Voltar

Migrante: onde estão teus Direitos?

 Jorge Gimenez [1]

Se fizéssemos uma retrospectiva de todo o processo de formação da sociedade que se convencionou chamar de moderna, algumas características fundamentais não poderiam escapar da leitura. O antropocentrismo da nova concepção cosmológica, o individualismo gerado pela nova noção de sujeito, o advento de uma nova forma de produção capitalista, com a divisão do trabalho e a apropriação privada do capital, o surgimento das ciências e a sua conseqüente fragmentação, o progresso miraculoso da técnica, o processo retrospectivo da espiritualidade das nossas sociedades, a massificação do público pela mídia, a indústria cultural e outros são características que continuam tão presentes na nossa vida que muitas vezes viver sem elas parece impossível e não faltam os que acreditam que até fazem parte da nossa natureza.

A contemporaneidade conheceu outra característica que, de alguma forma, soma de todas as anteriores numa única formulação que as dinamiza, reproduz e cristaliza, é o fenômeno denominado “globalização”. A globalização, contestada na sua formulação racional por muitos, é a mundialização da economia, da divisão internacional do trabalho, das redes de informáticas, das redes de comunicação social, enfim, é a era da aldeia global onde nada escapa e tudo é possível. É ela uma conquista da capacidade humana sobre a natureza? Não deixa de ser. Contudo, se limitamos a globalização somente ao livre circulação de produtos com o intuito de gerar mais riquezas e riquezas concentradas em lugares específicos do planeta, em contrapartida da pauperização dos mais fracos, a globalização de fato se torna problemática e pode ser até uma ameaça para os  que não estão em condições de entrar nela e seguir a sua lógica. A globalização não resulta positiva para países de periferia e em estado de subdesenvolvimento, já que, em geral, não passam de fornecedores de matéria prima e de mão de obra barata.

Este processo global de produção historicamente tem impedido que alguns países, como a maioria dos paises sulamericanos, caribenhos e africanos, em extremo estado de pobreza em alguns casos, entrem no mesmo processo de industrialização, de modernização. Acabaram se tornando grandes exportadores de mão de obra para os centros industriais mais conhecidos do mundo, como nos Estados Unidos e as União Européia.

No reverso desta realidade, o presente momento é marcado por um fenômeno que dele resulta:Oo fenômeno sociologicamente denominado de migração ou mobilidade humana   O problema da migração evidentemente não é só um fenômeno da atual sociedade, é histórica e desde as primeiras civilizações os homens migravam por diferentes motivos. Contudo, o resultado de todo o processo da modernização e implantação de um tipo de racionalidade econômica – capitalista-neoliberal-globalizada - é de 250 milhões de migrantes em todo o mundo, na sua maioria com a cidadania negada, explorados pelos piores trabalhos, como os bolivianos em São Paulo, a prostituição das mulheres na Europa, sem nenhuma garantia de Direitos Humanos.

O problema da mobilidade humana haveria de despertar em nós e, principalmente nas nossas autoridades, a preocupação de garantir, tanto aos que deixam assim como aos que chegam, um mínimo de direitos como cidadãos, e a possibilidade de poderem se realizar dignamente como seres humanos. Nesse sentido, a migração passou a ocupar a agenda política da maioria dos paises, tanto os receptores como os emissores, na tentativa de encontrar uma solução pacífica à desesperada necessidade que leva milhões a buscar melhores condições de vida dos em terras distantes.

Por outro lado, a migração é um fenômeno que precisa ser conceituada de maneira mais humana, superando posições que a vêem como uma ameaça à cidadania do país ou como terrorismo, como querem os Estados Unidos. Se globalizamos a economia, o giro do lucro e a relação financeira dos produtos, por que exigimos de um ser humano o visto que comprove sua origem? Por acaso o homem não é mais importante que o lucro? Será impossível globalizar também a solidariedade entre as nações e o progresso científico e tecnológico para possibilitar a realização da dignidade e o respeito aos direitos humanos às pessoas no seu próprio país sem necessidades de migrar?

Os homens, mulheres, crianças devem ser capazes de aproveitar sua potencialidade, satisfazer suas necessidades, exercer seu direitos humanos e cumprir com suas aspirações no seu próprio país de origem e, portanto, migrar por decisão própria e não por necessidade. Os homens e mulheres que migram e ingressam no mercado do trabalho mundial devem poder fazer de modo seguro e autorizado para que os Estados e sociedades que o recebem o valorem tanto a eles como as suas competências.

Os muitos brasileiros que já faleceram nos desertos da fronteira entre México e Estados Unidos devem estar presentes nas nossas consciências para que tenhamos forças de lutar por um país que garanta a todos os seus cidadãos o direito de migrar e não a obrigação de migrar, se não for assim a próxima vítima podemos ser nós, não porque queremos, talvez porque precisemos.

 

[1] Aluno do 3º ano de  Filosofia  no Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE).

   
 
 

 


 Rua Senador Pinheiro, 304 - Vila Rodrigues - Passo Fundo - RS

CEP: 99070-220 - Fone: 54 3045 3277