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Indústria Cultural: Astúcia e Triunfo

Robinson dos Santos [1]

 

“A diversão favorece a resignação que nela se quer esquecer.” (Adorno e Horkheimer)

Seria literalmente “chover no molhado” afirmar, pura e simplesmente, que o futebol é o substituto atual quase perfeito da religião e que, com isso, é o novo “ópio do povo”. De fato, ambos são mesmo muito parecidos e não fica difícil estabelecer uma comparação entre os dois. A legião de fiéis, o ritual formalmente hierarquizado, a presença de elementos metafísicos como a crença em forças do além que podem ser invocadas em benefício de quem participa, a expulsão de demônios, os gritos em forma de prece ou as preces expressas através de gritos se consumam no êxtase e na purificação da alma ao se constatar que o contato com o além é real, que o mesmo intervém e opera de forma eficaz em nossa realidade. Quem se nega a participar do ritual é visto com olhar suspeito ou, até mesmo, censurado. Um esquema pré-fabricado serve para classificar as pessoas. Os fiéis se perguntam como é possível que alguém não queira participar ou que, simplesmente, não consiga gostar de algo tão apreciado por milhões e milhões de pessoas. O próprio dogmatismo, fundamento da crença, não raro, incita ao combate contra os outros credos, isto é, leva ao fanatismo e à violência. Enfim, sem que fosse necessária uma lista muito grande de semelhanças e exemplos o quadro já estaria analisado. 

Entretanto, é bem aí que está a malícia, isto é, justamente por ser notória a alienação produzida pelo futebol é que se pode dizer que a astúcia da indústria cultural consegue prevalecer. A simples afirmação de uma narcotização coletiva é ela mesma um elemento narcotizante. Todos aqueles que criticam o futebol enquanto fenômeno massificante e, com isso, toda a fanfarronice futebolística, isto é, todo o espetáculo produzido em torno dele, crêem que estão  prestando um grande serviço para a desmistificação ou, em outras palavras, estariam atuando contra a alienação e pelo  esclarecimento das pessoas. Não estão plenamente errados ao pensarem assim. Mas reside aí também um equívoco. A análise finda justamente onde deveria continuar. O futebol é o alvo fácil da indústria cultural. Ele é colocado como tal intencionalmente para atrair o olhar da crítica, como a isca para a caça. Essa é a “grande jogada” ou “o gol de placa” que a indústria cultural consegue marcar contra nós. A impressão obtida é que ao fazer-se a crítica do futebol estaria feita toda a crítica e, justamente por isso fica-se novamente impotente, enquanto ela avança triunfal e implacavelmente na dominação progressiva de todos os setores da vida.

Ora, ao ser constatado nestes termos e utilizado com este propósito, o futebol cumpre uma dupla alienação. Aliena a massa enquanto a distrai e aliena a própria crítica porque confirma-se diante dela como “bode expiatório” e absorve desta toda a atenção. Enquanto ambos ficam cada um ao seu modo absorvidos antiteticamente, isto é, a massa por afirmar o futebol, a crítica por negá-lo, eis que ele ressurge numa terceira perspectiva de forma ainda mais redentora. Ele manifesta-se como metáfora da política para aplacar a ira da crítica e promete para a massa a quebra da tediosa rotina. 

Por isso mesmo é que se auto-afirma como livre no que se refere a ideologias e faz uma divulgação de si mesmo como verdadeira democracia:  todos são iguais dentro do campo e as regras valem igualmente para todos. Entretanto, quanto mais se afirma como livre e democrático, tanto mais confirma sua não-neutralidade, sua não-pertença a si mesmo e ao público, o qual ainda acredita que o esporte é um bem cultural de todos. O embuste é bem esse: o espetáculo tem dono. Palco, atores, cenário, indumentária, instrumentos, simplesmente tudo pertence a filiais do mesmo terrível e onipresente “patrão”. Conforme Adorno e Horkheimer “a unidade implacável da indústria cultural atesta a unidade em formação da política. (...) O fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidades serve apenas para uma quantificação ainda mais completa.”[2]

