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O gato do Papa

Paulo Suess  [1]

Alguns dias antes da viagem à sua terra natal, o papa Bento XVI declarou numa entrevista: "Naturalmente levo também, como corresponde ao meu ofício, uma mensagem que vai além da própria terra". A viagem deu ao papa a oportunidade de revisitar lugares de sua infância, de estudante, de professor e pastor na Baviera, no sul da Alemanha. Bento XVI desmentiu o ditado de que o profeta não seja bem recebido em sua pátria - mas também não era tão profética a sua mensagem. Mesmo assim, seus sermões impressionaram pela articulação de uma linguagem simples com uma profundidade do saber teológico, sempre propondo um Deus com rosto humano encontrado em Jesus Cristo para toda a humanidade; sua palestra na Aula Magna da Universidade de Regensburg foi ovacionada pelos presentes e, num primeiro momento, elogiada pelos meios de comunicação.O pensamento de fundo, de Bento XVI, gira em torno de dois eixos: verdade e razão, respondendo a verdade ao relativismo de verdades no plural e a racionalidade à irracionalidade que se desdobra num ateísmo prático-teórico do acaso e em fundamentalismos que recorrem à violência. A questão dos pobres não é central no pensamento de Bento XVI, embora que já tenha escrito textos bonitos sobre a pobreza, porém sem especificar os sujeitos dessa pobreza e aprofundar as suas causas.

No dia 14 de setembro 2006, o papa voltou para Castelgandolfo com a certeza de ter cumprido a sua missão. Horas depois, porém, sua aula acadêmica de Regensburg, na qual 42 vezes falou da "razão" e 36 vezes da "fé", começou a repercutir negativamente no mundo islâmico. A pedra de tropeço foi uma frase citada por Bento XVI e por ele mesmo qualificada como "surpreendentemente rude". Poder-se-ia perguntar por que citar uma frase, "surpreendentemente rude", de uma controvérsia do fim do século XIV sobre o cristianismo e o islã, entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogos (1391-1425) e Mudarris, um muçulmano erudito da Pérsia, numa mensagem que vai intencionalmente "além da própria terra"?

Nessa controvérsia, o imperador fala sobre a pregação do Jihad, a "guerra santa", e provoca seu interlocutor: "Mostra me o que Maomé trouxe de novo e você vai encontrar só coisas más e desumanas, como defender a fé, que ele pregava, com a espada". Desse diálogo o papa assume a conclusão do imperador: Deus não tem gosto no derramamento de sangue nem em ações que são contra a razão. A divulgação da fé pela violência é contra a essência de Deus e da alma e, portanto, um absurdo. Em seguida, o papa cita um comentarista dessa controvérsia que deixa entender que para a doutrina muçulmana, Deus seria absolutamente transcendente e sua vontade não depende de categorias humanas como a racionalidade. "O encontro da mensagem bíblica e do pensamento grego não foi um acaso", diz o papa e admite que essa síntese entre fé e razão nem sempre norteou a reflexão teológica cristã. Depois do intelectualismo de Agostinho e Tomás d`Aquino, nasce, com Duns Scotus, uma vertente voluntarista que mais tarde afirma, semelhante a posições muçulmanas, que a liberdade e a alteridade de Deus não devem ser subjugadas a categorias de racionalidade humana, dando margens, desta maneira, a um Deus arbitrário, que poderá justificar atitudes religiosas irracionais. A fé da Igreja rejeitou essa hipertrofia da transcendência e alteridade de Deus. Entre Deus e seu espírito criador, por um lado, e a razão criada da humanidade, por outro lado, existe uma analogia. Deus não se torna maior pela distância, mas pela proximidade do Logos encarnado. Esse encontro entre fé bíblica e questões da filosofia grega, assim Bento XVI generaliza, é não só algo local ou ocasional, mas um acontecimento universal e ontológico.

