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FINADOS:
Por que pensar na morte?
“Aqueles
que passam por nós, não vão só, não nos
deixam só. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”(Antoine
de Saint-Exupery)
José
André da Costa
[
Nascer,
morrer e desenvolver é o ritmo bio-fisiológico dos seres vivos que
demarcam sua existência no mundo. Morrer não é
necessariamente um destino, porém viver é um dom. Assim, a morte não
é uma saqueadora da existência nem a vida é uma
provisoriedade da morte. Estar na vida é ter a morte como ausência-presente,
e morrer pode ser uma sábia conclusão da vida. A vida carrega a
morte potencialmente, mas da morte brota a vida atualmente. O desabrochar da
vida é resultado de sínteses de muitas mortes, porque é
morrendo que se garante a vida permanente. A semente lançada ao chão,
que não morre, não desabrocha em flor e fruto. Flor e fruto são
as vitórias da vida vencendo a morte. A verdade da árvore não
está contida nela mesma, mas na semente como dom da árvore. Se a
árvore não estivesse contida na semente, como potencialidade não
seria possível sua atualidade de árvore. Essa é uma verdade
genuína que vale para todo ser vivo. Morrer e viver é uma dialética
da nossa existência. Ou no dizer de Júlio Cabrera: “o nascimento
é o engano de pensar que a vida será possível com aquele
que nasce, e o homicídio é o engano de pensar que a vida será
possível sem aquele que morre.” Por que nós, seres humanos,
fugimos ou vivemos escamoteando esta verdade? Por que o medo da morte? Será
a morte um acontecimento fatal e radical? A morte tem sentido ou é um
absurdo da existência? O empenho de uma vida substantiva significa
encontrar as razões para o viver que é, na verdade, dar sentido ao
morrer.
Pensar
na morte e pensar a morte não significa, muitas vezes, viver a vida. A
morte e a vida se implicam existencialmente. O imperativo ético da morte
significa “exercitar” o morrer como um salto de qualidade de vida. Morrer não
será o fim, mas será o começo de uma vida nova. Da morte da
semente surge o broto novo que se desenvolve como a vida da morte. Nosso maior
dilema é ter consciência de saber que viver dói, que morrer
dói e que aprender dói. A morte pode ser um paradoxo, mas o morrer
é um aprendizado. Para que se cresça é preciso que se
morra, mas é vivendo que se encontra o sentido da morte. O sentido da
morte não está ao alcance de nossas mãos, mas no horizonte
da esperança. Morrer não é desesperançar, mas
é esperançar. Encarando a morte nos olhos, encontraremos o sentido
dela para subsumi-la na vida. A dor do morrer não significa a morte nem a
dor da vida significa a morte. O morrer e o viver não são o
perecer radical, mas pode ser o vir-a-ser de uma vitalidade nova. O medo da
morte se vence encorajando a vida.
A
morte não é um fato extrínseco à existência do
seres humanos, como também de qualquer ser vivo, mas é algo intrínseco
à vida. Assim, o sentido da vida está em viver a cada instante
como um passo-para-morte, fazendo da existência uma autêntica
apropriação de vida. Vive-se morrendo e morrendo é que se
vive autenticamente. Fingir a morte ou querer antecipá-la, é uma
atitude não justificável do ponto de vista ético-moral. A
vida é um valor absoluto, não cabendo a escolha de querer
relativizá-la por uma escolha caprichosa ou de medo existencial. A consciência
do morrer nos põe em atividade constante. Ser criativo é
fazer da vida uma obra de arte. Porém, o melhor da vida é morrer
fundido na obra. Assim, a morte será o reconhecimento da vida e a vida dá
sentido à morte. Portanto, ser criativo é modificar o morrer em
viver. Não nascemos prontos, por isso, a cada instante estamos nos
modificando e nos modificamos para nos refazermos. Aliás, o
reconhecimento humano se dá quando ele se reconhece nas obras de suas mãos.
Transformar a morte em vida é a obra de arte mais genuína que o
ser humano pode conceber. A angústia humana, muitas vezes, se encontra na
inautenticidade da existência, ou seja, na insegurança do ser
humano em ser sujeito de sua obra de vida, encarando a morte como se ela fosse o
fim da existência. A angústia não é só o medo
da morte, mas de vez em quando entramos em pânico diante da grandiosidade
da vida.
A
morte não é a finalidade da vida. A vida não finda com a
morte, mas se conclui com a morte para gerar mais vida. A fé na ressurreição
é a notícia nova de que a vida venceu a morte e que, apesar da
morte, a vida será sempre a última palavra e não a morte.
Pensar na morte é revisar nossa existência no mundo para perceber
se nossa a vida está sendo uma doce passagem pela história e se
nosso viver não está sendo em vão. Celebrar os nossos entes
queridos neste dia finados é confirmar que sua lembrança é
um existencial para nós e que morrer não é esperar, mas
esperançar. Ter esperança é preciso; desesperar, não!
O túmulo não é a indicação do vazio, mas da
esperança que não nos engana, porque toda semente plantada, que
morre, gerará muitos frutos. Na morte da semente a vida da flor
desabrocha, afirmando que a vida continua, apesar da morte. Assim, semente, flor
e frutos se encontrarão na festa da árvore da vida, numa
permanente caminhada para o Reino da luz.