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Indústria
Cultural: Astúcia e Triunfo
Robinson
dos Santos
“A
diversão favorece a resignação que nela se quer
esquecer.” (Adorno e Horkheimer)
Seria
literalmente “chover no molhado” afirmar, pura e simplesmente, que o futebol
é o substituto atual quase perfeito da religião e que, com isso,
é o novo “ópio do povo”. De fato, ambos são mesmo muito
parecidos e não fica difícil estabelecer uma
comparação entre os dois. A legião de fiéis, o
ritual formalmente hierarquizado, a presença de elementos
metafísicos como a crença em forças do além que
podem ser invocadas em benefício de quem participa, a expulsão de
demônios, os gritos em forma de prece ou as preces expressas
através de gritos se consumam no êxtase e na
purificação da alma ao se constatar que o contato com o
além é real, que o mesmo intervém e opera de forma eficaz
em nossa realidade. Quem se nega a participar do ritual é visto com olhar
suspeito ou, até mesmo, censurado. Um esquema pré-fabricado serve
para classificar as pessoas. Os fiéis se perguntam como é
possível que alguém não queira participar ou que,
simplesmente, não consiga gostar de algo tão apreciado por
milhões e milhões de pessoas. O próprio dogmatismo,
fundamento da crença, não raro, incita ao combate contra os outros
credos, isto é, leva ao fanatismo e à violência. Enfim, sem
que fosse necessária uma lista muito grande de semelhanças e
exemplos o quadro já estaria analisado.
Entretanto,
é bem aí que está a malícia, isto é,
justamente por ser notória a alienação produzida pelo
futebol é que se pode dizer que a astúcia da indústria
cultural consegue prevalecer. A simples afirmação de uma
narcotização coletiva é ela mesma um elemento narcotizante.
Todos aqueles que criticam o futebol enquanto fenômeno massificante e, com
isso, toda a fanfarronice futebolística, isto é, todo o
espetáculo produzido em torno dele, crêem que estão
prestando um grande serviço para a desmistificação ou, em
outras palavras, estariam atuando contra a alienação e pelo
esclarecimento das pessoas. Não estão plenamente errados ao
pensarem assim. Mas reside aí também um equívoco. A
análise finda justamente onde deveria continuar. O futebol é o
alvo fácil da indústria cultural. Ele é colocado como tal
intencionalmente para atrair o olhar da crítica, como a isca para a
caça. Essa é a “grande jogada” ou “o gol de placa” que a
indústria cultural consegue marcar contra nós. A impressão
obtida é que ao fazer-se a crítica do futebol estaria feita toda a
crítica e, justamente por isso fica-se novamente impotente, enquanto ela
avança triunfal e implacavelmente na dominação progressiva
de todos os setores da vida.
Ora,
ao ser constatado nestes termos e utilizado com este propósito, o futebol
cumpre uma dupla alienação. Aliena a massa enquanto a distrai e
aliena a própria crítica porque confirma-se diante dela como
“bode expiatório” e absorve desta toda a atenção.
Enquanto ambos ficam cada um ao seu modo absorvidos antiteticamente, isto
é, a massa por afirmar o futebol, a crítica por negá-lo,
eis que ele ressurge numa terceira perspectiva de forma ainda mais redentora.
Ele manifesta-se como metáfora da política para aplacar a ira da
crítica e promete para a massa a quebra da tediosa rotina.
Por
isso mesmo é que se auto-afirma como livre no que se refere a ideologias
e faz uma divulgação de si mesmo como verdadeira democracia:
todos são iguais dentro do campo e as regras valem igualmente para todos.
Entretanto, quanto mais se afirma como livre e democrático, tanto mais
confirma sua não-neutralidade, sua não-pertença a si mesmo
e ao público, o qual ainda acredita que o esporte é um bem
cultural de todos. O embuste é bem esse: o espetáculo tem dono.