Compreende-se a aflição e a estratégia de um papa que, num território onde a ciência e as possibilidades de intervenção na vida avançam sem se interessar muito por princípios ontológicos, afirma que as questões humanas essenciais sobre a origem e a finalidade da humanidade, as questões da religião e do ethos, têm seu lugar nas universidades. Caberia naturalmente aqui a pergunta sobre o porquê do esforço da Santa Sé de retirar as faculdades teológicas das universidades latino-americanas. A fé não só não dispensa a razão, disse Bento XVI, mas participa dela, desde que seja purificada de seu autoritarismo reducionista e de seu delírio de onipotência. Por outro lado, frente aos fundamentalismos correntes, que ele considera irracionais, tenta cobrar essa racionalidade como uma fronteira contra a violência. A história mostra que religião e razão, cada uma sem a ajuda da outra, são capazes de cometer grandes barbaridades.

Para o mundo católico e acadêmico de Regensburg, a aula tinha seus méritos, ao esclarecer: (1.) O cristão age no mundo racionalmente, em harmonia e em analogia com a essência de Deus. O papa distingue claramente a vontade de Deus de uma arbitrariedade divina que amanhã poderia ordenar o contrário daquilo que hoje ordenou. (2.) A razão na forma do Logos marca o início e a finalidade da humanidade e do cosmo. Uma fé sem racionalidade do Logos não corresponde à nossa imagem de Deus. (3.) A fé tem sua forma específica de racionalidade, de cunho filosófico e especulativo, que vai além de uma racionalidade meramente empírico-pragmática. A razão da fé complementa a racionalidade científica. (4.) O núcleo central do cristianismo, a mensagem da fé racional em analogia com a racionalidade de Deus, é o shalom, a não-violência, a construção da Nova Jerusalém, da cidade da paz.

As contestações de setores muçulmanos surgiram a partir de diferentes leituras, sensibilidades culturais e ideologias políticas. Já que o papa foi longe na sua memória, lembrando a "guerra santa" islâmica como substrato da violência de setores terroristas de hoje, por que não mencionou de passagem as guerras santas das Cruzadas, da Inquisição, da Conquista Espiritual das Américas e do petróleo? Falou das patologias da religião e da razão dos outros e deixou entender que no Alcorão existe, por causa da transcendência absoluta de Deus, uma falta de racionalidade. E os ouvintes muçulmanos se lembravam, certamente, da Declaração Dominus Iesus, assinada pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Ratzinger, que considera as religiões não-critãs "numa situação gravemente deficitária" (DI, n. 22). Em Regensburg falou o professor Ratzinger, não o papa Bento, e o barco virou para o lado, prestes a naufragar.

Mas quem voltou para casa não foi o professor, foi o papa. E quem acusa o papa Bento XVI de guerreiro antimuçulmano deveria primeiro ler seu discurso por ocasião da XX Jornada Mundial da Juventude, de Colônia, onde se encontrou, no dia 20 de agosto de 2005, com os muçulmanos. Ao mencionar o terrorismo, nesse discurso, o papa disse: "Bem sei que muitos de vós negastes com determinação, também publicamente, em particular qualquer vínculo da vossa fé com o terrorismo, e que já o condenastes com clareza". E Bento continuou dizendo que o terrorismo procura "envenenar os nossos relacionamentos". Mas, "graças a Deus, concordamos sobre o fato de que o terrorismo, de qualquer matriz que seja, constitui uma opção perversa e cruel, que viola o direito sacrossanto à vida". E com realismo histórico o papa acrescentou: "A experiência do passado ensina-nos que o respeito mútuo e a compreensão, infelizmente, nem sempre caracterizaram as relações entre os cristãos e os muçulmanos." Depois, o papa invocou a Declaração Nostra Aetate, "Sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs" (n. 3), do Vaticano II, sugerindo que os setores esclarecidos se juntem numa aliança contra qualquer violência religiosa, inerente a todas as religiões. Faltaram essas referência, na Universidade de Regensburg, para que a aula do papa tivesse uma dimensão macroecumênica.