O alívio ou a frustração proporcionados pelo resultado são no fundo equivalentes: a partida já foi decidida antes mesmo de o jogo começar. Os talentos estão todos negociados por um preço criteriosamente calculado antes mesmo de aparecerem no mundo. A divisão da sociedade em classes e a exploração do ser humano pelo próprio ser humano se perpetua, entre outros fatores, no instante em que um pai obriga o filho a querer ser astro de alguma coisa. O sacrifício de si é o preço de pertença a esta realidade. E o pior, a monitoração é coletiva: na ânsia incontrolável de ser astro, popstar ou algo parecido, vale tudo. Passar pelo ridículo, cometer um atentado trará, ainda que pelo seu avesso, um momento de fama e de (in)glória. A mesma indústria que inculca no inconsciente coletivo aquela ânsia é a mesma que se coloca na condição de juiz que condena. E assim os bonecos acreditam que têm vida própria. 

A sensação frustrante do vazio é a única verdade e, só ela, indicia e abre caminho para desfazer a crença na mentira de que se é livre e feliz. Neste sentido, “a indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto àquilo que está continuamente a lhes prometer. A promissória sobre o prazer, emitida pelo enredo e pela encenação é prorrogada indefinidamente: maldosamente, a promessa a que afinal se reduz o espetáculo significa que jamais chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve se contentar com a leitura do cardápio.”[3]

O triunfo é por tudo isso perpetuado. O controle sobre a ação do trabalhador, exercido dentro da fábrica, se estende para todos os campos possíveis fora dela. O próprio lazer é uma continuidade do trabalho organizado. “A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e sobre sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação das mercadorias destinadas à diversão, que esta pessoa não pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio processo de trabalho.”[4] Deste modo, o domínio se estende para muito além do mundo do trabalho, isto é, consegue penetrar pela via da cultura em seus diversos segmentos e transforma a própria vida das pessoas num produto descartável. A arte – e neste caso até mesmo a arte do futebol – é produzida em série e enfraquecida em seu potencial emancipador.

Ainda que este quadro seja desolador, a esperança representa ainda um caminho possível de resistência e inconformismo. Enquanto totalmente outros e a despeito de todo o (ab)uso que a indústria cultural deles possa fazer, tanto a arte quanto a natureza podem ser fontes de regeneração do que entendemos por lazer ou por diversão. Na medida em que a indústria cultural só consegue dominar movendo, entre outros, estes dois elementos – natureza e arte – ela abre precedentes para que possamos nos situar com e a partir deles – não simplesmente usá-los, o que já nos colocaria na sua lógica – e  com isso nos desviarmos da rota por ela planejada, contra sua monitoração. Isto é, por mais que a indústria cultural transforme e utilize natureza e arte para o seu objetivo de produzir uma homogeneização no modo de pensar e de agir  das pessoas, ela não consegue, por outro lado, encobrir ou apagar totalmente a disposição originária da natureza e da arte, isto é, seu impulso fundamental que é a independência. A natureza enquanto tal (e nós mesmos enquanto parte dela) constitui o ponto de partida da existência histórica do ser humano e, como tal, conserva ainda em si potencialmente a liberdade que é negada no processo totalizador do consumo. Neste sentido, o único caminho é sair dos trilhos da domesticação por ela estabelecida. E aqui o retorno à natureza, não simplesmente considerada como algo externo a nós, mas assumida em primeiro lugar em nós, e considerada como instância à qual originariamente pertencemos, é o que pode nos regenerar. Infelizmente a noção de diversão que temos ainda está definida nestes termos, que os frankfurtianos expressaram: “Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência é sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não, como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última idéia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir.”[5]

Referência Bibliográfica

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento.Fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

 

[1] Universidade de Kassel – Alemanha. Doutorando em Filosofia, bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).

[2] ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.116.

[3] ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.131.

[4] ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.128.

[5] ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.135.

   
 
 

 


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