e que se renovou no estudo do Vilson.

Tomás de Aquino, como lembrou Eduardo, nos ensinou que pensar é compreender o transcendente, sem que se possa traduzi-lo completamente no conceito, é uma forma de saber que a beatitude extrapola as coisas deste mundo. Por isso, nada melhor do que usar a razão como subsídio para fortalecer a fé.

Tomar para si a tarefa de pensar, sapere aude, no dizer de Kant, como nos mostrou Neison, é assumir a responsabilidade de humanizar-se como exercício da liberdade sem nunca tomar a humanidade, que só tem valor, nunca preço, como meio, já que é sempre fim.

O pensar, exercício substantivo da liberdade, está interditado em sociedades marcadas pela anteposição das coisas às relações entre as pessoas. O humano não se faz em sociedades de classe como aquelas nas quais vivemos, já que são intransitivas. Por isso, exige-se do pensar que seja compromisso com a transformação das realidades que inviabilizam a vida, nos lembra Marx pelo estudo feito por Jorge e em curso por Renato.

Ter em conta as relações é mais do que modificar estruturas, é reconhecer a alteridade do outro que não se esgota nos conceitos que dele fazemos, mas que se traduz em encontro na justiça, como nos lembra Levinas pelo estudo de Luiz.

A consciência ética que nasce do reconhecimento do outro concretamente excluído é tarefa de libertação, portanto tarefa ético-política por excelência, nos lembra Dussel pelo estudo de Edson e Juan e em breve de Cleison.

Esta consciência não pode ser somente a percepção fenomenológica do domínio que pervade as relações em todos os sentidos, exige posição que se traduz em compromisso histórico com a superação das assimetrias, a consciência de que saber é de alguma forma poder e que poder é exercício, como nos lembra Foucault pelo exercício que haverá de ser conduzido por Sueli.

Pensar é exercer a liberdade, ao máximo e para o máximo possível dos seres humanos, nos lembra Mill e seu utilitarismo. O estudo de Aderson haverá de nos mostrar os limites desta postura tão forte nas relações atuais.

A ação comunicativa, inviabilizada pelo poder e pelo dinheiro, é mediação em sociedades plurais, nos lembra Habermas pelas mãos do que haverá de construir José. Por isso, pensar é acima de tudo convencer com bons argumentos e convencer com bons argumentos é agir comunicativamente.

 

A vida e o pensamento não são abstrações. Traduzem-se na singularidade do cada um, na particularidade dos diversos grupos e na universalidade da responsabilidade ética pela vida comum. Por isso, mais do que tudo, são busca de efetivação da justiça e da solidariedade, palavras que tão bem traduzem uma das maiores aspirações do recém inaugurado século XXI, a paz. É por isso que tem sentido pensar a vida.

Alguém poderia dizer que, mais do que pensar a vida é preciso vivê-la. É verdade, mas também as plantas vivem a vida e até as abelhas vivem em comunidade. A tarefa de pensar a vida é tarefa humana, não por privilégio da evolução, mas por fazer-se tarefa de ação. Pensar é o ato mais humano.

Mais uma vez alguém poderia dizer que não basta pensar é preciso agir. Ou que, mais do que pensar, importa fazer. Mas, até os camundongos fazem, nem que seja para fugir das ratoeiras, ainda que em certas situações não tenham como escapar delas. O fazer humano tem sentido como agir refletido. Agir em sentido humano é mais do que fazer coisas, é humanizar-se e humanizar as relações, o meio e as próprias coisas. É desarmar ratoeiras, mesmo quando não parece haver saída por qualquer dos lados.

Esta é uma turma que pensa! Pensa que pensa! Foge dos clichês! Não se contenta com a vida ao estilo de Gregor Samsa, do Visconde partido ao meio, de Funes e de tantas outras metáforas. Mas não escapa do encontro... com as metáforas... e com as metáforas do encontro!

Por isso, a memória lhes é parceira na vigilância. O presente lhes é tarefa. O futuro lhes é compromisso com a realização de novos tempos e novos lugares. É isto que os faz sujeitos vocacionados ao pensar e ao agir.

A aprendizagem que construímos juntos nas aulas de lógica, de metodologia da pesquisa, de ética... nas conversas de corredor... nos debates... é o que levamos conosco. Não serão as teorias que alimentarão nossas vidas. É a vida pensada, com a ajuda das teorias, que poderá ser melhor.

Desejo que as aprendizagens que construímos lhes sirvam de subsídio para continuar a tarefa de aprender. Afinal, viver é aprender... aprender é pensar... pensar é agir... agir é comprometer-se... comprometer-se é reconhecer... reconhecer é ser... e... ser é viver.

Muito obrigado aos pais e mães que nos confiaram a tarefa de ajudar a seus filhos e filhas a abrir caminhos. Muito obrigado aos professores e às professoras que souberam indicar caminhos. Muito obrigado ao IFIBE que há 25 anos oportuniza esse exercício.

Queridos formandos e querida formanda, sigam firmes, não como caniços, mesmo que pensantes. Sigam como homens e mulheres que sabem, que sabem que pensam, que sabem que pensar é agir. Que sabem que filosofar é, acima de tudo, viver de um modo especial a vida humana, um modo às vezes esquisito aos olhos da multidão.

Por isso, sejam esquisitos... escandalosos... irreverentes... inadequados... insurgentes... transgressores... responsáveis.

Afinal, se quiserem viver a tarefa de pensar a vida, nada melhor do que solidariamente exercerem estas qualidades, tão caras à vida ...

 

[1] Saudação aos formandos em Filosofia no IFIBE, Turma 2004, em cerimônia realizada no dia 09 de dezembro de 2006. O autor é professor no IFIBE e foi paraninfo da turma

   
 
 

 


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