Há gente que acha que nós, na América Latina, podemos assistir essa controvérsia de camarote, mas o dito e o não-dito são significativos. Que o papa - ou foi o professor Ratzinger? -, ao falar numa universidade do Primeiro Mundo, não falou dos pobres, do abismo entre ricos e pobres como uma das causas da violência no mundo, foi uma omissão já mencionada. A razão purificada que Bento XVI tanto enfatiza, pode e deve servir à humanidade pobre e excluída. Não seria essa a "ampliação do nosso conceito e uso da racionalidade" que ele propôs? O que é mais irracional e antievangélico do que a nossa sociedade de consumo privilegiado? É claro, não se pode falar de tudo, a não ser de opções preferenciais...

Que o papa falou da síntese entre helenismo, como cultura guia, e cristianismo como se fosse não uma inculturação, mas o prolongamento de uma revelação irreversível já prevista no Antigo Testamento, parece questionável. Um papa da África não diria: "Penso nas categorias gregas de uma racionalidade cartesiana purificada, logo existo". Diria talvez, sem se considerar pós-moderno ou relativista: "Existo porque nós existimos, comemos e bebemos, rezamos, rimos e dançamos em múltiplas vozes e racionalidades culturais". Talvez faria da aula, que é um evento monológico, um seminário, portanto, um evento participativo, que uma questão tão séria como a violência religiosa mereceria.

A aula mais importante, que o papa deu em Regensburg, é a aula sobre a dificuldade de comunicação intercultural da fé. Como falar num mundo globalizado, portanto conectado ao vivo, através de sinais, linguagens e gestos com múltiplos significados? Aspectos óbvios de uma determinada mensagem na cultura do falante podem ser inadmissíveis na cultura do ouvinte. Criticar Maomé e o Alcorão, fazer charges humorísticas de Alá e dar algumas "indiretas" num discurso universitário, na cultura muçulmana de hoje têm um significado muito diferente de uma crítica na cultura ocidental.

Para caracterizar o mal-entendido de Regensburg, pode servir a história de um missionário que chegou com seu gato numa aldeia indígena. Segundo a crença daquele povo, apenas bruxos tinham gatos, que usavam, para roubar a alma das pessoas enquanto dormiam. O missionário com seu gato foi logo identificado como bruxo. No dia seguinte à sua chegada, reuniu-se com o povo da aldeia. Perguntado sobre o objetivo de sua vinda, o missionário declarou que veio para conquistar a alma do povo para Cristo. Por algum tempo, obviamente, esse missionário correu risco de vida. Acusar os índios da aldeia de fanáticos ou ignorantes seria injusto.

O gato e uma citação de texto são, semioticamente falando, signos com múltiplos significados. O gato que o papa levou para a aldeia de Regensburg era seu conceito de razão universal. A partir desse conceito, ele procurou corrigir conceitos de razão e racionalidade da ciência, da modernidade e do mundo muçulmano de hoje. Achou que seu conceito de racionalidade, em parceria com seu conceito de fé, seria universalmente válido.

Mas os ouvintes muçulmanos de sua aula ampliada pelos meios de comunicação, não viram racionalidade nenhuma nas palavras do imperador Manuel II. Paleólogos. Códigos, signos, significados e razões de vida e racionalidades teológicas são cultural e historicamente situadas. A citação do imperador bizantino tinha, para os ouvintes, a função de reforçar o argumento do papa. Quem invoca alguém que fala mal de Maomé e do Islã só pode ser um bruxo maledetto. E o papa Bento XVI, com as melhores intenções, teve de assistir o espetáculo no qual seu gato virou onça. E onça não se deve cutucar com vara curta.

 

[1] Missiólogo. Membro do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Fonte: Adital, em 06/10/2006 www.adital.com.br

   
 
 

 


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