Palco, atores, cenário, indumentária, instrumentos, simplesmente
tudo pertence a filiais do mesmo terrível e onipresente
“patrão”. Conforme Adorno e Horkheimer “a unidade implacável
da indústria cultural atesta a unidade em formação da
política. (...) O fornecimento ao público de uma hierarquia de
qualidades serve apenas para uma quantificação ainda mais
completa.”[2]
O
alívio ou a frustração proporcionados pelo resultado
são no fundo equivalentes: a partida já foi decidida antes mesmo
de o jogo começar. Os talentos estão todos negociados por um
preço criteriosamente calculado antes mesmo de aparecerem no mundo. A
divisão da sociedade em classes e a exploração do ser
humano pelo próprio ser humano se perpetua, entre outros fatores, no
instante em que um pai obriga o filho a querer ser astro de alguma coisa. O
sacrifício de si é o preço de pertença a esta
realidade. E o pior, a monitoração é coletiva: na
ânsia incontrolável de ser astro, popstar ou algo parecido, vale
tudo. Passar pelo ridículo, cometer um atentado trará, ainda que
pelo seu avesso, um momento de fama e de (in)glória. A mesma indústria
que inculca no inconsciente coletivo aquela ânsia é a mesma que se
coloca na condição de juiz que condena. E assim os bonecos
acreditam que têm vida própria.
A
sensação frustrante do vazio é a única verdade e, só
ela, indicia e abre caminho para desfazer a crença na mentira de que se
é livre e feliz. Neste sentido, “a indústria cultural não
cessa de lograr seus consumidores quanto àquilo que está
continuamente a lhes prometer. A promissória sobre o prazer, emitida pelo
enredo e pela encenação é prorrogada indefinidamente:
maldosamente, a promessa a que afinal se reduz o espetáculo significa que
jamais chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve se contentar com a
leitura do cardápio.”[3]
O
triunfo é por tudo isso perpetuado. O controle sobre a ação
do trabalhador, exercido dentro da fábrica, se estende para todos os
campos possíveis fora dela. O próprio lazer é uma
continuidade do trabalho organizado. “A diversão é o
prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada por
quem quer escapar ao processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo
em condições de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a
mecanização atingiu um tal poderio sobre a pessoa em seu lazer e
sobre sua felicidade, ela determina tão profundamente a fabricação
das mercadorias destinadas à diversão, que esta pessoa não
pode mais perceber outra coisa senão as cópias que reproduzem o próprio
processo de trabalho.”[4] Deste modo, o domínio
se estende para muito além do mundo do trabalho, isto é, consegue
penetrar pela via da cultura em seus diversos segmentos e transforma a própria
vida das pessoas num produto descartável. A arte – e neste caso até
mesmo a arte do futebol – é produzida em série e enfraquecida em
seu potencial emancipador.
Ainda
que este quadro seja desolador, a esperança representa ainda um caminho
possível de resistência e inconformismo. Enquanto totalmente outros
e a despeito de todo o (ab)uso que a indústria cultural deles possa
fazer, tanto a arte quanto a natureza podem ser fontes de regeneração
do que entendemos por lazer ou por diversão. Na medida em que a indústria
cultural só consegue dominar movendo, entre outros, estes dois elementos
– natureza e arte – ela abre precedentes para que possamos nos situar
com
e
a partir deles
– não simplesmente
usá-los,
o que já nos colocaria na sua lógica – e com isso nos
desviarmos da rota por ela planejada, contra sua monitoração. Isto
é, por mais que a indústria cultural transforme e utilize natureza
e arte para o seu objetivo de produzir uma homogeneização no modo
de pensar e de agir das pessoas, ela não consegue, por outro lado,
encobrir ou apagar totalmente a disposição originária da
natureza e da arte, isto é, seu impulso fundamental que é a
independência. A natureza enquanto tal (e nós mesmos enquanto parte
dela) constitui o ponto de partida da existência histórica do ser
humano e, como tal, conserva ainda em si potencialmente a liberdade que é
negada no processo totalizador do consumo. Neste sentido, o único caminho
é sair dos trilhos da domesticação por ela estabelecida. E
aqui o retorno à natureza, não simplesmente considerada como algo
externo a nós, mas assumida em primeiro lugar em nós, e
considerada como instância à qual originariamente pertencemos,
é o que pode nos regenerar. Infelizmente a noção de diversão
que temos ainda está definida nestes termos, que os frankfurtianos
expressaram: “Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso,
esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. A impotência
é sua própria base. É na verdade uma fuga, mas não,
como afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última idéia de resistência
que essa realidade ainda deixa subsistir.”[5]
Referência
Bibliográfica
ADORNO,
Theodor W.; HORKHEIMER, Max.
Dialética
do Esclarecimento.Fragmentos
filosóficos. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 1985.
Universidade
de Kassel – Alemanha. Doutorando em Filosofia, bolsista do Serviço Alemão
de Intercâmbio Acadêmico (DAAD).
ADORNO/HORKHEIMER,
1985, p.116.
ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.131.
ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.128.
ADORNO/HORKHEIMER, 1985, p.135.