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Mudos

Eduardo Galeano [1]

Muitos são os anéis que seus aniversários desenharam em seu tronco. Estas árvores, estes gigantes cheios de anos, levam séculos cravados no fundo da terra, e não podem fugir. Indefesos diante das serras elétricas rangem e caem. Em cada derrubada o mundo vem abaixo; e a passarada fica sem casa. 

Morrem assassinados os velhos estorvos. Em seu lugar, crescem os jovens rentáveis. Os bosques nativos abrem espaço para os bosques artificiais. A ordem, a ordem militar, ordem industrial, triunfa sobre o caos natural. Parecem soldados em fila os pinheiros e eucaliptos de exportação, que marcham rumo ao mercado internacional.

Fast food, fast wood: os bosques artificiais crescem num instante e vendem-se num piscar de olhos. Fontes de divisas, exemplos de desenvolvimento, símbolos de progresso, esses criadouros de madeira ressecam a terra e arruínam os solos.

Neles, os pássaros não cantam.

As pessoas os chamam de bosques do silêncio.

 

[1] Eduardo Galeano é uruguaio, escritor, autor, entre outros livros, do clássico “veias abertas da América Latina”. Poema publicado em Idéias Revista, ano I, nº 3, junho/2006.

   

 


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